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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Daniel foi embora naquela noite sem bater a porta, sem levantar a voz e sem conseguir me convencer de nada.

O silêncio que ficou depois dele foi estranho. Durante anos, eu associara nossa relação à ideia de parceria. Nós discutíamos, discordávamos, mas eu acreditava que, no momento decisivo, um ouviria o outro.

Naquele dia, eu tinha sido demitida sem uma conversa.

E, quando ele apareceu para “resolver”, não pediu que eu voltasse porque reconhecia o meu trabalho. Pediu porque precisava dele.

Na manhã seguinte, Renata enviou a comunicação formal à empresa.

O texto era simples. Solicitava os documentos do desligamento, questionava o fundamento baseado em ausência e registrava que as viagens haviam ocorrido a serviço da própria companhia.

Nada de ameaças.

Nada de cifras absurdas.

Nada de ultimatos.

Eu queria fatos.

Enquanto isso, a empresa também se movia.

Júlia me mandou uma mensagem no horário do almoço.

“Não sei se posso continuar falando com você sobre isso.”

Respondi:

“Se colocar você em risco, não fale.”

Ela demorou alguns minutos.

“Só queria que soubesse que estão revisando a demissão.”

“Obrigada.”

Não fiz perguntas.

Eu não queria transformar Júlia em fonte clandestina nem envolvê-la numa disputa que não era dela.

Duas horas depois, o próprio RH me telefonou.

— Sofia, estamos entrando em contato porque houve divergência entre o motivo comunicado inicialmente e os registros de viagem.

— Certo.

— Gostaríamos de saber se você estaria disponível para uma reunião de conciliação interna.

— Minha advogada pode participar?

Houve uma pausa.

— Pode.

— Então estou disponível.

A reunião aconteceu dois dias depois.

Fui ao prédio acompanhada de Renata.

Era estranho voltar sem crachá.

A recepcionista, a mesma que havia empalidecido ao me ver com a caixa, apenas me cumprimentou discretamente.

Dessa vez ninguém cochichou.

Fomos levadas para uma sala menor, longe do setor comercial.

Daniel estava lá.

O gerente de RH também.

Lívia não.

Depois das apresentações, o gerente começou.

— Sofia, fizemos uma revisão preliminar e constatamos que sua viagem realmente havia sido aprovada.

Renata não disse nada.

Eu também não.

Ele continuou:

— Houve falha no fluxo de comunicação com a equipe responsável pelo controle de presença.

— Essa falha fez com que eu fosse demitida por uma ausência que era trabalho — respondi.

— Sim.

Daniel mexeu a cadeira.

— Já reconhecemos isso.

Virei para ele.

— Você reconheceu depois que o contrato foi cancelado.

Ele respirou fundo.

O gerente interveio:

— Nosso objetivo hoje é corrigir a situação.

Renata finalmente falou.

— Corrigir de que forma?

A empresa propôs retirar qualquer referência a falta grave, processar o desligamento sem justa causa e pagar todas as verbas correspondentes.

Também ofereceu minha reintegração imediata, mantendo salário e cargo.

Daniel olhou para mim quando essa parte foi mencionada.

— A vaga continua disponível — ele disse.

— Não continua. Ela foi entregue a outra pessoa.

— Podemos reverter.

— E colocar Lívia onde?

Ele não respondeu imediatamente.

— Isso seria decidido internamente.

Balancei a cabeça.

— Não quero voltar.

O gerente de RH juntou as mãos sobre a mesa.

— Você tem certeza? Entendemos que o episódio foi grave, mas uma reintegração pode ser uma forma objetiva de reparação.

— Reparar o registro, sim. Voltar ao ambiente é outra coisa.

Renata olhou para mim, deixando claro que a decisão era minha.

Continuei:

— Quero receber o que me é devido, quero que o motivo da demissão seja corrigido e quero uma declaração interna esclarecendo que eu estava em viagem profissional autorizada. Não quero meu cargo de volta.

Daniel falou mais rápido do que deveria:

— Isso vai alimentar ainda mais a impressão de que a empresa errou de forma deliberada.

— Daniel — disse Renata, com calma — a questão aqui não é proteger uma impressão. É registrar corretamente o que ocorreu.

Ele se calou.

Depois de uma hora, saímos sem acordo final.

Não porque a empresa recusasse pagar.

O ponto mais difícil era a correção interna.

Daniel queria uma comunicação vaga.

Eu não.

Não exigia que ninguém fosse humilhado. Só não aceitava que meu nome permanecesse associado a abandono de trabalho enquanto Lívia continuava carregando o mérito de uma negociação que não fizera.

Na saída, Daniel me alcançou perto do elevador.

— Você realmente quer levar isso até o fim?

— Quero encerrar corretamente.

— Você sabe que, se divulgarmos internamente que você estava em viagem autorizada, todo mundo vai entender que eu errei.

— Você errou.

Ele apertou os lábios.

— Eu tomei uma decisão com base no que me disseram.

— E continua falando como se a decisão tivesse aparecido sozinha.

As portas do elevador abriram.

Antes que eu entrasse, ele segurou meu braço de leve e soltou imediatamente quando percebeu minha reação.

— Desculpa.

Aquela foi a primeira vez que ele usou essa palavra.

Mas veio tarde demais para resolver tudo.

— Pelo quê?

Ele demorou.

— Pela forma como aconteceu.

— Só pela forma?

Daniel desviou os olhos.

Entrei no elevador.

Quando as portas fecharam, pensei que talvez aquela fosse a pergunta que ele ainda não conseguia responder.

Naquela mesma tarde, recebi um e-mail de Helena.

Não era sobre Daniel.

Era sobre o contrato.

Ela me encaminhou a resposta formal que o Grupo Vasconcelos havia enviado à empresa.

O texto era seco e empresarial.

A decisão de não prosseguir se devia à mudança abrupta da equipe responsável pela negociação durante a fase final, somada à perda de confiança sobre a continuidade do atendimento.

Meu nome não era usado como justificativa emocional.

Não havia nenhuma ameaça.

Não havia nenhum favor.

O negócio simplesmente não seguiria adiante.

Aquilo retirava de Daniel uma narrativa conveniente: a de que eu tinha convencido minha tia a puni-lo.

Na manhã seguinte, a empresa recebeu a mesma confirmação.

E, pela primeira vez, Daniel não pôde dizer que bastava eu fazer uma ligação.

Naquela noite, ele me mandou uma mensagem.

“Os sócios decidiram abrir uma revisão interna sobre o processo de desligamento e sobre a atribuição da conta à Lívia.”

Fiquei olhando para a tela.

Logo abaixo apareceu outra.

“Preciso te perguntar uma coisa.”

Esperei.

“Foi realmente a Lívia quem disse que a conta era dela?”

Digitei devagar:

“Pergunte a ela.”

Ele não respondeu.

Mas, naquele momento, entendi que Daniel finalmente começava a olhar para o problema que deveria ter examinado antes de me demitir.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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