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LEITURA EM PARTESParte 4 de 9

Parte 5

A decisão de Lucas de não impedir o divórcio não encerrou o conflito. Apenas mudou sua forma. Pela primeira vez, ele parecia compreender que pedir perdão e conseguir perdão eram coisas diferentes.

Os procedimentos seguiram. Nós ainda precisávamos organizar questões práticas e confirmar informações sobre a vida construída durante o casamento. Eu participei de cada decisão.

Não deixei que outra pessoa conduzisse tudo por mim.

Quando uma escolha precisava ser feita, eu lia, perguntava, pensava e decidia.

Aos poucos, isso começou a produzir um efeito que eu não esperava.

Eu me sentia menos como alguém cuja vida tinha explodido numa festa e mais como alguém que estava reconstruindo a própria rotina.

Minha voz ainda não havia voltado por completo, mas eu já conseguia produzir alguns sons curtos durante os exercícios. Eram fracos, quase sempre ásperos.

Na primeira vez que ouvi um som real sair da minha garganta, meus olhos se encheram de lágrimas.

Não porque fosse bonito.

Era quase um ruído.

Mas era meu.

A profissional que me acompanhava pediu que eu não transformasse aquilo numa corrida. Recuperação não obedecia à ansiedade das pessoas em volta.

Levei essa frase comigo.

Lucas, por outro lado, começou a enfrentar consequências mais visíveis.

A empresa tratou formalmente o episódio ocorrido na confraternização. Ele não perdeu tudo de um dia para o outro, nem houve nenhuma punição cinematográfica. Mas precisou explicar seu comportamento a pessoas que até então o conheciam como um executivo controlado.

Algumas responsabilidades foram temporariamente redistribuídas enquanto a situação interna era analisada.

Ele me informou porque aquilo alterava certos horários relacionados aos compromissos do divórcio.

Não pediu compaixão.

Talvez estivesse finalmente aprendendo.

Camila foi transferida de função por decisão administrativa enquanto a empresa tratava o ambiente criado depois da festa. Eu soube disso por ela mesma.

Ela pediu para me encontrar.

Minha primeira resposta foi não.

Horas depois, pensei melhor.

Aceitei conversar em um café durante o dia.

Não fui porque quisesse perdoá-la.

Fui porque não queria continuar imaginando o que ela diria.

Quando cheguei, Camila estava sem o ar arrogante daquela noite. Ainda era a mesma mulher, mas não parecia estar representando para ninguém.

Ela olhou para meu rosto.

O hematoma já estava quase desaparecendo.

— Eu não espero que você goste de mim — disse.

Apontei para o celular, onde havia digitado:

“Então não peça isso.”

Ela assentiu.

— Eu só queria dizer olhando para você que eu fui nojenta naquela festa.

Esperei.

— Eu sabia da sua dificuldade de visão — continuou. — E usei isso para fazer graça.

Apertei o celular entre as mãos.

Camila respirou fundo.

— Eu queria aparecer. Queria mostrar que eu tinha intimidade profissional com Lucas e que podia brincar com coisas que outras pessoas não ousariam. Foi infantil e cruel.

Digitei:

“Você queria me diminuir.”

Ela demorou um pouco antes de responder.

— Queria.

Aquilo me surpreendeu mais do que uma negação teria surpreendido.

— Mas eu não achei que ele fosse bater em você — acrescentou. — Quando ele fez aquilo, eu fiquei em choque também.

Digitei:

“Você continuou atrás dele enquanto ele me mandava ajoelhar.”

Camila baixou os olhos.

— Eu sei.

Não havia explicação capaz de melhorar aquela imagem.

Ficamos algum tempo sem falar.

Depois ela disse algo que mudou discretamente a forma como eu carregava aquela noite.

— Eu passei dias pensando que, se eu não tivesse provocado você, nada teria acontecido.

Olhei para ela.

— Mas isso é uma forma de eu colocar a escolha dele nas minhas costas também. Eu provoquei você. Você jogou o suco. Lucas decidiu bater. São três ações diferentes.

Li seus lábios atentamente por causa da minha audição concentrada naquele ambiente barulhento e, pela primeira vez, concordei com ela sem precisar escrever.

Apenas assenti.

Não éramos amigas.

Não saímos dali reconciliadas.

Mas quando Camila foi embora, senti que uma peça importante tinha se movido dentro de mim.

Eu não precisava competir com ela.

Não precisava descobrir se Lucas gostava mais dela, se a protegia demais ou se ela se sentia especial ao lado dele.

Nada disso mudava a decisão central.

Meu marido tinha escolhido me ferir e me humilhar.

Na semana seguinte, Lucas pediu uma reunião para discutirmos os últimos pontos pendentes da separação.

Aceitei desde que fosse em ambiente profissional e com os assuntos previamente definidos.

Quando ele entrou na sala, parecia mais magro.

Eu percebi.

E me recusei a transformar essa percepção em culpa.

Conversamos com ajuda de documentos e mensagens digitadas por mim. Lucas não tentou tocar no assunto da reconciliação até tudo o que era necessário estar resolvido.

Depois, quando a reunião já poderia ter terminado, perguntou:

— Posso falar uma coisa que não tem relação com os documentos?

Pensei antes de assentir.

— Eu conversei com Camila.

Meu corpo ficou tenso.

Ele percebeu.

— Não sobre você voltar. Eu só pedi desculpas a ela também por ter usado aquela situação como justificativa para o que eu fiz.

Peguei o celular.

“Você não precisa me contar sua relação com ela.”

— Eu sei.

Ele respirou fundo.

— Estou contando porque durante dias eu dizia para mim mesmo que perdi a cabeça porque você jogou o suco. Depois percebi que isso ainda era uma desculpa.

Fiquei imóvel.

Lucas continuou:

— Eu bati porque naquele momento achei que tinha o direito de te colocar no seu lugar.

A frase caiu entre nós com um peso diferente.

Não era mais “perdi a cabeça”.

Não era mais “foi por causa da Camila”.

Era responsabilidade.

Ele baixou os olhos.

— E eu não tinha esse direito.

Minha garganta se contraiu.

Não saiu palavra alguma.

Peguei o celular.

“Agora você está começando a entender.”

Lucas leu.

Seus olhos ficaram vermelhos.

— Isso muda alguma coisa?

Demorei antes de responder.

“Em você, talvez.”

Acrescentei:

“Em minha decisão, não.”

Ele fechou os olhos por um instante.

Depois assentiu.

Quando saí daquela sala, soube que alguma coisa tinha mudado mais uma vez.

Eu já não precisava que Lucas permanecesse monstruoso para justificar minha partida.

Ele podia reconhecer o erro.

Podia mudar.

Podia até se tornar uma pessoa melhor.

E eu ainda tinha o direito de ir embora.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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