
Meu marido voltou de oito dias de viagem e gritou porque o pai estava internado — então coloquei 18 ligações sobre a mesa
Parte 1
Caio voltou de Recife depois de oito dias de viagem, largou a mala no meio da sala e nem tirou os sapatos antes de levantar a voz para mim.
— Meu pai foi internado e você não me avisou?
Eu não respondi de imediato. Desbloqueei o celular, abri o histórico de chamadas e o coloquei sobre a mesa, com a tela virada para ele.
— Dezoito ligações, Caio. Em todas as vezes em que consegui falar com alguém, Manuela dizia que você estava ocupado.
Dois dias antes de ele viajar, eu tinha acompanhado meu sogro ao posto de saúde do bairro para buscar os medicamentos de rotina.
Durante a consulta, ele comentou que vinha sentindo um aperto estranho no peito havia alguns dias. O médico deixou de lado o tom tranquilo quase na mesma hora e recomendou que ele procurasse um hospital maior para fazer exames cardiológicos.
Levei para casa o encaminhamento e o coloquei diante de Caio naquela noite.
Ele deu apenas uma olhada antes de voltar a arrumar a mala.
— Segunda de manhã você leva seu pai ao hospital.
Caio dobrou uma camisa social e respondeu sem sequer olhar para mim:
— Segunda eu vou estar em Recife. Como é que eu vou levar?
— Não dá para mandar outra pessoa nessa viagem? Seu pai não está com uma aparência boa há dois dias.
Ele empurrou a camisa para dentro da mala e fechou o zíper com força.
— Estou acompanhando esse projeto há seis meses. Agora, justo na hora de assinar o contrato, você quer que eu mande outra pessoa?
Virou-se para mim.
— Marina, você pode parar de criar problema justamente quando as coisas ficam importantes?
Eu segurei a resposta que quase saiu e perguntei quantas pessoas viajariam.
— Eram quatro. O Paulo teve um problema em casa e o Vinícius foi mandado de última hora para Curitiba. Agora vamos só eu e a Manuela.
Manuela trabalhava com ele e era responsável pelo produto naquele projeto.
Eu já a tinha encontrado duas vezes.
A primeira fora na festa de fim de ano da empresa. A segunda, alguns meses depois, quando Caio bebeu demais em um jantar corporativo e ela o levou de carro até a entrada do nosso condomínio.
Naquela noite, ela usava um sobretudo cinza. Caio dormia profundamente no banco ao lado.
Manuela abaixou o vidro e sorriu para mim.
— Marina, o Caio bebeu por metade do departamento hoje. Não fica brava com ele, tá?
Agradeci, ajudei meu marido a subir e não falei mais nada.
No dia seguinte, quando perguntei sobre ela, Caio respondeu que aquilo fazia parte do trabalho e ainda reclamou que eu enxergava problema onde não existia.
Por isso, daquela vez, nem toquei no assunto anterior.
Apenas perguntei:
— Vocês dois vão ficar oito dias?
— Reunião com cliente, visita técnica, revisão de proposta, assinatura de contrato. Oito dias ainda estão apertados.
Ele me encarou.
— Ela é minha colega de trabalho, Marina. Não é uma ameaça. Você não se cansa de ficar olhando tudo com desconfiança?
Meu sogro estava sentado na ponta do sofá, segurando a sacola de remédios. Ao perceber que a conversa estava ficando tensa, levantou-se.
— É só aquele meu problema antigo do estômago.
Olhou para o filho.
— Deixa o Caio trabalhar. Eu mesmo vou ao hospital.
— O médico falou do seu peito, não do estômago — respondi.
Coloquei novamente o encaminhamento sobre a mesa.
— Segunda-feira, às nove. Não tome café. Eu venho buscar o senhor.
Caio me olhou como se tivesse acabado de encontrar a prova de que eu estava exagerando.
— Você já resolveu tudo. Então por que continua insistindo para eu ficar?
Demorei alguns segundos para conseguir responder.
Éramos casados havia nove anos.
Quando um cano estourava, eu resolvia. Quando o medidor de gás dava problema, eu ligava para a assistência. Quando meu sogro esquecia uma consulta ou não sabia mexer no aplicativo do plano de saúde, aquilo também acabava nas minhas mãos.
Caio estava sempre em reunião, viajando ou entrando em outra ligação.
E sempre existia a mesma frase:
— Vê isso primeiro para mim.
Eu já tinha reclamado.
A resposta dele era invariavelmente parecida.
— Quem estiver livre resolve. Para que transformar casamento em contabilidade?
O problema era que a pessoa “livre” quase sempre era eu.
Na manhã da viagem, organizei os exames recentes do meu sogro em uma pasta transparente e escrevi o telefone de Caio na primeira folha.
— Não deixa seu celular no silencioso o dia inteiro.
Ele estava agachado perto da porta, amarrando o sapato.
— Eu vou fechar contrato, não passear.
— Se acontecer alguma coisa com seu pai, eu preciso conseguir falar com você.
— Durante o dia pode ser difícil atender.
— E à noite?
Ele se levantou.
— A gente vê quando chegar lá.
O carro de Manuela já estava esperando na entrada do condomínio.
Caio desceu com a mala, mas voltou alguns passos depois e colocou nas minhas mãos a confirmação da reserva do hotel.
— Se for realmente urgente, liga para o hotel. O telefone da recepção está aí.
Fez uma pausa.
— Satisfeita?
Peguei o papel e não discuti.
Meu sogro continuou perto da janela, observando o estacionamento. Viu Manuela sair do banco do motorista para ajudar Caio com a mala e falou baixo:
— São só colegas viajando juntos. Não fica pensando besteira.
Dobrei a confirmação do hotel e guardei na pasta.
— Eu não estou pensando besteira.
Olhei pela janela até o carro desaparecer.
— Só tenho medo de acontecer alguma coisa e ninguém conseguir falar com ele.
Depois que Caio pousou em Recife, mandou uma única mensagem:
“Cheguei.”
Perguntei em qual quarto estava hospedado.
Não respondeu.
Pouco depois das onze da noite, a mensagem continuava sem ser visualizada. Coloquei o celular de lado e fui dormir.
No fim da tarde do dia seguinte, eu conferia algumas contas no escritório quando seu Roberto, vizinho do meu sogro, me ligou.
A voz dele estava tão apressada que eu me levantei antes mesmo de entender tudo.
— Marina, vem rápido. Seu sogro está sentado no corredor. Está branco feito papel, todo suado.
Peguei a bolsa e saí.
Quando cheguei, meu sogro estava encostado na parede, apertando o lado esquerdo do peito. Os lábios estavam acinzentados.
Seu Roberto tentava abaná-lo com uma revista.
— A ambulância já está vindo. Não se mexe — pedi.
Meu sogro abriu os olhos com dificuldade.
— Não fala para o Caio. Ele está trabalhando.
Ajoelhei diante dele e segurei sua mão.
Estava gelada.
— O senhor ainda está preocupado com o trabalho dele agora?
Quando o SAMU chegou, os profissionais fizeram os primeiros exames e a expressão deles mudou imediatamente.
Assim que as portas da ambulância se fecharam, liguei para Caio pela primeira vez.
Chamou por muito tempo.
Ninguém atendeu.
Liguei novamente.
Nada.
Na terceira tentativa, a ligação foi recusada.
Escrevi:
“Seu pai está com dor forte no peito. A ambulância está levando ele para o hospital. Me liga assim que vir isso.”
A mensagem ficou ali.
Sem resposta.
Sem retorno.
No hospital, o médico analisou rapidamente os exames.
— Infarto agudo. Há sinais de obstrução importante.
Falava depressa enquanto a equipe preparava meu sogro.
— Precisamos fazer um cateterismo agora. Dependendo do que encontrarmos, pode ser necessário colocar stent. Não dá para esperar.
Meu sogro, deitado na maca e coberto de eletrodos, ainda tentou insistir:
— Espera o Caio chegar para assinar.
O médico me encarou.
— Não temos tempo.
Depois perguntou:
— Você é o quê do paciente?
— Nora.
— Não consegue falar com um familiar direto?
Peguei o celular outra vez.
Caio não atendeu.
— O filho está viajando a trabalho. Estou tentando localizar.
Recebi os documentos de autorização e as orientações administrativas. O hospital solicitou uma garantia provisória para o procedimento enquanto o plano era regularizado.
Minha mão tremia tanto que o primeiro traço da assinatura saiu do espaço indicado.
Fiz o pagamento e, enquanto guardava o cartão, lembrei da reserva do hotel.
O telefone da recepção estava dentro da pasta transparente.
Precisei folheá-la duas vezes antes de encontrar.
Passei o nome completo de Caio, a empresa e a data da reserva. A recepcionista explicou que as chamadas externas destinadas ao grupo corporativo estavam sendo encaminhadas para um telefone de contato da equipe.
Depois de alguns toques, uma mulher atendeu.
— Alô?
Reconheci a voz imediatamente.
— Manuela? Aqui é a Marina. Onde está o Caio?
Houve uma pequena pausa.
— Marina, ele está jantando com o cliente. Não consegue atender agora.
A voz permaneceu educada.
— Se você quiser me dizer o que aconteceu, eu aviso para ele.
— O pai dele teve um infarto. Está entrando em cirurgia de emergência.
O outro lado ficou quieto por um instante.
— Nossa. É tão grave assim?
— O médico está esperando. Eu já assinei a autorização.
Respirei fundo.
— Manda ele me ligar imediatamente. Não importa a hora.
— Tá bom. Assim que ele terminar, eu aviso.
Desliguei e me sentei diante do centro cirúrgico.
Meu celular de trabalho tinha gravação automática das chamadas, recurso que eu usava por causa dos fornecedores. Um novo arquivo de três minutos e dezessete segundos apareceu na tela.
Nem prestei atenção.
Só conseguia olhar para a luz vermelha acima da porta.
Meia hora depois, Caio ainda não tinha retornado.
Liguei para o hotel novamente.
Manuela atendeu outra vez.
— Marina, ele ainda não terminou.
— Coloca ele no telefone. Eu preciso de trinta segundos.
— Agora realmente não dá. A pessoa responsável pelo cliente acabou de chegar e a mesa está cheia.
— Então fala exatamente o que aconteceu.
— Eu já disse que teve um problema em casa e que ele precisa falar com você assim que puder.
Meu corpo ficou rígido.
— Você disse que teve “um problema em casa” ou disse que o pai dele está sofrendo um infarto?
Ela demorou um pouco para responder.
— Eu falei que ele não estava bem.
— Não é “não estar bem”.
Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
— É um infarto agudo. Ele está sendo operado.
— Certo. Eu vou explicar de novo.
Desliguei.
Parecia que alguém tinha colocado um peso molhado sobre o meu peito.
Às 00h40, a porta do centro cirúrgico finalmente se abriu.
O médico informou que haviam conseguido desobstruir as artérias e colocado dois stents. Meu sogro precisaria permanecer na unidade de monitoramento, e as próximas vinte e quatro horas seriam importantes.
Minhas pernas perderam a força.
Precisei apoiar a mão na parede.
O médico perguntou:
— Ainda não conseguiu falar com o filho?
— Não.
— Você consegue cuidar dos procedimentos sozinha?
— Consigo.
Eu disse aquilo como se fosse verdade.
Minutos depois, eu já não lembrava em qual andar ficava o setor financeiro. Passei duas vezes pelo mesmo corredor até uma enfermeira perceber.
— Desce primeiro até o térreo. Depois você volta para pegar os itens que ele vai precisar. Vai com calma.
Desci.
No térreo, peguei o celular mais uma vez e liguei para Caio.
Dessa vez, o telefone tocou até cair sozinho.
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