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LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

Parte 10

A reunião final da Horizonte começou às dez da manhã.

Bastos estava ao meu lado.

Do outro lado da mesa, o gerente de compras, o jurídico e dois diretores que eu não conhecia pessoalmente.

Renato não fazia parte da comissão.

Isso tinha sido decidido pelo compliance.

Ele permaneceu apenas como representante executivo no início da reunião e saiu antes da discussão comercial.

Eu achei apropriado.

O gerente de compras apresentou a conclusão.

A Vértice não tinha a proposta mais barata.

Também não tinha a maior cobertura geográfica própria.

Mas possuía o melhor conjunto entre rastreabilidade, contingência e capacidade de adaptação operacional.

A Horizonte queria contratar nossa empresa para cinco dos sete estados previstos inicialmente.

Os outros dois ficariam com outro fornecedor.

Bastos começou a discutir os últimos ajustes.

Eu participei apenas das questões técnicas.

Nada foi entregue como favor.

Nada veio como reparação pelo meu passado.

Havia metas, garantias, prazos e responsabilidades dos dois lados.

No fim, o jurídico colocou a versão final sobre a mesa.

Bastos me olhou.

— Tecnicamente?

Revisei os pontos.

— Tecnicamente, funciona.

Ele assinou.

Eu senti uma satisfação tranquila.

Não era a sensação de derrotar Renato.

Era melhor.

Era a sensação de fazer bem o meu trabalho.

Depois da reunião, fiquei alguns minutos numa sala menor com minha advogada para concluir os documentos particulares relacionados à patente.

A regularização definitiva ainda exigiria providências administrativas.

Não seria concluída naquele dia.

Mas o acordo definia quem faria o quê, quais documentos seriam apresentados e como o uso futuro seria remunerado.

A Horizonte também se comprometia a corrigir registros internos que associassem minha saída a falta de ética profissional.

Minha advogada fechou a pasta.

— A partir daqui, boa parte é execução.

— Finalmente.

Ela sorriu.

— Você sabe que ainda vai ter burocracia.

— Burocracia eu aguento.

Quando saí, encontrei Renato sozinho perto dos elevadores.

Por um momento, nenhum dos dois falou.

Ele olhou para a pulseira no meu pulso.

Reconheceu.

— Lívia devolveu.

— Sim.

— Eu não sabia que ela tinha pegado.

— Imagino.

As portas do elevador abriram.

Nenhum de nós entrou.

Renato colocou as mãos nos bolsos.

— Davi perguntou quem você era.

Meu corpo ficou atento.

— E o que você disse?

— Que você era uma pessoa com quem eu trabalhei há muito tempo.

Assenti.

— É melhor assim.

Ele pareceu querer dizer mais.

— Marina, independentemente de tudo, ele é meu filho.

— Eu nunca disse o contrário.

— Eu sei.

— E nunca vou envolver uma criança no que vocês fizeram.

Renato respirou com dificuldade.

— Obrigado.

— Não agradeça por eu fazer o mínimo.

Ele abaixou a cabeça.

Foi talvez a primeira conversa entre nós em que não havia disputa.

Somente consequência.

— Lívia e eu estamos separados — disse.

A notícia não me causou nada.

— Isso é entre vocês.

— Achei que você gostaria de saber.

— Há alguns anos eu gostaria.

Ele levantou os olhos.

— E agora?

Olhei para o corredor.

— Agora eu só quero ir embora.

Dessa vez, entrei no elevador.

Renato não tentou me seguir.

Antes de as portas fecharem, ouvi sua voz.

— Marina.

Segurei o botão.

— Eu destruí muita coisa porque tive medo de admitir o que eu estava fazendo.

Não respondi.

Ele continuou:

— Você não merecia aquilo.

Durante seis anos, eu esperara uma frase parecida.

Quando finalmente a ouvi, percebi que ela não tinha poder para reconstruir meu passado.

Mas também não precisava ter.

— Eu sei — respondi.

As portas se fecharam.

Voltei para Curitiba naquela mesma tarde.

Na segunda-feira, Bastos me chamou ao escritório.

Eu esperava falar sobre o novo contrato.

Ele tinha outro assunto.

— A expansão para os cinco estados vai exigir uma estrutura regional maior.

— Sim.

— Quero que você lidere a implantação.

Olhei para ele.

— Isso inclui contratação, desenho das rotas e gestão comercial?

— Tudo isso.

— Bastos, eu vou precisar de autonomia.

— É por isso que estou oferecendo.

Sorri.

— Então aceito.

Nas semanas seguintes, minha rotina se tornou intensa.

Havia centros de distribuição para avaliar, transportadoras parceiras para homologar e equipes para treinar.

O contrato com a Horizonte ocupava apenas uma parte do trabalho.

Era exatamente como eu queria.

Helena continuou na empresa.

Falávamos raramente.

Quando o compliance encerrou a parte interna que podia ser compartilhada conosco, ela me mandou uma única mensagem:

“Espero que agora você consiga seguir.”

Respondi:

“Estou seguindo há algum tempo.”

Era verdade.

Lívia cumpriu o que havia prometido.

Seu depoimento foi formalizado pelos canais adequados.

Minha advogada cuidou do restante.

Eu decidi não procurar contato pessoal.

Não precisava ouvir mais desculpas.

A verdade essencial já estava clara.

Ela havia construído o cenário.

Renato escolhera acreditar porque a mentira atendia aos seus interesses.

Os dois tinham responsabilidades diferentes.

Nenhum deles podia colocar toda a culpa no outro.

Eu também parei de me perguntar por que não tinha lutado mais naquela época.

A mulher que assinou aqueles papéis seis anos antes estava exausta, humilhada, com a mãe no hospital e cercada por pessoas que pareciam ter todas as respostas.

Julgar aquela versão de mim usando a força que eu só construí depois seria outra forma de injustiça.

Meses mais tarde, a regularização da patente avançou.

Meu nome voltou a aparecer nos registros relacionados aos direitos derivados da tecnologia que meu pai havia deixado.

A Horizonte manteve uma licença de uso.

Eu recebia remuneração conforme o acordo.

Não fiquei milionária da noite para o dia.

Nenhuma empresa desmoronou.

Renato não perdeu tudo.

A vida real raramente fecha suas contas de forma tão teatral.

Mas os limites mudaram.

A tecnologia deixou de ser tratada como se tivesse surgido das mãos dele.

Minha reputação profissional deixou de carregar uma acusação nunca provada.

A pulseira voltou para mim.

E, mais importante, minhas decisões também.

Certa noite, depois de uma visita a um novo centro de distribuição, fiquei sozinha no estacionamento observando caminhões refrigerados saírem em sequência.

As luzes traseiras desapareceram pela avenida.

Meu celular tocou.

Era Bastos.

— A primeira rota interestadual saiu sem atraso.

— Eu vi.

— Está satisfeita?

Olhei para os veículos se afastando.

Pensei em responder com alguma frase grandiosa.

Não precisava.

— Estou.

Desliguei.

Passei o dedo sobre a pequena pedra em forma de gota no meu pulso.

Durante muito tempo, eu tinha acreditado que só conseguiria seguir em frente quando todas as pessoas que me feriram pagassem exatamente o que deviam.

Estava errada.

Algumas dívidas foram reconhecidas.

Outras tiveram consequências.

Algumas feridas jamais poderiam ser convertidas em dinheiro, documentos ou pedidos de desculpas.

Mas minha vida não dependia mais de fechar cada conta.

Dependia de quem decidia o próximo passo.

Desta vez, essa pessoa era eu.

E isso bastava para começar de novo.

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