
Parte 1
— Marina, hoje você não pode voltar para casa.
Parei ao lado do carro, ainda com a chave entre os dedos.
A chuva fina caía sobre o estacionamento do cemitério, e por um instante achei que tivesse entendido errado.
— Por quê?
O advogado do meu pai, doutor Renato, não respondeu.
Ele desviou os olhos para além do meu ombro, na direção do portão.
Meu marido, Caio, vinha andando até nós com um guarda-chuva preto.
O rosto de Renato mudou por um segundo.
Ele recuou discretamente e baixou a voz.
— Tem mais uma coisa. Não deixe seu marido descobrir que, antes de morrer, seu pai se encontrou comigo.
Meus dedos endureceram em volta da chave.
— Isso é impossível.
Meu pai passara três dias em coma antes de morrer.
Os médicos tinham sido claros: desde o momento em que perdeu a consciência até a parada cardíaca, ele não havia despertado uma única vez.
Então como poderia ter se encontrado com Renato?
Eu ainda ia perguntar quando ouvi a voz de Caio atrás de mim.
— Marina.
O guarda-chuva dele se abriu sobre minha cabeça. Um dos ombros do terno estava encharcado porque ele se inclinara para me proteger da chuva.
— Por que você veio até aqui sozinha? A família toda está esperando. Está na hora de irmos.
Renato já havia recuperado a expressão serena de sempre.
Caio o encarou.
— Doutor Renato?
— Caio.
— Ficou alguma pendência relacionada ao meu sogro?
— Não.
— Então por que estava procurando a Marina?
Renato sorriu com educação.
— Alguns assuntos pessoais que seu sogro me confiou enquanto estava vivo.
A mão de Caio pousou no meu ombro.
Foi um gesto leve, quase carinhoso.
Mesmo assim, meu corpo inteiro ficou tenso.
— Que assuntos?
— Informações protegidas pela relação entre advogado e cliente.
Os dois se olharam durante dois segundos.
Ninguém disse nada.
Fui eu quem rompeu o silêncio.
— Doutor Renato… meu pai deixou testamento?
A expressão dele mudou.
Quase ao mesmo tempo, senti os dedos de Caio apertarem meu ombro.
Durou menos de um segundo.
Logo depois, ele riu.
— Por que você está perguntando isso agora?
— Só pensei nisso.
— Seu pai não dizia que um dia a empresa seria sua? Com ou sem testamento, o que muda?
Olhei para ele.
Éramos casados havia sete anos.
E, pela primeira vez, percebi como era fácil notar quando uma pessoa se esforçava demais para parecer natural.
Não perguntei mais nada.
Menos de um minuto depois de entrarmos no carro, meu celular vibrou.
Era uma mensagem de Renato.
Uma única frase.
Seu pai não morreu apenas por causa da doença.
Meu pai havia morrido, oficialmente, de um infarto agudo.
Pelo menos era isso que constava na documentação médica.
Cinco dias antes, ele ainda estava sentado em uma reunião do conselho do Grupo Lemos, discutindo com executivos e batendo a mão na mesa.
No meio da reunião, levou a mão ao peito e caiu.
Quando a ambulância chegou, ele já estava inconsciente.
Foi estabilizado, mas nunca acordou.
Às 4h27 da madrugada do terceiro dia, o coração parou.
Quando consegui chegar ao hospital, o lençol branco já cobria seu corpo.
Não houve despedida.
Nenhuma última frase.
Nem sequer tive a chance de vê-lo abrir os olhos mais uma vez.
Por isso, quando li aquela mensagem, minha primeira reação não foi medo.
Foi raiva.
Liguei imediatamente para Renato.
Ele recusou a chamada.
Liguei outra vez.
Recusou de novo.
Na terceira tentativa, o celular já estava desligado.
— O que aconteceu? — Caio perguntou.
Virei a tela do celular para baixo sobre a perna.
— Nada. Coisa da empresa.
— Hoje você não deveria estar pensando em trabalho.
Ele segurou minha mão.
— Você acabou de enterrar seu pai. Descansa alguns dias.
Até aquela manhã, essa frase provavelmente teria me confortado.
Caio sempre fora o tipo de marido que parecia impossível de criticar.
Conheci-o aos vinte e cinco anos.
Na época, ele era diretor financeiro de uma subsidiária do grupo fundado pelo meu pai.
Nós nos encontramos pela primeira vez na confraternização de fim de ano.
O salto do meu sapato prendeu no carpete do hotel, e quase caí.
Caio me segurou pelo braço.
Mas, ao contrário de tantos homens que aproveitavam qualquer oportunidade para se aproximar da filha do presidente do grupo, ele apenas disse:
— Cuidado.
Depois foi embora.
Fui eu quem pediu o contato dele mais tarde.
Seis meses depois, levei Caio para conhecer meu pai.
Meu pai fez somente três perguntas.
— Onde você nasceu?
— O que seus pais fazem?
— Por que quis trabalhar no Grupo Lemos?
Caio respondeu uma por uma.
Meu pai não disse que havia gostado dele.
Também não disse que havia desgostado.
Mas, assim que Caio foi embora, colocou a xícara de café com força sobre a mesa.
— Esse homem não serve para você.
Fiquei furiosa.
— O que tem de errado com ele? O senhor acabou de conhecê-lo.
— Marina. Se estou dizendo que não serve, é porque não serve.
— É porque a família dele não tem dinheiro?
O rosto do meu pai escureceu.
— Não tem nada a ver com dinheiro.
— Então tem a ver com o quê?
Ele ficou calado durante muito tempo.
No fim, respondeu:
— Ele quer algumas coisas demais.
Na época, cheguei a rir.
— Todo mundo quer alguma coisa. Quando o senhor começou a empresa, também queria ganhar dinheiro.
Meu pai me encarou.
— Eu não tenho medo de ele não ter dinheiro. Tenho medo de quanto ele quer ter.
Eu não compreendi.
Achei meu pai preconceituoso, controlador e excessivamente desconfiado.
Por causa de Caio, passei dois meses sem falar direito com ele.
No fim, foi meu pai quem cedeu.
No dia do casamento, segurou minha mão e a colocou na de Caio.
Disse apenas:
— Não faça minha filha se arrepender.
Caio respondeu sem hesitar:
— Nunca.
Sete anos haviam se passado.
Durante aqueles sete anos, eu realmente nunca me arrependi.
Até aquele dia.
— Marina?
Voltei a mim.
O carro estava parado em um sinal vermelho.
Caio me observava.
— Você está muito pálida.
— Só estou cansada.
— Vamos para casa. Você precisa dormir.
Continuei olhando pela janela.
Então falei:
— Quero ir ao hospital.
A resposta dele veio rápido demais.
— Fazer o quê no hospital?
Virei o rosto.
— Buscar uma coisa do meu pai.
— O quê?
Inventei no mesmo instante.
— Um relógio. Uma enfermeira comentou que ficou no quarto.
— Eu já recolhi tudo.
— Quero olhar pessoalmente.
Caio ficou alguns segundos em silêncio.
— Amanhã eu vou com você.
— Não precisa.
— Marina.
Sua voz continuava tão gentil quanto sempre.
— Seu pai foi enterrado hoje. Você está abalada. Vamos para casa primeiro.
Soltei uma risada curta.
— Caio.
— Oi?
— Por que você não quer que eu vá ao hospital?
O interior do carro pareceu esfriar.
O motorista nos observou rapidamente pelo retrovisor.
Caio também sorriu.
— Em que momento eu disse que você não podia ir?
— Então manda parar o carro.
Ele me encarou.
Dez segundos se passaram.
— Pode encostar.
O motorista estacionou.
Abri a porta.
Caio não desceu atrás de mim.
Permaneceu no banco traseiro, observando-me através do vidro.
Nunca tinha visto aquele olhar.
Não parecia o olhar de um marido preocupado com a esposa.
Parecia o olhar de alguém tentando calcular uma coisa.
Quanto eu já sabia?
Não fui ao hospital.
Peguei um táxi e segui para a sede do Grupo Lemos.
O vigésimo oitavo andar, onde ficava o escritório do meu pai, estava silencioso demais.
Júlia, a secretária dele, levantou-se assim que me viu.
— Diretora Marina.
Parei.
Durante anos, ela me chamara simplesmente de Marina ou senhorita Lemos.
Meu pai estava morto havia apenas cinco dias.
E meu tratamento dentro da empresa já havia mudado.
— Vou pegar algumas coisas no escritório dele.
Júlia pareceu desconfortável.
— O diretor Caio pediu que ninguém entrasse na sala do presidente por enquanto.
— Diretor Caio?
— Sim.
— Esta era a sala do meu pai. Desde quando Caio decide se eu posso entrar?
O rosto dela perdeu a cor.
— Não quis dizer isso, diretora.
Estendi a mão.
— A chave.
— Mas…
— Júlia. A chave.
Depois de hesitar, ela entregou a reserva.
Abri a porta.
Tudo permanecia quase exatamente como meu pai havia deixado.
Sobre a mesa havia uma xícara com restos secos de café.
Um contrato continuava aberto.
A caneta-tinteiro estava caída ao lado.
Os óculos dele repousavam sobre uma pasta.
Meus olhos arderam.
Cinco dias antes, aquele homem estava sentado ali, reclamando de mim.
Naquele dia, eu havia chegado quinze minutos atrasada a uma reunião.
Diante de vários executivos, ele me repreendera sem qualquer delicadeza.
— Trinta e dois anos e ainda não consegue administrar o próprio horário. Como pretende administrar uma empresa inteira?
Fiquei mortificada.
Assim que a reunião terminou, discutimos.
— Não existe mais ninguém nesta empresa além de mim para o senhor fiscalizar?
Ele bateu na mesa.
— Se eu não cobrar você, vou cobrar quem?
— Eu vivo dizendo que Caio é competente. Então entregue tudo para ele!
Eu estava com raiva.
— De qualquer maneira, todo mundo parece melhor do que eu aos seus olhos.
Bati a porta e fui embora.
Foi a última conversa que tivemos.
Agora, lembrando daquela cena, percebi uma coisa.
Quando eu estava saindo, meu pai chamou:
— Marina.
Eu não virei.
Se soubesse que seria a última vez…
Eu teria voltado.
Passei a mão pelo rosto e limpei as lágrimas.
Depois abri as gavetas da mesa.
Meu pai tinha um hábito.
Documentos ou objetos importantes sempre ficavam nas gavetas inferiores.
A primeira continha contratos.
A segunda, medicamentos.
A terceira…
Estava vazia.
Franzi a testa.
Meu pai tratava um problema cardíaco havia muitos anos.
Todos os dias tomava o mesmo medicamento importado.
Desde criança eu reconhecia o frasco.
Ele costumava ficar no lado direito da segunda gaveta.
Agora, havia apenas a medicação de emergência que ele mantinha por perto.
O remédio de uso diário tinha desaparecido.
— Júlia.
Ela entrou.
— Sim, diretora?
— No dia em que meu pai passou mal, quem pegou o remédio que ele tomava todos os dias?
Ela pensou.
— O diretor Caio.
Minha mão parou sobre a gaveta.
— Por quê?
— Quando o presidente desmaiou, o diretor Caio foi uma das primeiras pessoas a entrar. Quando a ambulância chegou, ele disse que os médicos talvez precisassem saber quais medicamentos o presidente usava. Então levou o frasco.
Fazia sentido.
Até demais.
— E depois?
— Eu não sei.
— Você viu meu pai cair?
— Vi.
— Quem estava na sala?
Ela citou sete ou oito pessoas.
— E Caio?
— No começo da reunião, ele não estava.
— Então quando entrou?
— Logo depois que o presidente caiu.
— Quem avisou a ele?
Júlia ficou parada.
— Acho que… ninguém.
Meu estômago se contraiu.
— Como assim?
— O escritório do diretor Caio fica no vigésimo sexto andar. O presidente tinha acabado de cair quando ele apareceu. Não demorou nem um minuto. Na época, eu até achei estranho.
Do vigésimo sexto ao vigésimo oitavo andar.
Mesmo de elevador.
Sem ninguém avisá-lo.
Era praticamente impossível chegar em menos de um minuto.
A menos que…
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