
Parte 4
Eu não respondi à mensagem de Caio.
Tirei uma captura para registrar o conteúdo e guardei o celular. Não queria interpretar aquela frase como ameaça antes de entender o contexto, mas também não pretendia fingir que ela não existia.
Na manhã seguinte, convoquei uma reunião com os principais responsáveis administrativos do grupo.
Não anunciei uma investigação contra Caio. Disse apenas que, diante da morte repentina do presidente e do início do processo sucessório, todas as autorizações financeiras relevantes seriam revisadas e nenhuma alteração de acesso seria feita informalmente.
Caio entrou na sala três minutos depois do horário.
Tinha o rosto cansado.
Sentou-se do outro lado da mesa e me encarou.
— Você resolveu assumir a empresa em uma semana?
— Resolvi entender o que está acontecendo dentro dela.
— Não é a mesma coisa.
— Eu sei.
Alguns executivos desviaram os olhos.
Meu pai costumava ocupar aquela cadeira.
Eu ainda não estava pronta para ocupar o lugar dele, e não tentei.
Sentei-me lateralmente.
Caio apresentou números, fluxo de caixa, compromissos com fornecedores e contratos em andamento. Profissionalmente, parecia o mesmo homem competente que eu admirara durante anos.
Talvez isso fosse o que mais me assustava.
Eu conhecia aquela versão dele.
O que não sabia era se conhecia todas as outras.
Quando a reunião terminou, pedi que permanecesse.
Renato também ficou.
Caio olhou para ele.
— Claro. Agora tudo precisa acontecer com advogado na sala.
— Ele está aqui por causa da sucessão do meu pai.
— E por causa de mim.
— Se você quiser falar sobre o que fez ou não fez, fale comigo.
Ele se inclinou para a frente.
— Você quer saber por que eu estava no vigésimo oitavo andar?
Esperei.
— Seu pai me chamou.
A resposta me atingiu de forma inesperada.
— Para quê?
— Para discutir alguns pagamentos.
— Os mesmos pagamentos que ele estava revisando?
Caio lançou um olhar rápido para Renato.
— Então ele já contou.
— Meu pai contou ao advogado dele que pretendia revisar suas autorizações. Isso não significa que você tenha feito algo errado.
Caio soltou o ar.
— Finalmente uma frase razoável.
— Qual documento você foi buscar para ele assinar?
— Não fui buscar assinatura nenhuma.
Meu corpo ficou imóvel.
— Ontem você disse que subiu para buscar uma assinatura.
Ele percebeu no mesmo instante.
Durante alguns segundos, ninguém falou.
— Eu me expressei mal — disse enfim. — Ele queria falar sobre documentos financeiros.
— Então por que mentiu?
— Porque você me ligou me acusando de esconder remédio e ficar rondando o andar antes do seu pai morrer. Eu estava tentando encerrar uma conversa absurda.
— Mentindo?
— Tentando evitar que você transformasse tudo em outra coisa.
Renato permaneceu calado.
Eu também.
Não precisava pressioná-lo.
A própria contradição já estava ali.
— E o frasco? — perguntei.
Caio se recostou.
— Eu levei.
— Para o hospital?
— Sim.
— O hospital não recebeu.
— Eu já expliquei.
— Você mostrou para alguém que não consegue identificar. Depois ficou com o frasco. Depois jogou fora. Onde?
— Não sei.
— Em casa?
— Talvez.
— No hospital?
— Pode ser.
— No carro?
Ele se levantou.
— Chega.
A palavra ecoou na sala.
Foi a primeira vez em sete anos que Caio levantou a voz comigo daquela maneira.
— Seu pai morreu. Você está desesperada por uma explicação. Eu entendo. Mas não vou ficar sentado aqui enquanto você transforma cada minuto daqueles três dias em prova de assassinato.
— Eu nunca usei essa palavra.
O rosto dele perdeu um pouco da cor.
Eu também percebi.
Renato percebeu.
Ninguém comentou.
Caio pegou o paletó.
— Vou trabalhar.
— Antes disso, uma coisa.
Ele parou.
— A partir de hoje, decisões financeiras acima dos limites usuais precisarão de validação conjunta até concluirmos a revisão.
— Você não pode fazer isso sozinha.
— Eu não fiz sozinha.
Naquela manhã, outros membros da direção haviam concordado com a medida provisória.
Não porque acreditassem que Caio tivesse matado meu pai.
Mas porque uma transição de comando após a morte inesperada do fundador exigia controle.
Caio fechou a mão em torno do paletó.
— Você está me afastando.
— Estou reduzindo temporariamente algumas autorizações.
— Por causa das histórias de Renato.
— Por causa das contradições que saíram da sua própria boca.
Ele foi embora sem responder.
Essa foi a primeira consequência concreta.
Até aquele momento, Caio ainda controlava praticamente todo o fluxo financeiro operacional.
Agora, não mais.
Naquela tarde, comecei a analisar os relatórios que meu pai havia solicitado antes de morrer.
Não fiz isso sozinha. A equipe interna organizou documentos já existentes: contratos, ordens de pagamento, autorizações e justificativas.
Não apareceu uma fraude perfeita escondida numa pasta.
A realidade era mais confusa.
Alguns pagamentos tinham explicação.
Outros eram apenas decisões agressivas de gestão.
Mas três operações chamavam atenção porque haviam sido antecipadas apesar de o caixa da empresa não exigir aquilo.
Todas tinham sido autorizadas sob responsabilidade de Caio.
Meu pai havia marcado duas delas com comentários.
“Rever justificativa.”
“Não aprovar novas operações semelhantes antes de reunião.”
A letra era dele.
Reconheci no mesmo instante.
Nada daquilo provava que Caio roubara dinheiro.
Mas mostrava por que meu pai queria restringir seus poderes.
À noite, liguei para Renato.
— Se Caio descobrisse que meu pai pretendia afastá-lo, o que ele perderia?
— Cargo, influência e talvez a reputação, dependendo do que a revisão encontrasse.
— Dinheiro?
— Parte da remuneração variável e acesso a decisões importantes, sim.
Fechei os olhos.
Durante sete anos, meu pai repetira que Caio queria demais.
Eu sempre interpretei aquilo como preconceito.
Agora começava a entender que talvez ele estivesse falando de limites.
No dia seguinte, retornei ao hospital para receber uma parte adicional do prontuário.
Havia uma informação que eu não havia percebido antes.
Na entrada da emergência, os médicos registraram os medicamentos habituais com base na lista fornecida por Caio.
Um deles não correspondia ao nome comercial do remédio que eu via meu pai tomar havia anos.
Poderia ser equivalente.
Poderia ter mudado.
Eu não sabia.
Por isso, em vez de concluir qualquer coisa, pedi que um profissional verificasse no histórico médico se a prescrição tinha sido alterada.
A resposta veio horas depois.
Não havia registro recente de mudança.
O tratamento habitual ainda era o mesmo.
Caio havia informado um medicamento diferente.
Naquela noite, encontrei outra mensagem dele.
“Precisamos parar com isso antes que você faça algo irreversível.”
Dessa vez, não senti medo.
Senti clareza.
Eu não estava mais investigando apenas por desconfiança.
Havia três fatos que precisavam ser explicados: Caio estivera no andar antes do colapso, levara um frasco que nunca chegara ao hospital e fornecera à equipe médica uma informação diferente da prescrição registrada.
Ainda não era uma resposta.
Mas já era suficiente para eu parar de aceitar respostas vagas.
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