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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

Quando a chamada caiu, eu não tentei imediatamente outra vez. Fiquei alguns segundos olhando para a tela, ouvindo apenas o ruído do hospital e tentando aceitar que, naquele momento, eu era a única pessoa disponível para resolver tudo. Então guardei o celular e fui buscar o que meu sogro precisaria durante a madrugada.
Às duas da manhã, ele continuava sedado. A equipe explicou que o procedimento tinha corrido como esperado, mas que ainda era cedo para qualquer tranquilidade completa. Assinei mais formulários, confirmei medicamentos, conversei com o plano de saúde e voltei para a cadeira do corredor.
Antes das três, liguei para Caio novamente. Depois mandei outra mensagem, desta vez objetiva: “Seu pai passou por cateterismo e colocou dois stents. Está em monitoramento. Preciso que você me ligue.” Nada aconteceu.
Na manhã seguinte, Manuela atendeu outra ligação feita para o hotel. Disse que Caio tinha saído cedo com o cliente e que provavelmente ficaria sem celular durante uma visita técnica. Eu perguntei se ela havia contado sobre o infarto, e ela respondeu: “Eu avisei que a situação era séria.”
Meu sogro acordou perto do meio-dia. A primeira pergunta dele foi sobre Caio. Quando respondi que ainda não tinha conseguido falar com o filho, ele virou o rosto para a janela e não disse mais nada por um bom tempo.
Nas horas seguintes, a condição dele começou a estabilizar. Eu avisei o escritório, reorganizei minhas tarefas, comprei roupas e produtos de higiene para a internação e passei em casa apenas o suficiente para tomar banho. O celular continuou comigo o tempo inteiro.
As ligações se acumularam. Algumas iam diretamente para a caixa postal. Outras chamavam até cair. Quando eu ligava para o hotel, Manuela repetia que Caio estava em reunião, em visita, com o cliente ou envolvido na negociação.
No terceiro dia, parei de perguntar se ela poderia “dar um recado”. Passei a dizer exatamente o que precisava ser transmitido: “Diga que o pai dele teve um infarto, colocou dois stents e está internado. Não diga apenas que ele passou mal.” Ela respondia que tinha entendido.
Meu sogro saiu da unidade de monitoramento e foi para um quarto comum. Quando soube que eu continuava tentando falar com Caio, segurou meu braço e pediu que eu parasse de me desgastar. “Ele vai ver quando puder”, disse, mas a tristeza em seu rosto dizia outra coisa.
No quarto dia, eu já não sentia raiva. Sentia cansaço. Havia algo humilhante em implorar repetidamente para que meu próprio marido atendesse uma ligação sobre o pai dele, como se eu estivesse tentando interromper uma reunião por causa de uma lâmpada queimada.
No quinto, o médico começou a falar em alta nos dias seguintes, desde que os exames continuassem melhorando. Eu enviei a atualização por mensagem. Caio não respondeu, e aquilo deixou de me surpreender.
Até o oitavo dia, entre chamadas para o celular e tentativas por intermédio do hotel, meu histórico registrava dezoito ligações. Eu já tinha parado de esperar que uma delas fosse atendida. Meu sogro recebeu alta naquela manhã e foi comigo para casa.
Caio chegou poucas horas depois. Entrou carregando a mala, viu os medicamentos sobre a mesa e perguntou o que tinha acontecido. Quando percebeu que o pai realmente estivera internado, sua surpresa virou indignação quase instantaneamente.
— Meu pai foi internado e você não me avisou?
Eu abri o histórico de chamadas e coloquei o celular sobre a mesa. — Dezoito ligações, Caio. Em todas as vezes em que consegui falar com alguém, Manuela dizia que você estava ocupado. Antes que ele respondesse, uma voz fraca veio do corredor.
Meu sogro estava parado na porta do quarto, apoiando uma mão na parede. Olhou diretamente para o filho e disse: — Se a Marina não estivesse aqui, talvez você tivesse voltado de viagem para organizar o meu enterro.

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