
Parte 7
Fazer uma denúncia não transformou suspeita em verdade.
Essa foi a primeira coisa que me explicaram.
Entregamos os registros de acesso, as informações do hospital, as anotações da revisão financeira e uma descrição cuidadosa das contradições de Caio.
Ninguém prometeu uma resposta rápida.
Ninguém declarou que meu pai fora assassinado.
O que existia era uma morte inicialmente tratada como evento cardíaco natural e um conjunto posterior de informações que justificava verificação.
Pela primeira vez, senti alívio por não precisar decidir sozinha o que cada fato significava.
A empresa continuava funcionando.
O inventário começava.
O luto continuava.
Minha vida, apesar de tudo, não parou para esperar a investigação.
Caio descobriu que eu havia procurado as autoridades dois dias depois.
Entrou na minha sala sem marcar horário.
— Você fez isso.
Não precisei perguntar a quê se referia.
— Fiz.
— Colocou a polícia no meio da nossa família.
— A morte do meu pai não é um problema conjugal.
— Você sabe o que isso vai fazer comigo?
— Não.
Fechei o documento que estava lendo.
— E é justamente por isso que eu parei de tentar prever. Se você não fez nada, os fatos precisam mostrar isso.
— Minha carreira pode acabar mesmo assim.
— Meu pai morreu.
A frase saiu baixa.
Caio perdeu a cor.
— Eu sei.
— Não, Caio. Acho que você ainda não entende. Durante cinco dias, eu estava preocupada em saber se meu marido estava sendo injustiçado. Meu pai já não tinha a chance de se defender de nada.
Ele puxou uma cadeira.
— Marina, por favor.
Não ouvi súplica na voz dele havia anos.
— Eu menti sobre algumas coisas.
Meu coração acelerou, mas mantive a expressão.
— Quais?
— Sobre a reunião. Sobre por que subi. Sobre o frasco.
Esperei.
— Eu não queria que você soubesse que seu pai estava prestes a me afastar.
— E o remédio?
Caio fechou os olhos.
— Eu levei para o hospital.
— Isso eu já sei.
— Depois coloquei no meu carro.
— Por quê?
— Porque os médicos já tinham a informação.
— E jogou fora?
— Sim.
— Onde?
— Num posto de gasolina. Acho.
“Acho.”
Outra vez.
— Por que mentiu dizendo que talvez tivesse jogado no hospital?
— Porque eu percebi como aquilo soava.
— Como o quê?
Ele bateu a palma da mão na mesa.
— Como se eu estivesse escondendo alguma coisa!
Algumas pessoas do lado de fora olharam para a porta de vidro.
Eu não levantei a voz.
— E estava?
Caio me encarou.
— Não do jeito que você pensa.
Meu corpo inteiro ficou atento.
— Então de que jeito?
Ele levantou.
— Eu não vou fazer uma confissão por uma coisa que não fiz.
— Eu não pedi uma confissão. Pedi uma resposta.
Caio saiu.
Naquele momento, percebi como nossas conversas haviam mudado.
Antes, eu queria acreditar nele.
Agora, eu queria entender.
E acreditar ou não seria consequência disso.
Na mesma semana, a investigação pediu formalmente documentos médicos e informações adicionais.
Descobri que o hospital ainda possuía amostras clínicas relacionadas ao atendimento do meu pai, preservadas de acordo com seus procedimentos internos. A possibilidade de análises adicionais seria decidida pelos profissionais responsáveis e pelas autoridades.
Eu não tinha controle sobre isso.
Pela primeira vez, aceitei não ter controle.
Enquanto isso, a revisão financeira trouxe outra consequência.
Um dos pagamentos antecipados feitos por Caio havia violado regras internas de aprovação.
Não havia evidência de que ele tivesse embolsado dinheiro.
Mas havia motivo suficiente para o conselho mantê-lo temporariamente afastado de determinadas funções até o encerramento da apuração.
Caio recebeu a decisão numa sexta-feira.
Ele não olhou para os outros executivos.
Olhou apenas para mim.
— Era isso que seu pai queria.
— Talvez.
— Então você conseguiu terminar o trabalho dele.
A frase atingiu uma parte dolorosa em mim.
— Não estou fazendo isso pelo meu pai.
— Claro que está.
— Não.
Apoiei as mãos na mesa.
— Meu pai passou a vida tomando decisões por mim porque achava que sabia o que era melhor. Você passou anos tomando decisões ao meu redor porque achava que eu confiaria. Eu estou fazendo isso por mim.
Caio desviou os olhos.
Foi a primeira vez que senti que a disputa entre nós deixara de ser sobre quem estava certo.
Passara a ser sobre quem controlava minha vida.
Naquela noite, fui até nossa casa.
Não para voltar.
Para buscar roupas, documentos pessoais e algumas coisas que eu havia deixado.
Renato se ofereceu para mandar alguém, mas recusei.
Eu não precisava de um salvador.
Avisei Caio antes.
Quando cheguei, ele estava sentado na sala.
A casa parecia exatamente igual.
A almofada que eu escolhera.
Os livros que compramos juntos.
A fotografia do nosso casamento.
Por alguns segundos, meu corpo quis esquecer tudo.
Quis voltar sete dias no tempo.
Caio percebeu.
— Você ainda pode ficar.
Olhei para ele.
— Não hoje.
— E algum dia?
Não respondi.
Fui ao quarto.
Enquanto colocava roupas numa mala, ele ficou parado na porta.
— Eu nunca quis perder você.
Parei.
— Isso é diferente de nunca querer me ferir.
Ele engoliu a resposta.
Fechei a mala.
Ao passar por ele, Caio segurou meu braço.
Não com força.
Mas eu olhei para a mão dele.
Caio soltou imediatamente.
— Desculpa.
Desci as escadas.
Já estava quase na porta quando ele disse:
— Seu pai ia acabar comigo.
Virei.
O rosto dele estava pálido.
— O que você quer dizer?
Caio passou as mãos pelos cabelos.
— Naquela manhã. Ele disse que ia me tirar da diretoria. Disse que eu tinha usado você para chegar onde estava.
— E você fez o quê?
Ele me encarou.
Durante alguns segundos, achei que finalmente responderia.
Mas apenas disse:
— Vai embora, Marina.
Dessa vez eu fui.
Não porque Renato tivesse mandado.
Não porque meu pai teria aprovado.
Fui porque eu escolhi sair.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














