
Parte 6
Aquela conversa trouxe uma tranquilidade estranha. Durante semanas, eu havia imaginado que seria mais fácil seguir em frente se Lucas continuasse arrogante, agressivo e incapaz de reconhecer qualquer responsabilidade. Seria simples odiá-lo.
Mas as pessoas raramente cabem em categorias tão confortáveis.
O homem que me bateu era também o homem que conhecia meus hábitos, que me acompanhara em anos difíceis e que construíra comigo uma década inteira de lembranças.
Nada disso apagava a agressão.
E a agressão não apagava automaticamente cada memória boa.
Aceitar as duas coisas ao mesmo tempo foi uma das partes mais difíceis da separação.
Meu tratamento continuava.
Eu já conseguia sustentar alguns sons e, em certos exercícios, pronunciar palavras curtas em volume baixo. A primeira que consegui dizer de forma compreensível não foi “Lucas”.
Foi “água”.
A palavra saiu rouca.
A profissional sorriu, mas eu comecei a chorar.
Pedi um copo d’água e ri de mim mesma enquanto as lágrimas escorriam.
Era uma palavra comum.
Talvez por isso fosse perfeita.
Minha voz não precisava voltar para uma grande declaração.
Podia voltar para a vida cotidiana.
Enquanto eu avançava, os efeitos daquela noite continuavam reorganizando a vida de Lucas.
Ele passou a fazer acompanhamento psicológico por decisão própria. Eu soube porque ele mencionou apenas uma vez, durante uma troca de informações práticas.
Não transformou aquilo em argumento.
Não escreveu “estou fazendo terapia por você”.
Apenas disse:
“Estou tentando entender por que achei aceitável agir daquela forma.”
Não respondi.
Era um trabalho que pertencia a ele.
Também soube que ele havia pedido desculpas formalmente às pessoas que estavam próximas no momento da agressão e reconhecido que tinha colocado funcionários numa situação constrangedora.
Isso não desfazia nada.
Mas indicava que ele parava de tratar a violência como assunto privado entre marido e mulher.
Em relação a Camila, não houve romance revelado, amante secreta nem conspiração.
A realidade era mais simples e, de certa forma, mais incômoda.
Lucas admitiu que havia permitido uma proximidade profissional sem limites claros. Gostava da eficiência dela, da admiração que recebia e da sensação de ser defendido por alguém que dependia diretamente de sua aprovação.
Camila, por sua vez, havia confundido essa proteção com permissão para ultrapassar limites.
Nada disso justificava a humilhação.
Muito menos a agressão.
Mas finalmente a situação deixava de ser uma pergunta sobre um possível segredo e passava a ser o que sempre deveria ter sido: uma sequência de escolhas concretas.
A minha escolha seguinte foi estabelecer uma regra.
Enviei a Lucas:
“Daqui para frente, só falaremos diretamente sobre questões que realmente dependam de nós dois. Não quero mensagens sobre saudade, passado ou possibilidade de voltar.”
Ele respondeu:
“Vou respeitar.”
E respeitou.
O silêncio que se seguiu foi diferente.
Não era castigo.
Era limite.
Durante quase duas semanas, não recebi nenhuma mensagem pessoal dele.
No começo, estranhei.
Depois percebi que minha rotina começava a ter espaços onde Lucas não estava.
Voltei a caminhar sozinha em lugares conhecidos durante o dia, quando minha visão funcionava melhor. Retomei pequenas atividades que eu havia abandonado nos primeiros dias. Aprendi a pedir adaptações sem sentir vergonha.
Em alguns ambientes, quando precisava explicar por que falava tão baixo, apenas dizia o necessário.
Sim.
Dizia.
Minha voz estava voltando.
Ainda falhava quando eu ficava ansiosa.
Em momentos de tensão, algumas palavras desapareciam completamente.
Mas o progresso existia.
Cerca de um mês depois da festa, precisei encontrar Lucas novamente para finalizar uma etapa importante da separação.
Quando entrei na sala, ele se levantou.
— Oi.
Eu respondi com um som quase inaudível:
— Oi.
Lucas ficou imóvel.
Os olhos dele se arregalaram.
Por reflexo, deu um passo na minha direção.
Parou antes de completar o movimento.
— Sua voz…
Assenti.
Ele levou alguns segundos para controlar a emoção.
— Eu achei que…
Não terminou.
Peguei uma folha sobre a mesa e comecei a revisar o que precisava.
Lucas compreendeu o recado e se sentou.
A reunião durou quase uma hora.
Eu falei pouco.
Algumas respostas foram escritas. Outras consegui pronunciar.
No final, ele guardou os documentos e perguntou:
— Posso dizer uma coisa?
Olhei para ele.
— Não vou pedir para você voltar.
Esperei.
— Só queria dizer que fico feliz por ouvir sua voz.
Minha garganta fechou imediatamente.
Não por amor.
Por memória.
Balancei a cabeça em agradecimento.
Quando me levantei, ele acrescentou:
— Marina…
Virei.
— Na festa, quando você ficou sem falar depois… eu achei que o pior castigo seria você nunca mais falar comigo.
Apertei a alça da bolsa.
Ele respirou fundo.
— Agora eu entendo que o pior não é você ficar em silêncio.
Fez uma pausa.
— É você voltar a falar e ainda assim escolher uma vida sem mim.
Eu poderia ter escrito uma resposta.
Não escrevi.
Saí.
No elevador, encostei a cabeça na parede e fechei os olhos.
Minutos depois, já do lado de fora, testei minha voz baixinho.
— Eu escolho.
Dessa vez, as duas palavras saíram.
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