
Parte 8
Depois daquela conversa, a separação perdeu boa parte da tensão imprevisível. Não ficou fácil. Ficou clara.
Lucas parou definitivamente de tentar negociar sentimentos. Quando precisávamos tratar de alguma questão pendente, tratávamos. Quando não havia nada prático a resolver, não nos procurávamos.
O espaço criado por essa distância começou a transformar minha rotina.
Minha voz melhorava progressivamente. Eu ainda precisava cuidar dela, e momentos de estresse provocavam falhas, mas já conseguia conversar por períodos maiores.
O mais curioso era perceber como minha relação com o silêncio também havia mudado.
Antes, quando nenhum som saía, eu me sentia presa.
Agora, quando escolhia não falar, sentia controle.
Voltei a trabalhar em projetos pessoais que tinham ficado parados durante aquelas semanas. Retomei compromissos. Organizei uma moradia mais estável para a fase seguinte da minha vida.
Não existia uma transformação mágica.
Havia contas, consultas, documentos, dias bons e noites em que eu ainda acordava lembrando do estalo do meu dente quebrando.
Em uma dessas noites, quase mandei mensagem para Lucas.
Não porque quisesse voltar.
Porque ele tinha sido durante anos a pessoa para quem eu recorria quando estava assustada.
Fiquei com o celular na mão.
Depois percebi a ironia.
A pessoa que eu procuraria para me consolar do medo era a mesma que havia criado aquele medo.
Coloquei o telefone de lado.
Na manhã seguinte, falei sobre isso durante meu acompanhamento.
Foi uma das primeiras vezes em que consegui contar quase toda a história usando minha própria voz.
Demorei.
Parei várias vezes.
Mas terminei.
Essa conquista foi maior do que qualquer resposta que eu pudesse ter dado a Lucas.
Enquanto isso, a situação profissional dele também alcançava uma conclusão mais concreta.
A empresa não fingiu que nada tinha acontecido. Houve medidas internas relacionadas à conduta no evento, mudanças temporárias e cobranças formais sobre sua postura como dirigente.
Ele continuou trabalhando, mas já não podia agir como se sua posição tornasse irrelevante o que centenas de pessoas tinham presenciado.
Camila permaneceu fora de sua linha direta de trabalho.
Ela não voltou a me procurar.
Eu respeitei isso.
Nossa última conversa já tinha cumprido sua função.
Certo dia, recebi uma mensagem de uma funcionária que estivera na confraternização.
“Queria pedir desculpas por ter rido no começo.”
Fiquei olhando para a tela.
Ela explicou que tinha acompanhado a brincadeira porque todos em volta estavam fazendo o mesmo e porque Camila era próxima da direção.
Depois escreveu:
“Quando ele bateu em você, eu percebi como tudo tinha passado do limite, mas fiquei paralisada.”
Respondi:
“Obrigada por dizer isso.”
Não precisava carregar também a tarefa de punir cada pessoa daquele salão.
Aquela noite já tinha ocupado espaço suficiente.
Pouco depois, fui informada de que os principais pontos da separação estavam encaminhados.
Ainda faltavam etapas formais, mas nada indicava um conflito prolongado.
Lucas havia concordado com o que precisava ser acordado e não tentava usar os procedimentos para me atrasar.
Ao receber a informação, sentei sozinha à mesa.
Durante meses eu imaginara que, se um dia me divorciasse, sentiria que tinha fracassado.
Talvez porque durante muito tempo eu acreditasse que manter um casamento era sempre uma prova de amor.
Agora entendia que permanecer não era automaticamente virtude.
Ir embora não era automaticamente fracasso.
Dependia do que estávamos tentando preservar.
Na semana seguinte, precisei voltar uma última vez ao apartamento onde morávamos para buscar dois objetos que haviam ficado esquecidos.
Lucas estava lá.
Dessa vez, combinamos que poderíamos estar no mesmo lugar por alguns minutos.
Quando entrei, ele estava na cozinha.
— Oi.
— Oi.
Minha voz saiu quase normal.
Ele percebeu, mas apenas sorriu discretamente.
— Suas coisas estão no quarto.
Fui buscá-las.
Era uma pequena caixa de fotografias antigas e um estojo com documentos referentes à minha visão.
Quando voltei para a sala, Lucas estava diante do aparador onde antes ficava nossa fotografia de aniversário.
O porta-retrato havia sido guardado.
— Eu tirei — disse.
Assenti.
— Não porque queira fingir que não aconteceu.
Olhei para ele.
— Só não consigo olhar todo dia.
Entendi.
A dor dele não me irritou como antes.
Talvez porque já não tivesse poder sobre minha decisão.
— Marina, posso perguntar uma coisa?
Esperei.
— Você se arrepende dos dez anos?
A pergunta me atingiu de maneira inesperada.
Olhei ao redor daquela casa.
Ali tínhamos comemorado aniversários, discutido por bobagens, pedido comida tarde da noite, recebido notícias boas, passado domingos inteiros sem fazer nada.
Nem tudo tinha sido mentira.
— Não — respondi.
Lucas levantou os olhos.
— Não me arrependo.
Minha voz ficou um pouco mais firme.
— Se eu apagasse tudo só porque terminou mal, estaria apagando uma parte de mim também.
Ele assentiu lentamente.
— Eu também não me arrependo.
Peguei minha caixa.
Lucas continuou:
— Só me arrependo de ter sido eu quem destruiu a possibilidade de existir um décimo primeiro ano.
Não respondi.
Caminhei até a porta.
Antes de sair, virei.
— Lucas.
— Sim?
— Não use o arrependimento para ficar parado no mesmo lugar.
Ele pareceu surpreso.
— Eu não quero que você passe o resto da vida se odiando.
Seus olhos ficaram úmidos.
Acrescentei:
— Só não confunda isso com uma porta aberta para nós.
— Eu não vou.
Assenti.
Fechei a porta.
Naquela noite, recebi a confirmação da data da etapa que poderia concluir definitivamente nosso casamento.
Li a mensagem duas vezes.
Meu estômago se contraiu.
Não era dúvida.
Era luto.
Peguei o calendário.
Marquei a data.
E, pela primeira vez, não senti necessidade de esconder de mim mesma o que ela significava.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














