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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

Parte 5

No terceiro dia após o enterro, pedi oficialmente que Caio se afastasse das decisões financeiras mais sensíveis enquanto a revisão interna estivesse em andamento.

Não era uma demissão.

Também não era uma condenação.

Era uma medida de governança que dependia da concordância de outros responsáveis pela empresa, e conseguimos essa concordância depois de uma reunião tensa de quase quatro horas.

Caio não tentou esconder a raiva.

— Você está usando a morte do seu pai para tomar controle.

Eu o encarei.

— Controle de quê? De uma empresa que eu passei anos deixando que você e meu pai administrassem enquanto eu evitava qualquer conflito?

Ele ficou calado.

A frase doeu em mim também.

Era verdade.

Meu pai me cobrava porque queria que eu participasse mais.

Eu respondia dizendo que Caio era competente.

Era mais fácil defender meu marido do que admitir que eu tinha medo de não estar à altura do meu pai.

— Eu confiei em você — continuei. — Tanto que muitas vezes parei de perguntar.

— E agora resolveu perguntar tudo de uma vez.

— Sim.

Caio riu, sem humor.

— Renato conseguiu exatamente o que queria.

— Renato não assinou nenhum desses pagamentos.

A expressão dele endureceu.

— Você não entende finanças.

— Então me explique.

Ele puxou uma pasta.

Durante quase uma hora, explicou as três operações que meu pai havia marcado.

Duas tinham justificativas plausíveis. A terceira envolvia um adiantamento excepcional a um fornecedor que enfrentava dificuldades de produção.

— Se não pagássemos antes, eles parariam a entrega e nós perderíamos um contrato maior — Caio disse.

— Meu pai concordou?

— No começo.

— Então por que escreveu que não queria novas operações parecidas antes da reunião?

— Porque mudou de ideia.

— Depois de quê?

Caio não respondeu imediatamente.

— Depois de perceber que você assumiu compromissos sem aprovação completa? — perguntei.

— Eu tinha autoridade operacional.

— Até certo limite.

Ele fechou a pasta.

— Você quer que eu admita alguma coisa específica?

— Quero que você pare de responder perguntas simples como se todas fossem armadilhas.

Saí da sala antes que a conversa voltasse ao mesmo círculo.

A revisão prosseguiu.

Uma funcionária do controle interno encontrou e-mails mostrando que meu pai havia pedido esclarecimentos sobre o adiantamento dois dias antes de passar mal. Não havia acusação. Apenas perguntas objetivas sobre quem autorizara, por que a urgência não fora comunicada e que garantias a empresa receberia.

Caio respondera parcialmente.

Meu pai marcou uma reunião presencial.

A reunião aconteceria na manhã do dia em que ele caiu.

Era aquela conversa que Caio finalmente admitira ter tido.

Então a presença dele no vigésimo oitavo andar deixou de ser inexplicável.

Isso, de maneira estranha, foi um alívio.

Pelo menos uma parte da história fazia sentido.

Mas outra passou a fazer menos.

Caio dissera que meu pai o chamara para falar sobre documentos financeiros.

Se eles realmente haviam se encontrado antes da reunião do conselho, por que ele nunca mencionara isso enquanto todos tentavam reconstruir as últimas horas do meu pai?

Perguntei a Júlia se tinha ouvido alguma discussão.

— Não — respondeu. — Mas a porta da sala estava fechada.

— Quanto tempo Caio ficou lá?

— Não sei exatamente. Talvez dez minutos.

— E quando saiu?

Ela hesitou.

— Eu não o vi sair pela recepção.

Havia uma saída lateral que levava ao corredor interno e à escada de emergência.

A mesma porta que Júlia lembrava ter visto fechando antes.

Novamente, não era prova de nada.

Mas agora sabíamos onde Caio provavelmente estivera.

Naquele fim de tarde, recebi uma ligação do hospital.

O setor responsável pelo prontuário tinha localizado uma anotação complementar feita na admissão. O médico havia registrado que o histórico medicamentoso fora fornecido “pelo genro”, mas havia dúvida sobre um dos nomes.

Eu perguntei se aquilo significava erro.

A profissional foi cuidadosa.

— Significa apenas que havia incerteza no momento da entrada. Emergência é assim. Informações chegam incompletas.

A resposta me obrigou a controlar minha ansiedade.

Eu queria uma linha reta.

A realidade insistia em vir cheia de curvas.

Renato me encontrou depois do expediente.

— Seu pai não deixou uma acusação contra Caio — disse antes mesmo de eu perguntar. — Quero que isso fique claro.

Assenti.

— Mas deixou alguma coisa?

— Registros normais do trabalho dele comigo. Anotações sobre a reorganização da empresa e sobre uma possível revisão das autorizações de Caio.

— Testamento?

Renato respirou.

— Existe um testamento anterior. Não foi feito na semana da morte e não contém nenhuma revelação dramática. Seu pai organizou a sucessão patrimonial dentro do que já era esperado.

Quase ri de nervoso.

Passei dias transformando a palavra “testamento” numa espécie de cofre imaginário onde meu pai teria escondido todas as respostas.

Não havia resposta alguma ali.

A empresa não passaria para mim magicamente da noite para o dia. Haveria inventário, formalidades e administração temporária.

Meu pai, mesmo morto, ainda me obrigava a enfrentar o mundo real.

— Então por que ele foi falar com você seis dias antes?

— Porque pretendia alterar instrumentos de governança e avaliar como afastar Caio das funções financeiras sem paralisar a empresa, caso as dúvidas não fossem esclarecidas.

— Ele tinha decidido?

— Ainda não.

Essa distinção era importante.

Meu pai desconfiava.

Mas desconfiar não era condenar.

No estacionamento, encontrei Caio me esperando.

Não havia motorista.

Ele estava encostado no próprio carro.

— Você não volta para casa há três noites.

— Eu sei.

— Somos casados.

— Eu também sei.

Ele se aproximou.

— Marina, me diz o que você quer de mim.

Pensei antes de responder.

— A verdade completa.

— Eu já te dei.

— Não.

Olhei diretamente para ele.

— Você nunca me contou que esteve sozinho com meu pai pouco antes de ele cair.

A mandíbula de Caio se contraiu.

— Porque aquela conversa foi humilhante.

— O que ele disse?

— Que eu estava passando dos limites.

— Só isso?

— Disse que, se eu não justificasse algumas decisões, me tiraria da diretoria financeira.

Ali estava.

Pela primeira vez, Caio admitiu que sabia que poderia perder o cargo.

— Você discutiu com ele?

— Sim.

— Ameaçou?

— Não.

— Tocou nos remédios dele?

O rosto de Caio mudou.

Muito pouco.

Mas mudou.

— Não.

Foi a primeira resposta totalmente direta que ele me deu.

E, estranhamente, foi a que mais me assustou.

Porque eu ainda nem havia perguntado se ele tinha mexido nos remédios antes de meu pai cair.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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