
Parte 3
Às sete e meia da manhã, eu já estava a caminho do hospital.
Dormi menos de três horas. Mesmo assim, minha cabeça estava mais clara do que na noite anterior. Eu não queria provar que Caio era culpado de alguma coisa. Queria descobrir se os fatos faziam sentido sem precisar forçá-los.
Renato havia me alertado sobre isso durante nossa última conversa.
— Se você começar procurando culpa, vai interpretar qualquer detalhe como confirmação. Procure inconsistências. Se não houver nenhuma, melhor para todos.
Foi a primeira frase sensata que alguém me disse desde a morte do meu pai.
No setor responsável pelos prontuários, expliquei que era filha do paciente e que precisava dos documentos para tratar das questões familiares e sucessórias. Parte do material não poderia ser entregue imediatamente, mas consegui solicitar o prontuário, os registros de admissão, a relação dos objetos recebidos e a anotação inicial dos medicamentos informados à equipe.
Não havia frasco algum registrado.
Li a folha duas vezes.
Caio aparecia identificado como familiar presente na chegada da ambulância. Ele havia informado os medicamentos de que se lembrava, mas nenhum objeto pessoal relacionado à medicação tinha sido entregue à equipe.
Aquilo não significava que ele estivesse mentindo. Poderia ter carregado o frasco consigo sem entregá-lo. Poderia tê-lo esquecido no carro. Poderia ter entendido que os médicos não precisariam dele depois de informar os nomes.
Ainda assim, havia uma pergunta concreta.
Se Caio tirara o remédio da gaveta porque os médicos poderiam precisar vê-lo, por que o hospital jamais o recebeu?
Pedi para conversar com alguém da equipe que havia feito a admissão. Depois de algum tempo, uma enfermeira conferiu as anotações e explicou que, em casos de emergência, familiares muitas vezes chegam com caixas, receitas ou sacolas de medicamentos. Quando isso acontece e o item é relevante, costuma haver alguma referência no registro clínico.
— Aqui só constam as informações verbais — ela disse.
— Quem forneceu?
— O marido da senhora.
Fiquei olhando para o papel.
Caio sabia exatamente quais remédios meu pai tomava.
Ou, pelo menos, parecia saber.
Na saída do hospital, liguei para ele.
— Onde está o frasco do remédio do meu pai?
Do outro lado da linha, houve uma pausa pequena demais para parecer silêncio e longa demais para parecer natural.
— Que frasco?
— O que você tirou do escritório depois que ele caiu.
— Ah. Aquilo.
A resposta veio mais relaxada.
— Levei para o hospital.
— Não levou.
A respiração dele mudou.
— Como assim?
— Não existe registro de que o hospital tenha recebido.
— Marina, eu não entreguei o frasco para a recepção. Mostrei para alguém da equipe e fiquei com ele.
— Para quem?
Outra pausa.
— Não lembro. Foram três dias horríveis.
— E depois?
— Depois o quê?
— Onde está o frasco agora?
Dessa vez, o silêncio foi maior.
— Acho que joguei fora.
Parei na calçada.
— Você acha?
— Marina, seu pai morreu. Eu estava recolhendo as coisas do hospital. Não fiquei catalogando lixo.
— Por que jogaria fora um medicamento que ainda estava praticamente cheio?
A voz dele perdeu a suavidade.
— O que exatamente você está insinuando?
— Ainda nada.
Desliguei.
Foi naquele momento que percebi a primeira mudança real entre nós. Durante anos, Caio controlara o ritmo de qualquer conversa difícil. Ele explicava, eu ouvia. Ele se acalmava, eu também me acalmava. Dessa vez, eu não queria ser acalmada.
Segui para a empresa.
Júlia já havia separado os registros internos de entrada do andar, sem alterar ou esconder nada. Ela explicou que o prédio mantinha controle por crachá nos elevadores e nas portas internas. Não era um sistema perfeito, porque executivos podiam circular por mais de um acesso, mas servia para saber quando determinados cartões tinham sido usados.
O crachá de Caio havia registrado entrada no vigésimo oitavo andar doze minutos antes do início da reunião.
Fiquei imóvel.
— Ele estava aqui.
— Pelo registro, sim.
— E depois?
Júlia rolou a tela.
O crachá dele só voltou a ser usado no vigésimo sexto andar quase quarenta minutos depois de meu pai ser levado pela ambulância.
Portanto, a história de que Caio estava em seu escritório dois andares abaixo quando meu pai passou mal já não se sustentava.
Mas havia algo ainda mais importante.
Ele nunca tinha me contado que estava no mesmo andar.
Liguei para Renato.
— Encontramos um registro objetivo. Caio entrou no vigésimo oitavo andar antes da reunião.
— Guarde uma cópia pelos canais internos corretos e não altere o arquivo original — ele orientou. — E não transforme isso em uma acusação. Ele pode ter tido dezenas de motivos legítimos para estar lá.
Eu sabia.
Só que cada nova explicação possível agora vinha acompanhada de uma pergunta que Caio escolhera não responder.
Passei o restante da manhã com a equipe administrativa entendendo como meu pai havia organizado a sucessão operacional. Descobri que Caio vinha assumindo mais tarefas financeiras nos últimos meses, mas não tinha autoridade para substituir sozinho o presidente nem para decidir quem podia entrar na sala dele.
A ordem dada a Júlia na noite da internação havia sido apenas uma instrução informal.
Ainda assim, todos obedeceram.
Porque Caio falava como alguém que já esperava ser obedecido.
À tarde, recebi uma ligação dele.
— Precisamos conversar pessoalmente.
— Sobre o quê?
— Sobre nós.
— Então fale.
— Não por telefone.
Recusei.
Ele respirou fundo.
— Você está ouvindo Renato, não está?
Não respondi.
— Seu pai nunca gostou de mim, Marina. Você sabe disso. Agora ele morreu e Renato está colocando coisas na sua cabeça.
— Renato não me contou que você estava no vigésimo oitavo andar antes da reunião.
Caio ficou mudo.
— Você estava lá — continuei. — Seu crachá registra sua entrada doze minutos antes.
— Eu fui buscar uma assinatura.
— De quem?
— Do seu pai.
— Em qual documento?
— Não lembro.
Soltei uma risada sem humor.
— Ontem você também não lembrava para quem mostrou o remédio.
— Você perdeu o pai há cinco dias e está me interrogando como se eu fosse um criminoso.
— Eu estou fazendo perguntas que você poderia responder em trinta segundos se as respostas fossem simples.
Ele desligou.
Aquilo também nunca havia acontecido.
Uma hora depois, Renato chegou à empresa.
Trazia apenas uma pasta fina, sem teatralidade.
Sentamos na antiga sala de reuniões do meu pai.
— Há algo que você precisa saber — ele disse. — Seis dias antes de passar mal, seu pai me procurou porque queria revisar a estrutura de poderes dentro da empresa.
Meu peito apertou.
— Ele queria tirar Caio?
— Ainda não havia tomado uma decisão formal. Mas queria restringir temporariamente algumas autorizações financeiras dele enquanto verificava operações que considerava incomuns.
— Que operações?
— Pagamentos antecipados, contratos aprovados fora do padrão e movimentações que ele queria entender melhor. Não posso afirmar que houve fraude. Seu pai também não afirmava.
Aquilo era importante.
Não porque provasse um crime.
Mas porque dava ao conflito um motivo que até então eu não conhecia.
— Caio sabia dessa revisão?
Renato apoiou as mãos sobre a mesa.
— Seu pai me disse que pretendia falar com ele naquela semana.
— Falou?
— Não sei.
Olhei para a cadeira vazia na cabeceira.
De repente, lembrei da última discussão.
“Você vive dizendo que Caio é competente. Então entregue tudo para ele.”
Eu ouvira aquilo como sarcasmo.
Agora não tinha mais certeza.
Talvez meu pai estivesse tentando me obrigar a olhar para a empresa com os próprios olhos.
Naquela noite, tomei uma segunda decisão.
Pedi formalmente que nenhum executivo pudesse apagar, substituir ou retirar documentos relacionados às últimas semanas de gestão do meu pai sem registro. Não era uma acusação contra Caio. Era uma medida de preservação.
A resposta dele chegou vinte minutos depois.
“Você está destruindo nossa confiança.”
Fiquei olhando a tela.
Então escrevi:
“Não. Estou descobrindo quanto dela realmente existia.”
A próxima mensagem demorou quase cinco minutos.
Quando apareceu, continha apenas uma frase:
“Se você transformar isso numa guerra, vai se arrepender.”
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














