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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

Depois de três meses negociando R$ 150 milhões para a empresa do meu namorado, fui demitida antes da assinatura

Parte 1

Eu ainda segurava a xícara de café quando minha tia, Helena Vasconcelos, virou o contrato até a última página.

Estávamos sentadas no sofá do escritório dela, em São Paulo. Depois de três meses de negociação, dezessete viagens e uma quantidade de reuniões que eu já tinha perdido a conta, finalmente havíamos chegado a um acordo comercial de R$ 150 milhões.

Helena pegou a caneta.

— Sofia, estou aceitando esse negócio por sua causa.

Um sorriso discreto apareceu no meu rosto.

Três meses.

Dezessete viagens.

Nos últimos três dias, eu ainda tinha pegado dois voos para resolver os últimos detalhes daquele contrato.

Finalmente, o trabalho estava concluído.

Quando eu voltasse para a empresa, Daniel Azevedo provavelmente ficaria eufórico.

Além de diretor-geral, Daniel era meu namorado. E fora ele quem mais tinha insistido para que eu assumisse pessoalmente aquela negociação.

Meu celular vibrou.

Era uma mensagem de Júlia, secretária da empresa.

“Sofia, não sei se deveria te contar isso, mas o Daniel acabou de anunciar numa reunião que você foi demitida.”

Parei de respirar por um instante.

Logo abaixo veio outra mensagem.

“O motivo informado foi violação grave das regras internas por ausência superior a três dias.”

“Lívia Nogueira vai assumir seu cargo de diretora de contas. O pessoal do administrativo já mudou as coisas da sua mesa esta tarde.”

Fiquei olhando para a tela.

Meus dedos não se moveram.

Ausência?

Nos últimos três dias eu estava viajando justamente para concluir o contrato de R$ 150 milhões.

E a autorização da viagem tinha sido aprovada pelo próprio Daniel.

Eu ainda me lembrava perfeitamente de quando ele assinou.

Bateu de leve no meu ombro e disse, sorrindo:

— Vai ser puxado. Obrigado pelo esforço.

O celular vibrou outra vez.

“Tem mais uma coisa.”

“Lívia disse ao Daniel que foi ela quem conseguiu esse cliente e conduziu a negociação. Ele decidiu registrar o mérito do contrato no nome dela.”

Dessa vez, coloquei a xícara sobre a mesa.

Devagar.

Do outro lado do escritório, a ponta da caneta de Helena já encostava na linha destinada à assinatura.

— Espera um pouco, tia.

Ela ergueu os olhos.

— O que foi?

Olhei novamente para as mensagens.

Depois, para o contrato.

— Esse negócio… pode cancelar.

Helena ficou imóvel por um segundo.

Então largou a caneta e se recostou na cadeira.

— Aconteceu alguma coisa?

Virei o celular para ela.

Minha tia leu as mensagens sem demonstrar surpresa. Quando terminou, soltou uma risada curta, sem nenhum humor.

— Interessante.

Ela empurrou o contrato para o lado.

— Usam minha sobrinha durante três meses para correr atrás do meu negócio, demitem você antes da assinatura e ainda entregam o mérito para outra pessoa?

Helena fechou a pasta.

— Uma empresa que trabalha assim não merece nem R$ 150 milhões, nem R$ 150.

Levantei e peguei meu casaco.

— Vou passar na empresa.

— Quer que alguém vá com você?

— Não.

Caminhei até a porta e olhei para trás.

— Eu resolvo.

Helena ergueu a xícara de chá.

— Então não seja educada demais.

Saí do prédio e peguei um táxi direto para a empresa.

No caminho, Júlia me mandou outra mensagem.

“Lívia mandou o administrativo colocar todas as suas coisas numa caixa.”

“Ela disse que, se você não vier buscar hoje, vão jogar fora.”

Outra chegou logo depois.

“E o Daniel falou que, assim que a Helena assinar o contrato, a Lívia assume o atendimento.”

Li tudo sem responder.

Quarenta minutos depois, entrei no prédio da empresa.

A recepcionista empalideceu assim que me viu.

— S-Sofia? O que você está fazendo aqui?

— Vim buscar minhas coisas.

— Mas o Daniel disse que…

Parei diante dela.

— Disse o quê?

Ela abriu a boca, hesitou e acabou abaixando os olhos.

Continuei andando.

Quando passei pelo setor comercial, várias pessoas começaram a me observar.

Ouvi cochichos.

— Ela teve coragem de voltar?

— Dizem que foi demitida porque sumiu três dias.

— Uma pena. Ela sempre teve resultados tão bons.

Não parei.

Fui direto até minha antiga mesa.

Ela estava completamente vazia.

Meus objetos tinham sido enfiados dentro de uma caixa de papelão deixada no canto do corredor.

Em cima havia um bilhete.

“Retirar o quanto antes. Caso contrário, será descartado como lixo.”

Reconheci a letra no mesmo instante.

Lívia.

Abaixei, segurei a caixa pelas laterais e comecei a levantá-la.

— Ah, Sofia. Então você veio mesmo.

Virei.

Lívia Nogueira estava atrás de mim.

Usava um conjunto novo da Chanel e, pendurado no pescoço, estava o cartão de acesso ao sistema de gestão de clientes que até aquela manhã ficava sobre a minha mesa.

Ela inclinou a cabeça, com um sorriso doce demais.

— Eu mesma pedi para organizarem suas coisas. Não diga que não cuido bem das minhas ex-colegas.

Olhei para o cartão.

— Esse acesso era meu.

— Isso?

Ela tocou o crachá com as pontas dos dedos.

— Daniel disse que eu vou assumir a diretoria de contas. Se o cargo agora é meu, os acessos também são. Você nem trabalha mais aqui, Sofia. Isso já não tem nada a ver com você.

Ela deu um passo na minha direção.

— Ah, e aquele contrato de R$ 150 milhões com a Helena… você passou três meses trabalhando nele, não foi?

O sorriso ficou ainda maior.

— Deve ter sido cansativo. Mas não se preocupe. Daqui para a frente eu assumo.

Não respondi.

Talvez ela esperasse que eu gritasse.

Talvez esperasse me ver implorando pelo cargo.

Como não fiz nenhuma das duas coisas, Lívia pareceu ainda mais satisfeita.

— Um conselho: não faça escândalo. Daniel tinha motivos para demitir você. Três dias sem trabalhar aparecem claramente no controle de frequência.

Ela cruzou os braços.

— Se não concordar, pode procurar seus direitos. Mas essas coisas demoram, dão trabalho… não vale a pena.

— Quem disse que eu vim discutir minha demissão?

O sorriso dela diminuiu.

— Então por que voltou?

— Para buscar minhas coisas.

Coloquei a caixa sobre a mesa por um instante.

— E para avisar uma coisa.

— O quê?

— O contrato com Helena Vasconcelos não foi assinado.

A expressão de Lívia congelou.

— Como assim?

— Exatamente isso.

Segurei novamente a caixa.

— O acordo de R$ 150 milhões foi cancelado.

— Isso é impossível!

A voz dela subiu tanto que várias pessoas no setor olharam para nós.

— Você passou três dias viajando por causa desse contrato. Daniel disse que estava praticamente fechado!

— Estava.

Falei sem elevar a voz.

— Eu passei três dias viajando, e o contrato estava pronto para ser assinado.

Lívia me encarou.

— Então por que…

— Porque, enquanto eu estava trabalhando para a empresa, vocês me demitiram.

Apertei a caixa contra o corpo.

— Então me explica uma coisa: por que eu deveria continuar fechando um contrato para uma empresa da qual eu já não faço parte?

O rosto dela perdeu a cor.

— Sofia, você enlouqueceu? Você está prejudicando a empresa de propósito. Tem ideia das consequências?

— Vocês acabaram de me informar que eu não sou mais funcionária daqui.

Dei um passo para o lado.

— Que consequência profissional vocês ainda pretendem aplicar?

— Você…

Uma voz masculina soou atrás de nós.

— O que está acontecendo aqui?

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