Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

Parte 7

A reunião seguinte aconteceu na sede da Horizonte, em São Paulo.

Eu não voltava àquele prédio havia seis anos.

A fachada tinha sido reformada.

O logotipo era outro.

A recepção era maior.

Mas o cheiro frio do ar-condicionado e o som dos elevadores me trouxeram lembranças que meu corpo reconheceu antes de mim.

Minha advogada percebeu.

— Quer parar um pouco?

— Não.

Não estava ali para provar coragem.

Estava ali porque precisava decidir.

Subimos.

Na sala já estavam Renato, dois representantes do jurídico e uma profissional de compliance que eu nunca tinha visto.

Lívia não participaria.

A reunião começou pela patente.

A Horizonte apresentou uma proposta preliminar.

Reconhecia que a cadeia documental era contestável e aceitava negociar uma correção de titularidade acompanhada de licença de uso.

Não era uma confissão de apropriação indevida.

Era uma saída empresarial.

Minha advogada me perguntou se eu queria um intervalo.

— Não ainda.

Olhei para os números.

A proposta previa pagamento futuro pela exploração da tecnologia.

Mas exigia que eu reconhecesse a regularidade de todos os atos anteriores.

— Não aceito essa cláusula.

O advogado da Horizonte explicou:

— É uma proteção necessária para a companhia.

— Para a companhia, talvez. Para mim, significaria dizer que não houve problema nenhum.

— Podemos ajustar a redação.

— Ajustar não basta. Eu não vou assinar uma mentira para receber dinheiro.

Renato enfim falou.

— Marina, ninguém está pedindo para você mentir.

Virei-me para ele.

— Então retirem a frase.

O advogado pediu um intervalo.

Saíram da sala.

Renato permaneceu.

Minha advogada também.

Ele parecia incomodado com a presença dela, mas não pediu privacidade.

— Você quer que eu diga que errei?

— Na patente?

— Em tudo.

Eu levei alguns segundos.

— Eu quero que você diga a verdade quando for necessário. Não quero uma frase emocional para me fazer aceitar um contrato ruim.

Ele baixou os olhos.

— Eu sabia que Lívia estava grávida pouco depois do divórcio.

Minha respiração ficou mais lenta.

— Quanto tempo depois?

— Duas semanas.

— E você nunca se perguntou quando aquela gravidez tinha começado?

Renato não respondeu.

— Você já se relacionava com ela antes de me acusar?

O silêncio dele durou demais.

— Sim.

Não senti o choque que imaginara durante tantos anos.

Talvez porque, no fundo, aquela resposta sempre estivesse ali.

O que senti foi algo diferente.

Uma espécie de cansaço.

— Há quanto tempo?

— Alguns meses.

— Enquanto ainda éramos casados.

— Sim.

Minha advogada não falou.

Renato esfregou as mãos.

— Eu estava infeliz.

— Então poderia ter pedido o divórcio.

— Eu sei.

— Poderia ter dito que queria outra pessoa.

— Eu sei.

— Mas decidiu construir uma versão em que eu era a culpada.

Ele apertou os olhos.

— Eu acreditava que você também estava me traindo.

— Porque era mais conveniente acreditar.

— Talvez.

Foi a primeira vez que ouvi Renato usar uma palavra que não tentava se justificar por completo.

Talvez.

O jurídico voltou.

A discussão da patente continuou.

A cláusula foi retirada.

Em seu lugar, entrou uma redação neutra: nenhuma das partes abriria mão de discutir a validade dos atos passados até que a revisão documental fosse concluída.

Eu aceitei seguir negociando.

A segunda parte da reunião tratou do processo comercial da Vértice.

A profissional de compliance informou que, por causa da relação anterior comigo e do conflito relacionado à patente, Renato não participaria mais da decisão sobre o fornecedor.

Ele reagiu.

— Isso é desnecessário.

Ela permaneceu firme.

— É uma medida de governança, não uma punição.

Aquilo mudou o jogo.

Renato continuava vice-presidente.

Continuava importante.

Mas não podia mais decidir sozinho sobre o contrato que havia colocado novamente nossas vidas na mesma mesa.

No corredor, depois da reunião, ele veio atrás de mim.

— Você conseguiu o que queria.

Parei.

— Não.

— Eu fui retirado da decisão.

— Eu não pedi isso.

— Mas aconteceu por sua causa.

— Aconteceu porque existe um conflito que você não informou antes.

Ele ficou imóvel.

— Você quer me ver perder a empresa?

— Não.

A resposta saiu sem esforço.

— A empresa não é você. Tem funcionários, clientes e gente que nunca participou do que aconteceu entre nós.

Ele pareceu não esperar por aquilo.

Continuei:

— Eu quero corrigir o que puder ser corrigido. O resto é consequência das escolhas de cada um.

Na volta para Curitiba, passei boa parte do voo pensando nessa frase.

Durante anos, eu havia fantasiado sobre justiça como se ela precisasse vir na forma de queda.

Renato humilhado.

Lívia derrotada.

A empresa desmoronando.

Agora eu enxergava o quanto isso ainda me manteria presa a eles.

Meu objetivo mudou.

Eu não queria assistir Renato cair.

Queria parar de carregar o peso que ele tinha colocado sobre mim.

Naquela noite, liguei para minha advogada.

— Quero fazer uma proposta.

— Sobre a patente?

— Sobre tudo o que é possível resolver formalmente.

Expliquei.

Queria a correção da titularidade técnica.

Queria remuneração justa pelo uso futuro.

Queria que a empresa retirasse dos registros internos qualquer afirmação de que eu havia sido afastada por falta de integridade profissional, caso ainda existisse algo assim.

E queria uma declaração escrita de Renato reconhecendo que a acusação de infidelidade nunca tinha sido comprovada.

A advogada ficou alguns segundos sem falar.

— Essa última parte pode ser difícil.

— Eu sei.

— E não substitui uma investigação sobre o que aconteceu no hotel.

— Também sei.

— Tem certeza de que quer incluir?

— Tenho.

Não queria que ele dissesse que eu era perfeita.

Não queria pedido de perdão.

Queria impedir que a mentira continuasse com aparência de fato.

Dois dias depois, a Horizonte respondeu.

Aceitava discutir quase todos os pontos.

Um deles, porém, Renato rejeitava pessoalmente.

A declaração.

Ele não queria colocar por escrito que a acusação nunca fora comprovada.

E foi então que entendi onde estava a última muralha.

Não era dinheiro.

Não era patente.

Era a história que ele contava a si mesmo havia seis anos.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1