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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

— A menos que ele já estivesse neste andar — completei, quase sem perceber que havia falado em voz alta. Júlia me olhou, assustada, mas não respondeu. Eu também não queria que ela respondesse sem ter certeza.
— Você se lembra de ter visto Caio aqui antes da reunião? — perguntei. Júlia pensou com cuidado. — Eu não vi, mas fui buscar uns documentos no arquivo uns quinze minutos antes. Quando voltei, a porta da escada de emergência estava fechando.
Aquilo não provava nada. Naquela empresa, dezenas de pessoas usavam aquela escada todos os dias. Mesmo assim, pela primeira vez, entendi que o aviso de Renato não podia ser ignorado.
Meu celular começou a tocar. Caio. Deixei chamar até parar. Trinta segundos depois, ele ligou novamente. Na terceira chamada, desliguei o aparelho.
— Júlia, não conte a ninguém que eu estive aqui fazendo perguntas. — Ela assentiu. — E não mexa em nada desta sala sem registrar quem entrou e por qual motivo.
— O diretor Caio pode não gostar. — Eu fechei a gaveta. — Esta empresa ainda não virou propriedade dele.
Saí da sala e desci pelo elevador de serviço. Só voltei a ligar o celular quando já estava dentro de um carro de aplicativo, a três quarteirões dali. Havia onze chamadas de Caio e uma mensagem de um número desconhecido: “Sou eu. Não use seu telefone para falar comigo. Vá para um lugar onde Caio não consiga entrar sem ser anunciado.”
Reconheci o jeito de Renato escrever. Pedi ao motorista que me deixasse em um hotel na região dos Jardins. Não porque eu já acreditasse que Caio fosse capaz de me fazer mal, mas porque não conseguia mais agir como se nada estivesse acontecendo.
No quarto, usei o telefone fixo para ligar para o escritório de Renato. Quando ele atendeu, fui direto ao ponto. — Meu pai não acordou nos três dias em que ficou internado. Como ele se encontrou com você?
— Porque nosso encontro não aconteceu no hospital. Aconteceu seis dias antes de ele passar mal. — Fechei os olhos. A impossibilidade que me perseguia desde o cemitério desapareceu de repente.
— Então por que falou daquele jeito? — perguntei. — Porque seu pai me pediu confidencialidade absoluta enquanto estivesse avaliando uma questão envolvendo a diretoria financeira. E porque, esta manhã, Caio me perguntou duas vezes se seu pai tinha deixado alguma instrução específica para você.
Senti o chão mudar sob meus pés. — Que questão financeira? — Renato respirou antes de responder. — Seu pai estava revisando algumas decisões tomadas por Caio. Não vou acusá-lo de nada sem documentos. Mas seu pai pretendia limitar os poderes dele até concluir essa revisão.
— E por isso você acha que meu pai não morreu de doença? — Houve um silêncio breve. — Eu acho que existem circunstâncias suficientes para não tratarmos a morte como um fato simples antes de verificá-las.
Contei sobre o frasco desaparecido e sobre Caio ter chegado ao vigésimo oitavo andar em menos de um minuto. Renato não dramatizou. Apenas pediu datas, nomes e o que Júlia realmente havia visto. Quando terminei, ele disse: — Não confronte Caio esta noite.
— Você está dizendo que ele matou meu pai? — Minha própria voz saiu baixa. — Não. Estou dizendo justamente o contrário: ainda não sabemos. Suspeita não é prova, Marina.
Aquela resposta, estranhamente, me acalmou mais do que qualquer certeza teria acalmado. Eu precisava parar de tentar adivinhar e começar a verificar. Pela primeira vez desde o enterro, minha raiva ganhou uma direção.
Às oito da noite, Caio mandou outra mensagem. “Estou preocupado. Me diga onde você está.” Logo depois veio outra: “Fui à empresa. Júlia disse que você passou por lá.” Senti um frio no estômago.
Olhei para a tela durante alguns segundos e respondi apenas: “Preciso ficar sozinha hoje.” Ele digitou quase imediatamente. “Marina, não faça nada enquanto estiver abalada. Algumas decisões não têm volta.”
Li a frase três vezes. Talvez fosse apenas um marido preocupado. Talvez não fosse. Mas, naquele momento, tomei minha primeira decisão sem consultar Caio em sete anos de casamento: na manhã seguinte, eu pediria pessoalmente ao hospital o prontuário completo do meu pai e descobriria o que tinha acontecido com aquele frasco.

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