
Parte 9
A investigação avançou durante as semanas seguintes.
Eu parei de acompanhar cada detalhe.
No início, queria receber notícia de cada documento, cada entrevista, cada resultado.
Depois percebi que aquilo estava me consumindo.
Meu pai continuava morto.
Nenhuma descoberta mudaria isso.
Comecei a trabalhar de maneira regular na empresa, participando das reuniões que antes eu costumava delegar ou evitar.
Foi doloroso ocupar os espaços que ele deixara.
Às vezes, eu ainda esperava ouvir sua voz reclamando de um atraso.
Outras vezes, passava diante da sala dele e precisava parar alguns segundos antes de continuar.
Mas a dor mudou.
No começo, era apenas ausência.
Depois virou responsabilidade.
O conselho decidiu que Caio permaneceria afastado das funções financeiras até o encerramento das apurações internas e externas.
Ele não tentou voltar.
Também não me procurou durante quase duas semanas.
Então, numa manhã, Renato telefonou.
— Caio procurou as autoridades voluntariamente.
Fiquei em silêncio.
— Ele foi prestar um novo depoimento acompanhado de advogado.
— Disse alguma coisa?
— Ainda não tenho acesso a todos os detalhes. Mas, pelo que foi comunicado formalmente, ele apresentou uma versão diferente sobre o medicamento.
Fechei os olhos.
Eu sabia que aquele momento chegaria.
Mesmo assim, não estava pronta.
Mais tarde, com as informações que podiam ser compartilhadas comigo, entendi a sequência.
Na semana anterior à morte do meu pai, Caio já sabia que estava sob revisão.
Também sabia onde meu pai guardava os medicamentos.
Durante anos de convivência familiar, vira aquele frasco inúmeras vezes.
Na manhã da discussão, entrou na sala antes da reunião do conselho.
Meu pai havia saído por alguns minutos para atender uma ligação em outra sala.
Caio ficou sozinho.
Ele mexeu no frasco.
Não havia levado uma arma.
Não havia planejado uma morte.
A explicação dele era pior de uma forma diferente.
Queria que meu pai passasse mal o suficiente para faltar à reunião e ganhar alguns dias antes do afastamento formal.
Caio afirmou que havia substituído parte da medicação habitual por comprimidos que acreditava apenas interferirem temporariamente no tratamento.
Achava que meu pai sentiria mal-estar.
Talvez precisasse descansar.
Talvez adiasse a reunião.
Talvez, nesse intervalo, Caio conseguisse convencer outros diretores a apoiá-lo.
Era um plano absurdo.
Irresponsável.
Criminoso.
E mortal.
Meu pai tinha uma condição cardíaca real.
Seu organismo não reagiu como Caio imaginou.
Horas depois, caiu diante do conselho.
Quando Caio ouviu a confusão na sala, percebeu o que poderia ter acontecido.
Correu para dentro.
Viu meu pai no chão.
E entrou em pânico.
Por isso pegou o frasco.
Não para ajudar os médicos.
Para retirar o que havia alterado.
No hospital, informou os medicamentos de memória e permaneceu com o recipiente.
Mais tarde, descartou-o.
A história finalmente tinha uma linha.
Horrível.
Mas coerente.
Ele também admitiu que, depois da internação, tentou impedir o acesso ao escritório do meu pai porque temia que alguém percebesse o desaparecimento do frasco.
E tentou evitar que eu voltasse ao hospital porque não sabia se havia deixado algum outro vestígio ou registro relacionado à medicação.
Não houve confissão de um plano para matar.
Houve admissão de uma intervenção deliberada na medicação de um homem com doença cardíaca.
O resultado tinha sido a morte.
Renato me encontrou naquela noite.
— Você não precisa decidir nada sobre seu casamento hoje.
Olhei para ele.
— Eu já decidi.
Não havia raiva quando falei.
Isso me surpreendeu.
— Eu não consigo voltar.
Renato assentiu.
— Então trate as questões jurídicas do casamento separadamente do processo criminal.
Era exatamente o que eu faria.
Procurei orientação para iniciar a separação.
Não pedi favores.
Não tentei usar a empresa contra Caio.
Não queria vingança financeira.
Queria encerrar uma relação que já não existia.
Dias depois, Caio pediu para me ver uma última vez antes de uma nova etapa do processo.
Pensei durante horas.
Aceitei.
Não porque lhe devesse conforto.
Mas porque havia uma pergunta que eu precisava fazer olhando em seus olhos.
Encontramo-nos numa sala simples, acompanhados de nossos representantes.
Caio estava mais magro.
As olheiras fundas.
Quando me viu, não tentou sorrir.
— Obrigado por vir.
Sentei-me.
— Eu tenho uma pergunta.
Ele assentiu.
— Quando você mexeu nos remédios do meu pai, pensou em mim?
Os olhos dele se encheram.
— Pensei.
A resposta me feriu mais do que se tivesse dito não.
— E fez mesmo assim.
Caio abaixou a cabeça.
— Eu achei que teria tempo para consertar.
— Consertar o quê?
— Minha carreira. Minha posição. Tudo.
— Não. Estou perguntando o que você achou que consertaria depois de colocar a saúde dele em risco.
Ele não respondeu.
Eu compreendi.
Caio sempre acreditara que haveria um movimento seguinte.
Uma negociação.
Uma justificativa.
Uma solução.
Ele tratara até a vida de meu pai como mais uma variável que poderia controlar.
— Você me amou? — perguntei.
— Sim.
— Então como chegou aqui?
Caio chorou em silêncio.
Depois respondeu:
— Porque em algum momento eu comecei a achar que perder o que eu tinha construído era pior do que perder quem eu era.
A frase não o absolveu.
Mas talvez fosse a primeira coisa completamente verdadeira que ele me dizia.
Levantei.
— Na próxima vez que nos encontrarmos, será para resolver o que restou legalmente entre nós.
Ele fechou os olhos.
— Marina…
— Não peça que eu entenda.
— Eu não ia pedir.
Fiquei parada.
— Eu ia pedir desculpa.
Olhei para ele durante alguns segundos.
— Seu pedido de desculpa não pode trazer meu pai de volta. E não pode decidir meu futuro.
Saí.
Do lado de fora, Renato esperava apenas para me entregar alguns documentos.
Não me perguntou como eu estava.
Talvez soubesse que eu ainda não tinha uma resposta.
Antes de ir embora, ele disse:
— Amanhã haverá uma reunião importante na empresa.
— Eu sei.
Era a reunião em que o conselho definiria a estrutura de transição definitiva após o afastamento de Caio e enquanto o inventário seguia seu curso.
Meses antes, eu teria procurado meu pai.
Depois procuraria meu marido.
Naquela noite, fui para o hotel, abri os relatórios e comecei a estudar sozinha.
Pela manhã, eu entraria naquela sala sem nenhum dos dois ao meu lado.
E, pela primeira vez, isso não me pareceu abandono.
Pareceu liberdade.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














