
Parte 6
Voltei para o hotel com aquela resposta ecoando na cabeça.
“Não.”
Sem hesitação.
Sem perguntar por que eu fazia aquela pergunta.
Sem dizer que apenas pegara o frasco depois.
Na manhã seguinte, conversei com Renato antes de tomar qualquer nova decisão.
— Isso continua não sendo prova — ele disse.
— Eu sei.
— Estou dizendo porque agora você já tem motivos emocionais demais para completar os espaços vazios.
— E o que faço?
— Se existe suspeita real sobre uma morte, não é você quem deve investigar sozinha.
A frase me incomodou.
Nos últimos dias, eu havia me acostumado à sensação de que precisava entender tudo pessoalmente.
Mas Renato tinha razão.
Eu podia revisar a empresa porque fazia parte dela.
Podia pedir o prontuário do meu pai porque era filha dele.
Podia confrontar meu marido porque era minha vida.
O que eu não podia era transformar suspeitas médicas em conclusões.
Antes de procurar as autoridades, porém, decidi terminar a revisão interna iniciada pelo meu pai.
Os documentos mostraram que Caio não havia simplesmente roubado dinheiro.
A situação era mais complexa.
Ele vinha assumindo riscos que meu pai considerava excessivos, antecipando pagamentos e usando sua posição para acelerar decisões sem seguir todos os controles internos.
Algumas operações haviam dado resultado.
Outras deixaram a empresa exposta.
A diferença entre os dois homens começou a ficar clara para mim.
Meu pai construíra o Grupo Lemos desconfiando de cada passo.
Caio queria crescer rápido.
Durante anos, eu admirara justamente isso nele.
Ele entrava numa sala e parecia já enxergar três movimentos adiante.
O problema era que, quando alguém vivia pensando três movimentos adiante, começava a tratar limites como obstáculos.
Na tarde daquele dia, Renato me mostrou as próprias anotações da última reunião com meu pai.
Nada secreto no sentido cinematográfico.
Datas.
Assuntos.
Tópicos discutidos.
Entre eles havia uma frase escrita à mão pelo próprio Renato:
“Suspender poderes financeiros de C. se não houver explicação satisfatória.”
Logo abaixo:
“Presidente pretende conversar pessoalmente antes.”
Era exatamente o que Caio havia admitido.
Meu pai o confrontara.
Horas depois, caiu durante a reunião.
A proximidade temporal era terrível.
Mas ainda não respondia a pergunta principal.
Renato fechou a pasta.
— Seu pai também me disse algo pessoal naquele dia.
Ergui os olhos.
— O quê?
— Que estava preocupado com você.
Meu peito apertou.
— Comigo?
— Ele sabia que você confiava muito em Caio. Disse que, se houvesse um rompimento profissional, não queria obrigar você a escolher entre marido e pai.
Baixei a cabeça.
Meu pai, que eu acusara tantas vezes de tentar controlar minha vida, havia escondido justamente a maior desconfiança para não me colocar no meio.
— Por isso você não podia me contar?
— Por isso ele pediu que eu esperasse até concluir a revisão.
— E por que me mandou não voltar para casa depois do enterro?
Renato ficou sério.
— Porque Caio me procurou no próprio cemitério antes de falar com você.
Eu o encarei.
— Quando?
— Cerca de vinte minutos antes. Perguntou se seu pai tinha assinado algum documento novo, se havia deixado procurações ou instruções que afetassem a diretoria.
Senti um desconforto subir pelo peito.
— Isso ainda pode ser preocupação profissional.
— Pode. Mas depois ele perguntou se você sabia que seu pai havia se encontrado comigo.
A sala ficou silenciosa.
— Como ele sabia?
— Foi exatamente o que eu quis descobrir.
Essa era a nova peça.
Meu pai se encontrara com Renato em particular.
Mesmo assim, Caio sabia.
Não provava que conhecesse o conteúdo.
Mas explicava o nervosismo dele quando me viu ao lado do advogado.
Pedi à equipe administrativa que verificasse a agenda do meu pai.
O encontro com Renato não estava lá.
Tinha sido marcado por telefone.
Então alguém precisaria tê-los visto.
Ou ouvido meu pai comentar.
Ou acompanhado seus movimentos.
No fim do dia, Júlia veio até minha sala.
— Diretora… lembrei de uma coisa.
Esperei.
— Na semana anterior ao problema do seu pai, o diretor Caio perguntou se o presidente tinha saído para alguma reunião externa.
— Ele fazia esse tipo de pergunta normalmente?
— Às vezes. Mas naquele dia perguntou onde.
— E você disse?
— Que não sabia.
Não era suficiente para explicar como Caio descobrira o encontro.
Mas mostrava que ele estava tentando saber.
Naquela noite, Caio pediu para me ver outra vez.
Aceitei, mas escolhi uma cafeteria movimentada.
Ele percebeu.
— Agora você tem medo de ficar sozinha comigo?
— Ainda não sei do que tenho medo.
A resposta o feriu.
Pela primeira vez desde que tudo começou, ele não reagiu com raiva.
Passou a mão pelo rosto.
— Eu amei você de verdade.
A frase me deixou gelada.
— Por que está falando no passado?
Ele levantou os olhos.
— Porque você já decidiu que nosso casamento acabou.
— Não. Você é quem está falando como se tivesse acabado.
Caio abaixou a voz.
— Seu pai nunca me aceitou.
— Ele entregou minha mão para você no nosso casamento.
— E passou sete anos esperando eu errar.
— Você acha que isso justifica alguma coisa?
— Eu não disse isso.
— Então me explica como você sabia que ele havia se encontrado com Renato.
O rosto dele perdeu a expressão.
— Quem te contou?
— Renato.
Caio olhou para a rua.
— Seu pai comentou que estava revendo documentos jurídicos.
— Quando?
— Na nossa discussão.
— Então por que você perguntou a Renato se eu sabia do encontro?
Ele demorou.
— Porque eu queria saber o quanto vocês dois estavam falando de mim.
A honestidade daquela resposta me surpreendeu.
— Então você sabia que meu pai estava investigando suas decisões.
— Sim.
— E tinha medo de perder o cargo.
— Sim.
— E esteve sozinho com ele naquela manhã.
— Sim.
— E depois que ele caiu, pegou o frasco do remédio.
Caio apertou os lábios.
— Sim.
Quatro respostas.
Quatro fatos.
Quando fiz a quinta pergunta, a voz quase não saiu.
— Onde está o frasco?
Ele me encarou.
— Eu joguei fora.
— Onde?
— Não lembro.
— Essa é a única coisa que você nunca consegue lembrar.
Caio se levantou.
— Porque não significava nada naquele momento.
Eu também me levantei.
— Então não deveria significar nada agora.
Saí.
Na calçada, liguei para Renato.
Minha decisão estava tomada.
Eu não procuraria mais a resposta sozinha.
No dia seguinte, levaríamos tudo o que tínhamos às autoridades competentes e pediríamos que a morte do meu pai fosse analisada além da explicação inicial de infarto.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














