Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 2 de 9

Parte 2

A expressão de Lucas mudou quando percebeu que eu não obedeceria. Ele segurou meu braço com força e repetiu que eu devia pedir desculpas, enquanto Camila tentava parecer constrangida diante dos funcionários. Eu não disse nada. Apenas puxei o braço de volta.
— Você ainda vai insistir nisso? — ele perguntou. — Foi você quem começou. Eu tentei responder, mas minha boca estava cheia de sangue e a dor já chegava até a cabeça. Quando abri os lábios, uma mistura de saliva e sangue caiu no meu vestido.
Foi então que alguns funcionários finalmente pararam de fingir que aquilo era apenas uma discussão de casal. Um deles se aproximou e disse que eu precisava de atendimento médico. Lucas olhou para minha boca e pareceu perceber, só naquele instante, a dimensão do que tinha feito. A raiva dele perdeu força por alguns segundos.
Eu dei um passo para trás. O salão girou. Ouvi alguém chamar meu nome, depois outra voz pedindo espaço, mas minhas pernas já não me obedeciam.
A última imagem que vi foi Lucas vindo na minha direção. Depois, tudo ficou escuro. Quando acordei, estava em um quarto de hospital, com a lateral do rosto dolorida e um curativo na boca.
Lucas estava sentado ao lado da cama. Assim que me viu abrir os olhos, levantou-se. — Marina… graças a Deus. Ele tentou pegar minha mão, mas eu a retirei.
Um profissional já havia explicado que, além do trauma na boca, eu precisaria de acompanhamento porque não conseguia produzir voz. Não havia naquele momento uma lesão evidente que explicasse completamente o silêncio. O choque emocional também precisaria ser avaliado.
Lucas não sabia disso até me ver tentando falar. — O que foi? — perguntou, inclinando-se. — Está doendo? Chamei você várias vezes. Eu abri a boca. Nenhum som saiu.
O rosto dele perdeu a cor. — Marina? Fala comigo. Eu tentei novamente. Nada. Lucas começou a apertar o botão ao lado da cama, chamando ajuda como se pudesse consertar em segundos aquilo que havia começado com as próprias mãos.
Depois que ficamos sozinhos, ele começou a andar pelo quarto. — Amor, por favor… fala qualquer coisa. Me xinga. Me bate, se você quiser. Só não fica desse jeito. Fechei os olhos por alguns segundos.
Ele continuou. Disse que tinha perdido a cabeça. Disse que Camila estava coberta de suco e que ele reagira sem pensar. Disse que nunca imaginara que me machucaria daquela forma. Nenhuma dessas frases alterava o que havia acontecido.
Peguei minha bolsa, que alguém tinha deixado sobre uma cadeira. Dentro dela estava um envelope que eu vinha usando para guardar alguns documentos pessoais. Pedi papel e caneta com um gesto.
Lucas aproximou a mesa móvel da cama. Eu escrevi devagar, porque minha mão ainda tremia. Depois empurrei a folha na direção dele.
“Quero o divórcio.”
Ele leu uma vez. Depois outra. — O quê? Eu repeti a frase em uma segunda linha, maior. “Eu quero me divorciar.”
Lucas arrancou a folha da mesa. — Não. A resposta saiu tão rápida que parecia automática. — Não, Marina. Isso não vai acontecer.
Ele rasgou o papel em vários pedaços. — Você me ama. Você sempre me amou. Foram dez anos! Sete anos de casamento! Você não pode decidir acabar com tudo por causa de duas bofetadas.
Fiquei olhando para ele. Talvez aquela frase tenha doído mais do que ele imaginava. “Duas bofetadas.” Era assim que ele já começava a reduzir o que tinha feito.
— Você quer que eu peça desculpas? — insistiu. — Eu peço. Quer que eu admita que errei? Eu admito. Eu estava errado. Completamente errado.
Peguei outra folha.
Lucas acompanhou cada movimento da caneta.
“Você ainda acha que o problema são apenas as duas bofetadas.”
Ele leu e ficou imóvel.
Escrevi outra frase.
“Naquele salão, quando você me mandou me ajoelhar diante de quem estava me humilhando, alguma coisa acabou.”
Lucas abriu a boca, mas nenhuma resposta veio.
Pela primeira vez desde que eu o conhecia, era ele quem parecia não saber o que dizer.
Eu virei o rosto para a janela.
Dez anos antes, eu teria feito qualquer coisa para não perdê-lo.
Naquela noite, compreendi que a pessoa que eu precisava impedir de desaparecer era eu mesma.

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