
Parte 4
A revisão interna adiou a negociação por quarenta e oito horas.
Dois dias podem parecer pouco. Para quem trabalha com contratos grandes, porém, dois dias bastam para mudar o equilíbrio de uma mesa.
Renato não podia mais usar a pressa como arma.
A Vértice não precisava aceitar qualquer cláusula apenas por medo de perder o cliente.
E eu, finalmente, tinha espaço para olhar o passado sem permitir que ele ocupasse todo o presente.
Na manhã seguinte, a Horizonte manteve a visita técnica ao nosso centro de distribuição.
Renato chegou acompanhado pelo gerente de compras e pelo chefe do jurídico.
Lívia não veio.
Eu percebi, mas não perguntei.
Vestimos coletes de segurança e entramos na área refrigerada.
Durante quase duas horas, mostrei nossas câmaras, redundâncias elétricas, sensores, protocolos de contingência e rastreamento.
Ali, eu estava em meu terreno.
Não era a ex-mulher de Renato.
Não era a mulher das fotografias.
Era uma profissional que conhecia aquele trabalho por dentro.
Em determinado momento, o gerente de compras apontou para um painel de contingência.
— O algoritmo de redistribuição de vocês funciona diferente do nosso.
— Funciona.
— É menos rápido?
— Depende do tipo de falha.
Peguei o tablet e abri uma simulação.
Mostrei como nosso sistema priorizava risco farmacêutico, distância, disponibilidade de veículos e capacidade térmica real em vez de seguir uma sequência fixa.
O gerente franziu a testa, interessado.
— Isso foi desenvolvido por vocês?
— A arquitetura atual, sim.
Renato interveio.
— Mas a base vem do mesmo tipo de raciocínio que a Horizonte usa há anos.
Olhei para ele.
— Muitos sistemas de cadeia fria trabalham com princípios semelhantes. O que define propriedade não é a ideia genérica. São os elementos técnicos concretos e a origem documental.
O jurídico lançou um olhar rápido para Renato.
A visita prosseguiu.
No corredor entre duas câmaras, Renato se aproximou quando os outros estavam alguns metros à frente.
— Você realmente pretende levar isso adiante?
— A questão da patente?
— Tudo.
Parei.
— Você vai precisar ser mais específico.
Ele soltou o ar.
— Seis anos, Marina.
— Eu sei contar.
— Você reconstruiu sua vida. Eu reconstruí a minha.
— Então por que está preocupado?
O rosto dele fechou.
— Porque você sabe o tamanho da Horizonte hoje. Uma disputa envolvendo propriedade intelectual pode afetar contratos, auditorias, investidores.
— Então talvez você devesse ter pensado nisso antes de usar algo cuja origem conhecia.
Ele baixou a voz.
— Você não sabe de tudo.
— Concordo.
A resposta pareceu surpreendê-lo.
— É exatamente por isso que estou verificando.
Continuei andando.
Ele me segurou levemente pelo braço.
Foi um gesto rápido.
Ainda assim, parei e olhei para a mão dele.
Renato soltou imediatamente.
— Desculpa.
— Não faça isso de novo.
O gerente de compras voltou o rosto ao perceber que ficáramos para trás.
Eu segui em frente.
No fim da visita, Bastos apareceu para acompanhar a saída da equipe.
Assim que o carro da Horizonte deixou o pátio, ele me chamou.
— O jurídico deles pediu acesso à documentação técnica da proposta.
— Normal.
— Também perguntou se você pretende fazer alguma reivindicação formal.
— Ainda não fiz.
— Mas pretende?
Pensei antes de responder.
— Pretendo saber o que realmente aconteceu com a patente. Depois decido.
Naquela tarde, a advogada me enviou uma lista de documentos que seriam necessários para reconstruir a cadeia de titularidade.
Alguns eu tinha.
Outros estavam em cartórios, arquivos empresariais ou bases públicas.
Nada poderia ser resolvido num telefonema.
Nenhuma assinatura devolveria seis anos.
Aquilo, estranhamente, me tranquilizou.
Eu não queria uma vitória de novela.
Queria uma resposta que sobrevivesse fora dela.
Nos dias seguintes, comecei a reunir cópias antigas da empresa.
Contratos de quando Renato e eu ainda trabalhávamos juntos.
E-mails comerciais que eu mantivera legalmente depois de sair.
Documentos que mostravam quando a tecnologia do meu pai começara a ser aplicada.
Havia lacunas.
Muitas.
A advogada foi clara.
— Não confunda indício com prova.
— Não vou.
— E outra coisa. Mesmo que a transferência tenha problemas, isso não significa automaticamente recuperar a empresa ou desfazer o divórcio.
— Eu sei.
— Ótimo. Porque precisamos escolher o conflito certo.
A frase ficou comigo.
Durante anos, eu tinha colocado tudo na mesma caixa: casamento, empresa, humilhação, patente, Lívia, fotografias, minha mãe no hospital.
Mas eram problemas diferentes.
Alguns talvez nunca pudessem ser corrigidos.
Outros ainda podiam.
Na sexta-feira, Lívia apareceu sozinha na recepção da Vértice.
Eu soube porque a recepcionista me ligou.
— Tem uma senhora chamada Lívia Martins querendo falar com você.
Meu primeiro impulso foi recusar.
Depois pensei melhor.
— Leve para a sala pequena do térreo. E avise ao administrativo que a reunião será registrada na agenda.
Não queria encontros escondidos.
Lívia entrou usando uma calça bege e camisa branca.
Sem pulseira.
Sentou-se sem esperar convite.
— Você está satisfeita?
— Com o quê?
— Com o caos que criou.
Sentei-me diante dela.
— Eu declarei um conflito de interesse e pedi uma revisão documental.
— Você sabe perfeitamente o que isso pode causar.
— Sei.
— Renato está sendo questionado dentro da empresa.
— Isso é entre ele e a empresa.
Ela riu sem humor.
— Sempre foi assim com você. Essa pose de superioridade.
Não respondi.
Lívia se inclinou para a frente.
— Você perdeu aquele casamento há seis anos. Perdeu a empresa. Renato seguiu em frente. Nós temos um filho. O que você espera conseguir agora?
— Respostas.
— Depois de seis anos?
— O tempo não transforma uma pergunta em mentira.
Os olhos dela se estreitaram.
— Você quer destruir a nossa família.
Foi nesse momento que alguma coisa dentro de mim se tornou muito clara.
— Não.
Minha voz saiu tranquila.
— Davi não tem nada a ver comigo. Nunca vou envolver uma criança nisso. Seu casamento também não é meu problema.
Ela pareceu preparada para uma resposta mais agressiva.
Não recebeu.
— Eu quero saber como uma acusação falsa acabou com meu casamento, tirou meu nome da empresa e colocou a tecnologia do meu pai nas mãos de pessoas que depois disseram que ela sempre foi delas.
Lívia apertou os lábios.
— Acusação falsa?
— Você sabe o que eu disse.
— Eu sei o que Renato viu.
— E você sabe o que aconteceu antes de ele chegar?
Ela não respondeu.
Foi a primeira vez, desde que entrara naquela sala, que sua segurança vacilou de verdade.
Levantei-me.
— Nossa conversa termina aqui.
Lívia também se levantou.
Antes de sair, parou junto à porta.
— Cuidado, Marina. Às vezes, quando a gente procura demais pelo passado, encontra coisas que preferia não saber.
Eu quase sorri.
Seis anos antes, aquela frase teria me assustado.
Agora parecia apenas uma tentativa de recuperar controle.
— Nesse caso — respondi — pelo menos serão coisas verdadeiras.
Na segunda-feira, a advogada me ligou.
Ela havia conseguido localizar a referência de um instrumento usado na transferência da patente.
Não era ainda o documento completo.
Mas o registro indicava que a mudança tinha sido feita em nome da antiga empresa numa época em que minha saída societária ainda estava sendo formalizada.
— Isso é importante? — perguntei.
— Pode ser.
— Quanto?
— O suficiente para pedir a documentação integral e revisar se quem assinou tinha poderes para transferir tudo da forma como foi feito.
Depois da ligação, fiquei alguns minutos olhando a parede.
Renato talvez ainda tivesse explicações.
Talvez o documento fosse válido.
Talvez não.
Mas a situação havia mudado novamente.
Agora eu não estava mais investigando apenas uma lembrança.
Havia uma questão concreta.
E Renato sabia disso.
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