
Parte 2
Renato inclinou o corpo para trás e cruzou as mãos sobre a mesa. — Fico satisfeito em saber que pensamos de forma parecida. O problema é que algumas transportadoras falam muito em conformidade e, quando chega a hora de assumir responsabilidade, começam a procurar brechas. Eu sustentei o olhar dele. — Por isso os indicadores precisam ser objetivos, não pessoais.
O gerente de compras da Horizonte abriu uma pasta e apresentou as metas de temperatura, tempo de resposta e índice máximo de excursão térmica. Eram metas duras, mas tecnicamente possíveis. O problema estava nas penalidades: qualquer desvio, mesmo causado por fatores fora do controle do operador, poderia gerar compensações muito acima do valor da carga. Bastos percebeu o mesmo e não disse nada, deixando que eu conduzisse.
— Podemos assumir responsabilidade pelo que estiver dentro da nossa operação — falei. — Mas uma cláusula que transfere todo risco da cadeia para um único prestador não aumenta segurança. Só cria um contrato impossível de equilibrar.
Renato apoiou o cotovelo na mesa. — Se a Vértice considera as exigências excessivas, podemos conversar com outros fornecedores. — Naturalmente — respondi. — E nós também podemos decidir quais contratos fazem sentido para a empresa.
Por alguns segundos, ninguém tocou nos talheres. O diretor de marketing baixou os olhos para o prato. O jurídico da Horizonte folheou o documento e fez uma pequena anotação. Lívia, ao contrário, continuou sorrindo.
Ela ergueu o pulso para ajeitar o cabelo, deixando a pulseira à vista outra vez. — Marina sempre foi muito cuidadosa com detalhes — comentou. — Desde a época em que trabalhávamos juntas. Eu olhei para a joia, depois para ela. — Alguns detalhes realmente merecem ser lembrados.
O sorriso de Lívia perdeu força. Renato percebeu, mas não interferiu. Em vez disso, passou para o tema técnico e pediu que apresentássemos nossa metodologia de monitoramento de temperatura. Eu abri o material preparado pela equipe e comecei a explicar.
No terceiro slide, Renato interrompeu. — A Horizonte utiliza um protocolo próprio para redistribuição de cargas em caso de falha térmica. Queremos que o fornecedor seja capaz de operar de acordo com ele. O gerente de compras colocou uma folha sobre a mesa. Bastou olhar a sequência de parâmetros para eu reconhecer a estrutura.
Não era uma cópia literal do trabalho do meu pai. Havia adaptações, atualizações e linguagem nova. Mas a lógica central estava ali, na mesma ordem que eu tinha visto centenas de vezes quando ainda trabalhava ao lado dele. Minha mão permaneceu imóvel sobre a pasta.
— Esse protocolo foi desenvolvido internamente? — perguntei. Renato respondeu antes do gerente de compras. — É propriedade tecnológica da Horizonte. — Atualmente registrada dessa forma? — Atualmente utilizada dessa forma.
A diferença entre as duas respostas não passou despercebida pelo chefe do jurídico deles. Ele levantou os olhos. Bastos fez o mesmo. Eu apenas assenti e marquei a página com uma caneta.
Lívia se apressou em falar. — A Horizonte cresceu muito nesses últimos anos. Muita coisa mudou desde que você saiu. — Imagino — respondi. — Crescimento costuma deixar rastros bem documentados.
Renato largou o guardanapo ao lado do prato. — Você está insinuando alguma coisa? — Estou analisando uma exigência técnica do cliente. Foi para isso que me chamaram.
O restante do jantar prosseguiu num tom mais controlado. Nenhum dos lados voltou à pulseira, ao passado ou ao protocolo. Quando a sobremesa chegou, o jurídico da Horizonte sugeriu uma reunião técnica na manhã seguinte para revisar os pontos de responsabilidade e propriedade operacional. Bastos concordou.
Já perto do fim, Renato pediu que os demais esperassem no saguão. Quando percebi que ele pretendia ficar sozinho comigo, levantei minha pasta. — Qualquer assunto relacionado ao contrato pode ser tratado amanhã com as equipes presentes. — Marina, eu só queria conversar. — E eu não quero misturar as coisas.
Foi então que Bastos voltou à porta. Ele tinha esquecido o celular sobre a mesa e ouviu o final da conversa. Olhou de Renato para mim e não fez nenhuma pergunta naquele momento.
No elevador, porém, Bastos falou baixo. — Amanhã, antes da reunião, quero você no meu escritório. Se existe algum conflito pessoal que possa afetar essa negociação, preciso saber. Eu respirei fundo. Durante seis anos, escondi aquela história como se o silêncio fosse a única forma de continuar em pé.
Desta vez, não seria.
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