
Parte 6
Eu não contei a ninguém na empresa sobre a conversa com Renato.
Não porque quisesse escondê-la.
Mas porque aquilo dizia respeito à minha vida pessoal e à análise jurídica que eu conduzia fora da Vértice.
Contei apenas à minha advogada.
Ela ouviu tudo.
— Ele admitiu ter contratado o fotógrafo?
— Sim.
— Você gravou?
— Não.
— Fez certo em não transformar o encontro numa armadilha. Mas anote agora, enquanto lembra, horário, local e o que foi dito.
Fiz.
Sem exagerar.
Sem acrescentar intenção às palavras dele.
A advogada também me orientou a não procurar Renato novamente.
Se ele quisesse esclarecer mais coisas, poderia fazê-lo por iniciativa própria.
Dois dias depois, foi exatamente o que aconteceu.
Recebi um e-mail.
Dessa vez, não uma mensagem curta.
Renato escreveu que queria corrigir parte do que havia dito.
Afirmou que, antes de chegar ao hotel naquela noite, Lívia tinha ligado dizendo que eu estava “passando mal” e que o cliente ainda estava comigo.
Segundo ele, por isso sabia que eu não estava em condições normais quando chegou.
Aquilo explicava uma parte.
Não todas.
Encaminhei o e-mail à advogada.
— Isso reduz uma contradição — ela disse. — Mas cria outra.
— Qual?
— Ele admite que Lívia estava acompanhando o que acontecia no hotel em tempo real.
Eu já tinha percebido.
Na mesma semana, a Horizonte respondeu formalmente sobre a patente.
O jurídico reconhecia que existiam documentos antigos que precisavam de interpretação.
Propunha uma reunião específica para tentar resolver a questão antes de qualquer processo.
Minha advogada recomendou aceitar.
— Negociar não significa desistir.
— Eu sei.
— E tente separar o que você quer saber do que você quer recuperar.
Essa distinção parecia simples.
Não era.
Eu queria saber quem planejara a noite do hotel.
Queria saber quanto Renato sabia.
Queria entender por que Lívia estava usando uma joia da minha mãe.
Mas, juridicamente, meus objetivos eram outros.
Eu queria que a titularidade da tecnologia fosse corrigida se tivesse sido transferida sem base válida.
Queria impedir que meu trabalho e o do meu pai continuassem sendo apresentados como criação exclusiva de pessoas que não os desenvolveram.
E queria que qualquer acordo profissional futuro não repetisse a mentira de que eu havia sido afastada por incompetência ou falta de integridade.
Na primeira reunião de mediação, Renato apareceu com dois advogados da Horizonte.
Lívia não veio.
Minha advogada abriu a conversa.
— Não estamos aqui para discutir o casamento das partes. O tema de hoje é propriedade intelectual, uso da tecnologia e eventuais declarações empresariais relacionadas à saída da senhora Marina.
Um dos advogados da Horizonte assentiu.
Renato permaneceu calado.
Durante quase duas horas, analisamos contratos antigos.
Algumas páginas beneficiavam a posição da Horizonte.
Outras, a minha.
Havia licenças amplas concedidas à empresa.
Também havia limitações.
A transferência posterior, feita após minha saída, parecia ter tratado como propriedade definitiva algo que originalmente podia ser apenas direito de exploração.
O advogado da Horizonte não tentou fingir que a dúvida não existia.
— Precisamos revisar a cadeia completa — disse.
Aquilo, para mim, já era significativo.
Durante anos, eu ouvira de longe que a tecnologia “pertencia a Renato”.
Agora, nem o advogado dele dizia isso com tanta certeza.
No intervalo, Renato pediu para falar comigo.
Minha advogada ficou a poucos metros.
— Lívia sabia que você estaria no hotel — ele disse.
— Isso já ficou claro.
— Mais do que eu imaginava.
— O que mudou?
Ele passou a mão na nuca.
— O compliance encontrou referências antigas a despesas aprovadas por ela durante aquela viagem.
Meu rosto não se mexeu.
— Que despesas?
— Eu ainda não recebi o relatório completo.
— Então não especule.
Renato soltou uma risada curta, amarga.
— Você fala comigo como se eu fosse um estranho.
— Hoje você é.
A frase pareceu doer.
Mas não foi dita para machucar.
Era apenas verdadeira.
Voltamos à reunião.
Ao final, ficou combinado que a Horizonte faria uma revisão documental mais ampla antes de apresentar proposta de acordo.
Enquanto isso, a Vértice seria autorizada a seguir participando do processo comercial sem reconhecer titularidade exclusiva sobre o protocolo discutido.
Foi a segunda grande mudança.
O contrato e a disputa pessoal começaram a seguir trilhas separadas.
Na semana seguinte, a equipe técnica da Vértice apresentou um modelo independente de operação para a Horizonte.
Eu participei da demonstração.
Dessa vez, Renato ficou no fundo da sala.
Não interrompeu.
O gerente de compras fez perguntas difíceis.
Respondemos.
O jurídico fez ressalvas.
Ajustamos.
Quando terminou, Bastos me chamou de lado.
— É isso que eu queria desde o começo.
— O quê?
— Uma negociação sobre trabalho.
Sorri pela primeira vez em dias.
No fim da tarde, encontrei um pacote pequeno sobre minha mesa.
Meu corpo se enrijeceu.
Chamei o administrativo antes de abrir.
A etiqueta mostrava que viera por mensageiro da recepção da Horizonte.
Dentro havia apenas uma caixa de joias.
Nada de carta misteriosa.
Nada de documento.
Abri.
A pulseira de platina estava ali.
O diamante em forma de gota refletiu a luz da sala.
Embaixo dela, um cartão escrito à mão por Lívia:
“Isso nunca foi meu.”
Fiquei olhando por alguns segundos.
Minha primeira reação não foi alívio.
Foi raiva.
Porque devolver a pulseira não devolvia os seis anos.
Não devolvia minha mãe no hospital.
Não apagava as fotografias.
Não explicava o copo.
Liguei para a recepção da Horizonte e pedi que informassem a Lívia que qualquer contato futuro deveria ser feito pelos canais formais.
Guardei a pulseira.
Naquela noite, em casa, coloquei a caixa no fundo de uma gaveta.
Eu ainda não conseguia usá-la.
Talvez nunca conseguisse.
Mas uma coisa havia mudado.
Um objeto que durante seis anos ficara no pulso de outra pessoa estava novamente sob minha decisão.
Parecia pouco.
Não era.
No dia seguinte, minha advogada recebeu uma comunicação do jurídico da Horizonte.
Lívia havia solicitado afastamento temporário das funções financeiras enquanto o compliance revisava fatos antigos.
Ninguém a tinha condenado.
Não havia sentença.
Não havia espetáculo.
Mas, pela primeira vez, ela precisaria responder a perguntas que durante anos ninguém fizera.
E eu não precisaria fazer essas perguntas sozinha.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














