Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

Parte 6

A reunião dos sócios não terminou com Daniel sendo expulso da empresa.

A realidade raramente funciona com a rapidez que a raiva gostaria.

Ele continuou no cargo, mas perdeu autonomia temporariamente sobre contratações e desligamentos de cargos de liderança. Até a conclusão da revisão, decisões desse tipo passariam por outro diretor e pelo RH.

Quando me contou, sua voz não tinha indignação.

Parecia cansada.

— Eles disseram que meu julgamento ficou comprometido.

— Ficou.

— Você não precisa concordar tão rápido.

— Você me ligou para ouvir uma opinião sincera ou para ser consolado?

Houve uma pausa.

— Talvez eu nem saiba mais.

Eu não respondi.

A empresa também concluiu a primeira parte da análise sobre Lívia.

Ela não havia inventado um cliente do nada nem falsificado contratos.

O que fizera era mais simples: aumentara o próprio papel em conversas com Daniel, apresentando como participação ativa algo que, na prática, era apenas conhecimento indireto de algumas etapas.

Daniel, por sua vez, nunca verificara.

Essa diferença importava para mim.

Eu não queria transformar Lívia em responsável por tudo.

Ela tinha se aproveitado da situação.

Mas quem possuía autoridade para me demitir era Daniel.

Quem assinara minha viagem era Daniel.

Quem aceitara substituir meu nome pelo dela era Daniel.

A responsabilidade dele não desaparecia porque alguém o influenciara.

Na semana seguinte, encontrei Lívia pela primeira vez desde o corredor da empresa.

Foi por acaso.

Eu saía de uma cafeteria depois de uma reunião sobre o novo projeto quando ela entrou.

Nós duas paramos.

Ela parecia menos impecável do que no dia em que usava meu antigo cartão de acesso pendurado no pescoço.

Mas continuava orgulhosa.

— Então é verdade — disse. — Você já está trabalhando em outro lugar.

— Em um projeto.

Ela assentiu.

— Parabéns.

Não sabia se era ironia.

Não me importava.

Fiz menção de passar por ela, mas Lívia falou:

— Espera.

Parei.

— Eu não mandei o Daniel te demitir.

— Eu sei.

Ela pareceu surpresa.

— Sabe?

— Você pode ter influenciado a situação. Pode ter exagerado seu papel. Mas a decisão era dele.

Lívia apertou a alça da bolsa.

— Eles estão colocando tudo nas minhas costas.

— Então não deixe.

— Fácil para você dizer.

— Não estou dizendo para você aceitar culpa pelo que não fez. Estou dizendo exatamente o contrário.

Ela me encarou.

Por alguns segundos, a rivalidade do corredor desapareceu e restaram duas profissionais olhando para as consequências de uma mesma decisão.

— Eu queria aquele cargo — ela admitiu. — Não vou fingir que não queria.

— Isso ficou claro.

— Mas eu achei que ele já tinha decidido tirar você.

— E por isso apresentou a conta como sua?

O rosto dela endureceu.

— Eu disse que conseguiria continuar o trabalho.

— Você disse que tinha conseguido o cliente.

— Eu falei de um jeito… mais favorável.

Quase sorri.

— Essa é uma expressão interessante.

— Sofia, você já ganhou. Não precisa continuar me atacando.

— Eu não ganhei nada. Perdi um emprego e provavelmente um relacionamento.

Ela desviou os olhos.

— Daniel está mal.

— Isso é entre ele e eu.

— Ele sempre te colocou num pedestal.

A frase me incomodou.

— Não parece.

— Justamente. Acho que ele cansou de se sentir comparado a você.

Aquilo coincidiu com o que Daniel havia admitido.

Não era uma revelação.

Era apenas outra perspectiva sobre uma insegurança que começava a ficar evidente.

Lívia continuou:

— Quando eu disse que conseguia tocar a área sem depender de você, ele gostou de ouvir.

— E você gostou de dizer.

— Sim.

Pelo menos não negou.

— Então cada um assume a própria parte.

Passei por ela.

Antes de sair, ouvi:

— Você vai voltar para ele?

Virei apenas o rosto.

— Isso não diz respeito à empresa.

Do lado de fora, a pergunta ficou comigo.

Nos últimos dias, Daniel havia parado de falar do contrato.

Também não insistia mais para eu retornar.

Começara a fazer algo que deveria ter feito desde o início: reconhecer fatos sem me entregar a responsabilidade de corrigi-los.

Ainda assim, eu não conseguia olhar para ele e esquecer o corredor, a caixa, o bilhete.

Naquela noite, encontrei Daniel num restaurante tranquilo perto do meu apartamento.

Eu havia aceitado porque precisava decidir se ainda fazia sentido adiar aquela conversa.

Ele chegou antes.

Quando me sentei, não tentou tocar minha mão.

— Obrigado por vir.

— Fala.

Daniel respirou fundo.

— Eu descobri que comecei a competir com você sem perceber.

A frase foi tão direta que me surpreendeu.

— Competir?

— Quando começamos a namorar, você ainda não estava na diretoria. Depois você cresceu. Os clientes passaram a pedir por você, os resultados aumentaram… e eu devia ter ficado feliz.

— Mas não ficou.

— Fiquei. E também me incomodei.

Ele baixou os olhos.

— As duas coisas podem existir ao mesmo tempo, por pior que pareça.

Não respondi.

— Quando Lívia disse que a área estava dependente demais de você, aquilo encontrou uma insegurança que já era minha. Eu achei que reorganizar a equipe mostraria que o resultado vinha da estrutura, não de uma pessoa.

— E resolveu provar isso me tirando da estrutura.

Daniel assentiu lentamente.

— Sim.

Eu precisava ouvir aquilo.

Não para perdoá-lo.

Para entender.

— Então não foi um mal-entendido.

— Não.

— Nem apenas um erro de RH.

— Não.

— Você tomou a decisão porque queria reduzir minha influência.

— Sim.

A palavra caiu entre nós.

Senti tristeza.

Mas não choque.

Talvez porque, no fundo, eu já soubesse.

— Obrigada por finalmente falar a verdade.

Daniel ergueu os olhos.

— Isso muda alguma coisa?

— Muda o que eu entendo sobre o que aconteceu.

— E sobre nós?

Fiquei algum tempo sem responder.

— Ainda não sei.

Ele fechou os olhos, desapontado.

— Sofia…

— Você levou meses acumulando essa insegurança e um dia decidiu minha carreira com base nela. Não posso descobrir isso numa terça-feira e te dar uma resposta na quarta.

Ele assentiu.

Pela primeira vez, respeitou o limite sem discutir.

Quando saímos, cada um foi para um lado.

No dia seguinte, assinei o contrato de seis meses com a consultoria.

Meu trabalho começaria na segunda-feira.

À tarde, Renata me ligou.

— A empresa aceitou todos os pontos do acordo trabalhista.

— Todos?

— Correção do motivo, verbas devidas e a declaração sobre a viagem. Sem cláusula dizendo que você reconhece qualquer falta.

Sentei na cadeira.

Uma parte da história estava prestes a terminar.

Mas outra permanecia aberta.

E, naquela noite, quando Daniel enviou apenas uma frase — “Quando você estiver pronta, preciso saber se ainda existe um nós” — percebi que o próximo passo já não dependia de advogados, contratos ou sócios.

Dependia de mim.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1