
Parte 9
Aceitei a proposta da consultoria três dias depois.
Não porque fosse perfeita.
O salário era bom, mas não extraordinário. O cargo exigiria viagens e uma responsabilidade maior do que a do projeto temporário. Eu teria de formar uma nova equipe e responder diretamente ao conselho.
Justamente por isso aceitei.
Era uma escolha profissional.
Minha.
Sem Daniel.
Sem Helena.
Sem dívida emocional.
Quando assinei, lembrei do dia em que encontrei meus objetos dentro de uma caixa.
Parecia uma vida distante.
Naquela mesma semana, a concorrência do Grupo Vasconcelos avançou.
Helena não me contou quais empresas participavam.
Eu também não perguntei.
Mas uma tarde ela ligou.
— Preciso falar com você sobre uma coisa antes que isso chegue de outro jeito.
A frase me deixou alerta.
— O quê?
— A antiga empresa está participando.
— Tudo bem.
— Daniel não está liderando a proposta.
— Melhor.
— E Lívia também não.
— Certo.
— Eles montaram uma equipe nova e seguiram o processo como qualquer concorrente.
Assenti, mesmo sabendo que ela não podia ver.
— Então avaliem como qualquer concorrente.
Helena ficou alguns segundos em silêncio.
— Você tem certeza?
— Tia, eu não quero que você dê contrato para eles por minha causa. Também não quero que tire por minha causa.
— Foi isso que eu precisava ouvir.
Depois que desligamos, fiquei pensando na ironia.
Meses antes, eu tinha corrido dezessete vezes de uma cidade a outra tentando fechar aquele acordo.
Agora ele voltava a existir sem depender de mim.
Isso era libertador.
Na empresa de Daniel, a mudança de função começava a se estabilizar.
Soube por Júlia que ele estava mais distante das decisões de pessoal e concentrado na operação comercial.
Não parecia feliz.
Mas também não parecia lutando contra a consequência.
Lívia, por sua vez, continuava trabalhando.
A relação dela com a equipe havia mudado.
A promoção rápida que antes parecera uma vitória agora era lembrada como parte de um episódio constrangedor.
Ainda assim, ela permanecia.
Não era o final explosivo que muita gente esperaria.
Era melhor.
Porque a vida real permite que as pessoas continuem depois de errar.
Só não permite que tudo permaneça exatamente igual.
Algumas semanas mais tarde, fui chamada à antiga empresa para buscar um documento físico que precisava ser entregue pessoalmente por causa do encerramento do meu vínculo.
Eu poderia ter enviado alguém.
Preferi ir.
Não queria transformar aquele prédio num lugar proibido na minha própria cabeça.
A recepcionista me reconheceu.
Dessa vez sorriu.
— Oi, Sofia.
— Oi.
— Vou avisar o RH.
Enquanto esperava, observei o corredor por onde eu havia passado com a caixa.
Era só um corredor.
Nenhuma música dramática.
Nenhuma sombra do passado.
Só piso claro, luz fria e pessoas entrando e saindo de salas.
O gerente de RH veio me receber.
Entregou o documento e pediu que eu conferisse.
Estava correto.
Antes de eu sair, ele falou:
— Sofia, eu queria dizer uma coisa em nome da área.
Olhei para ele.
— Nós erramos no processo.
— Eu sei.
— Fizemos mudanças desde então.
— Espero que funcionem.
— Também.
Aquilo bastou.
Quando eu me virei para ir embora, encontrei Lívia no corredor.
Ela parou.
Eu também.
— Oi — disse.
— Oi.
Seu olhar caiu sobre o documento na minha mão.
— Veio resolver alguma coisa?
— A última pendência.
Ela assentiu.
Por alguns segundos, nenhuma de nós falou.
Então Lívia disse:
— Eu devia ter pedido desculpa antes.
Não respondi imediatamente.
— Pelo quê?
Ela respirou.
— Pelo bilhete na caixa. Pelo jeito que falei com você. E por ter deixado parecer que aquela conta era minha.
Não havia lágrimas.
Nem pedido de amizade.
Só uma frase desconfortável.
— Você devia mesmo — respondi.
Ela aceitou.
— Eu sei.
— Obrigada por reconhecer.
Fiz menção de continuar.
— Sofia.
Parei.
— Eu achava que, se conseguisse seu cargo, todo mundo finalmente ia me levar a sério.
Olhei para ela.
— E funcionou?
Ela soltou uma risada curta.
— Pelo contrário.
— Então talvez você já tenha aprendido alguma coisa.
— Talvez.
Seguimos em direções opostas.
Mais adiante, encontrei Daniel.
Não sabia que ele estava no prédio.
Ele vinha de uma sala com alguns relatórios nas mãos.
Parou quando me viu.
— Sofia.
— Daniel.
— Veio buscar o documento?
— Sim.
— Está tudo certo?
— Está.
Ele assentiu.
Parecia mais magro.
Mas sereno.
— Soube que você aceitou a posição permanente.
— Quem te contou?
— Júlia.
— Preciso conversar com essa mulher sobre a vida alheia.
Ele riu.
— Ela só disse que você estava bem.
— Estou.
A resposta saiu natural.
Daniel baixou os olhos para os relatórios.
— Fico feliz.
— E você?
— Estou reaprendendo a trabalhar sem achar que preciso controlar tudo.
— Deve ser cansativo.
— É.
Sorrimos.
Foi estranho perceber que conseguíamos falar sem reabrir a ferida.
Antes de nos despedirmos, ele comentou:
— A concorrência do Grupo Vasconcelos termina na próxima semana.
— Eu sei.
— Não faço ideia se temos chance.
— Eu também não.
— E você não perguntou para sua tia?
— Não.
Ele me olhou com atenção.
— Eu teria perguntado antigamente.
— Eu também teria.
Aquilo talvez fosse o maior sinal de que alguma coisa tinha mudado.
Não estávamos mais tentando controlar o resultado um do outro.
Saí do prédio.
Dessa vez, minhas mãos estavam vazias.
Nenhuma caixa.
Nenhum crachá.
Nenhum contrato.
No estacionamento, Renata me ligou.
— O documento final chegou para nós também. Agora seu processo está oficialmente encerrado.
— Obrigada por tudo.
— Você fez a parte mais importante.
— Qual?
— Decidiu o que queria antes de deixar os outros decidirem por você.
Depois que desliguei, fiquei alguns instantes dentro do carro.
Na semana seguinte, Helena anunciaria o resultado da concorrência.
Daniel descobriria se a empresa recuperaria a oportunidade comercial que perdera.
Mas eu já sabia que, qualquer que fosse o resultado, ele não mudaria minha decisão.
Meu emprego estava resolvido.
Meu nome estava corrigido.
Meu relacionamento havia terminado.
Restava apenas uma última coisa.
Não um contrato.
Não dinheiro.
Não vingança.
Restava olhar para tudo o que tinha acontecido e decidir qual significado aquilo teria na minha vida.
E essa decisão, finalmente, era só minha.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














