
Meu marido quebrou meu dente na festa da empresa para defender a assistente dele — e exigiu que eu me ajoelhasse
Parte 1
— Nossa, senhora Ferraz… sua visão é tão ruim assim? Um degrau desse tamanho e você não conseguiu enxergar?
A voz de Camila Nogueira atravessou o salão onde acontecia a confraternização de fim de ano da empresa.
Centenas de funcionários estavam espalhados entre mesas, taças e conversas. Alguns olharam imediatamente na nossa direção. Outros apenas diminuíram o tom de voz, curiosos.
Camila era a assistente particular de Lucas Ferraz, meu marido e diretor-geral da empresa.
Ela inclinou a cabeça e continuou, com um sorriso debochado:
— Se o diretor Lucas não tivesse segurado você, provavelmente teria caído de cara no chão, né?
Camila levou a mão à boca, fingindo conter o riso.
Alguns funcionários que viviam tentando agradá-la acompanharam a brincadeira.
— É mesmo. Mal consegue andar e ainda é a senhora Ferraz…
As risadas vieram baixas no começo, depois mais soltas.
Eu realmente não enxergava bem.
Tinha baixa visão desde criança e, além disso, uma miopia muito alta. Em ambientes pouco iluminados, minha dificuldade aumentava bastante. Um degrau que para qualquer pessoa parecia óbvio podia simplesmente desaparecer diante dos meus olhos.
Eu convivia com aquilo havia anos.
Mas uma limitação física nunca dera a ninguém o direito de me transformar em piada.
Olhei para Camila.
Ela sustentava aquele sorriso satisfeito de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
Ao lado da minha mão havia um copo de suco de laranja.
Peguei o copo com calma.
E joguei todo o conteúdo no rosto dela.
— Ah!
Camila soltou um grito agudo e se levantou num salto. O líquido escorreu pela maquiagem impecável, pelo cabelo e pelo vestido.
— Sua louca! O que você pensa que está fazendo?
Não tive tempo de responder.
Lucas surgiu quase imediatamente.
Ele nem perguntou o que havia acontecido.
Nem olhou para mim primeiro.
Correu para Camila, segurou-a pelos braços e verificou se ela estava bem. Só então virou o rosto na minha direção.
O olhar dele mudou.
Eu conhecia aquele homem havia dez anos.
Nós éramos casados havia sete.
Ainda assim, nunca o tinha visto me olhar daquele jeito.
Antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa, a primeira bofetada atingiu meu rosto.
Minha cabeça virou para o lado.
A segunda veio logo depois, ainda mais forte.
Ouvi um estalo seco dentro da boca.
Por um instante, tudo perdeu nitidez.
Senti gosto de sangue.
Passei a língua pelos dentes e encontrei um espaço irregular onde antes havia um deles. Um fragmento duro se misturou ao sangue dentro da minha boca.
Meu rosto queimava.
O salão inteiro pareceu congelar.
Lucas apontou para mim.
— Marina Duarte, você enlouqueceu?
A voz dele era alta o bastante para todos ouvirem.
— Peça desculpas para a Camila. Agora.
Fiquei parada.
Não conseguia conciliar o homem diante de mim com aquele por quem eu havia passado dez anos construindo uma vida.
Lucas se aproximou mais.
— Você ouviu o que eu disse?
Camila segurou o braço dele.
— Diretor Lucas, deixa para lá. Talvez ela só esteja num dia ruim…
O tom era suave.
Mas o olhar que ela lançou para mim não tinha nada de conciliador.
Havia satisfação ali.
Lucas soltou uma risada fria.
— Estar num dia ruim dá a ela o direito de jogar bebida nos outros?
Ele voltou a me encarar.
— Quem ela pensa que é?
Meu rosto latejava.
O sangue continuava se acumulando na minha boca.
Eu sabia que tinha errado ao jogar o suco em Camila.
Mas também sabia que, durante todos aqueles minutos, Lucas não tinha demonstrado nenhuma curiosidade sobre o que ela havia dito antes.
Ele simplesmente escolhera um lado.
E fizera isso com as próprias mãos.
— Marina, vou falar uma última vez.
Lucas pronunciou cada palavra devagar.
— Ajoelhe-se e peça desculpas.
Em volta de nós, ninguém dizia nada.
Algumas pessoas desviaram os olhos.
Outras observavam abertamente.
Camila permanecia protegida atrás do braço do meu marido.
E eu, com o rosto inchando e sangue nos lábios, ainda tentava entender como dez anos de amor tinham chegado àquele ponto diante de centenas de pessoas.
Lucas endureceu a expressão.
— Ajoelhe-se.
Balancei a cabeça.
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