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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

Parte 3

Quando saí do prédio, eu esperava sentir alguma espécie de alívio. Não senti.

A caixa pesava pouco nos braços, mas tudo o que ela representava parecia enorme. Três anos de trabalho cabiam ali dentro: uma agenda, duas canecas, alguns livros, um porta-retrato e pequenos objetos que eu havia acumulado sem perceber. O cargo que eu tinha construído, por outro lado, desaparecera numa reunião da qual eu nem participara.

Coloquei a caixa no banco traseiro de um carro de aplicativo e fui para casa.

Daniel ligou seis vezes durante o trajeto.

Não atendi.

Na sétima, enviou uma mensagem.

“Precisamos conversar antes da reunião com os sócios.”

Li e bloqueei a tela.

A frase não dizia “precisamos conversar sobre você”.

Também não dizia “eu errei”.

Dizia “antes da reunião com os sócios”.

E, naquele momento, entendi algo que me incomodou mais do que a própria demissão: Daniel ainda enxergava o problema principalmente pelo que ele poderia perder.

Em casa, coloquei a caixa no chão da sala e tirei os sapatos. Sentei no sofá sem acender as luzes.

Minha cabeça começou a organizar os acontecimentos como eu fazia com qualquer negociação difícil.

Primeiro: eu havia sido enviada oficialmente para uma viagem profissional.

Segundo: Daniel sabia onde eu estava.

Terceiro: mesmo assim, a empresa registrara minha ausência como infração grave.

Quarto: meu cargo fora entregue a Lívia antes que alguém sequer me ouvisse.

Quinto: o trabalho de três meses seria registrado como conquista dela.

Não era apenas um problema sentimental.

Era também profissional.

E, pela primeira vez desde que saíra da empresa, percebi que misturar as duas coisas seria exatamente o que mais poderia me prejudicar.

Peguei um caderno e escrevi duas palavras no topo de uma página.

“Trabalho.”

Na página seguinte:

“Daniel.”

Eu não queria mais discutir os dois assuntos ao mesmo tempo.

No lado profissional, comecei pelo básico. Reuni o que eu já tinha legitimamente comigo: os e-mails de convocação para as viagens, as mensagens em que Daniel me pedia atualizações, os comprovantes das passagens compradas pela empresa e a autorização que eu recebera para cumprir aquela agenda externa. Não copiei banco de dados, listas de clientes ou arquivos confidenciais. Eu conhecia muito bem a linha que não deveria atravessar.

Depois enviei um e-mail ao RH pelo meu endereço pessoal.

Pedi a formalização da demissão, a indicação exata do motivo registrado, as verbas rescisórias e a preservação dos registros relacionados às viagens dos últimos dias.

Também solicitei que qualquer nova comunicação profissional fosse feita por escrito.

Só então abri a página com o nome de Daniel.

Fiquei olhando para ela.

Era mais difícil.

Nós estávamos juntos havia quatro anos. Durante dois deles, trabalháramos na mesma empresa. Eu sempre acreditara que sabíamos separar vida pessoal e trabalho.

Naquele dia, descobri que a separação só parecia funcionar enquanto eu não contrariava uma decisão dele.

O celular vibrou novamente.

Desta vez era Helena.

“Atendeu o Daniel?”

“Não.”

Ela respondeu quase imediatamente.

“Ele me ligou.”

Meu corpo se endireitou no sofá.

“O que ele disse?”

“Que houve um mal-entendido e que você teria interpretado a situação de forma emocional.”

Fechei os olhos.

Claro.

“E você?”

“Perguntei se ele havia demitido você ou não.”

Esperei.

Helena continuou:

“Ele disse que sim.”

“Então perguntei onde estava o mal-entendido.”

Apesar de tudo, sorri.

“Obrigada.”

“Não me agradeça. Eu não cancelei o negócio para fazer favor a você. Cancelei porque não confio numa empresa que muda o responsável por uma negociação de R$ 150 milhões desse jeito.”

Aquela resposta foi importante.

Ela não tinha agido como uma tia indignada tentando salvar a sobrinha.

Tinha agido como empresária.

Helena ainda acrescentou:

“E não vou retomar a negociação só porque ele está pressionado pelos sócios.”

Fiquei alguns segundos sem digitar.

“Certo.”

“Você quer vir trabalhar comigo?”

Minha primeira reação foi aceitar.

Seria fácil.

Eu tinha experiência. Conhecia o negócio dela. Helena confiava em mim.

Mas justamente por isso parei.

“Agora não.”

“Tem certeza?”

“Tenho. Se eu sair de uma empresa dizendo que meu trabalho foi tratado como favor de família e entrar imediatamente na empresa da minha tia, vou passar meses tentando provar que minha carreira não depende disso.”

Helena não insistiu.

“Tudo bem.”

Depois escreveu:

“Então faça do seu jeito.”

Na manhã seguinte, recebi uma resposta do RH.

O texto era cauteloso.

Informava que meu desligamento havia sido determinado pela diretoria e que os documentos ainda estavam sendo revisados.

Não havia mais menção a “violação grave”.

Aquilo me chamou a atenção.

À tarde, marquei uma consulta com uma advogada trabalhista indicada por uma antiga colega. Não fui atrás de uma batalha milionária nem queria transformar meu caso num espetáculo. Eu precisava apenas saber onde estava pisando.

A advogada, Renata, leu os documentos que eu levei e fez perguntas objetivas.

— Eles registraram demissão por justa causa?

— Ainda não recebi o documento definitivo. Mas foi isso que disseram internamente.

— E a viagem foi aprovada?

— Sim.

Ela analisou os comprovantes.

— Então não assine nada com pressa. Primeiro precisamos ver exatamente o que eles pretendem formalizar.

— Eu não quero voltar.

— Isso é outra questão. Ninguém está dizendo que você precisa voltar.

Ela fechou a pasta.

— Mas uma empresa não pode inventar uma falta grave só porque decidiu substituir alguém.

Saí dali mais calma.

Não porque a situação tivesse desaparecido.

Mas porque, pela primeira vez desde a mensagem de Júlia, eu estava agindo em vez de apenas reagir.

No fim do dia, Daniel apareceu na portaria do meu prédio.

O porteiro ligou perguntando se eu autorizava a subida.

Fiquei alguns segundos em silêncio.

— Pode mandar subir.

Eu precisava separar as páginas do caderno.

Quando abri a porta, Daniel parecia ter envelhecido alguns anos desde a tarde anterior.

— A reunião foi péssima — ele disse.

— Imagino.

— Os sócios querem saber por que perdemos o contrato.

— E o que você respondeu?

— Que houve uma falha de comunicação.

— Isso não responde.

Ele entrou apenas quando fiz espaço.

— Sofia, eu vim falar com você, não discutir semântica.

— Então fala.

Daniel passou as mãos pelos cabelos.

— Volta por uma semana.

Achei que tinha ouvido errado.

— O quê?

— Volta oficialmente. Eu reverto a demissão, você reassume a conta, fecha o contrato e depois conversamos sobre sua posição.

Observei-o.

— E Lívia?

— Ela pode ficar como gerente.

— E o comunicado dizendo que ela conquistou a conta?

Ele hesitou.

— A gente corrige internamente.

— “A gente”?

— Sofia, estou tentando consertar.

Balancei a cabeça.

— Não. Você está tentando recuperar o contrato.

Ele fechou os olhos por um instante.

— As duas coisas.

— Se eu voltar só para assinar aquele negócio, você vai dizer aos sócios que o problema foi resolvido. Depois todo mundo seguirá em frente como se nada tivesse acontecido.

— Não precisa ser assim.

— Então faça a correção antes.

— Agora não é o melhor momento para transformar isso numa exposição interna.

Foi ali que ficou claro.

Daniel queria corrigir o resultado.

Não a injustiça.

— Então minha resposta é não.

Ele me encarou.

— Você vai deixar R$ 150 milhões desaparecerem por causa disso?

— Não foram meus R$ 150 milhões que desapareceram. Era um negócio entre duas empresas. Uma delas perdeu a confiança na outra.

— Por sua causa.

— Por uma decisão sua.

Daniel andou até a janela e ficou de costas para mim.

— Eu confiei nas informações que recebi.

— E não confiou em mim.

Ele virou.

Não conseguiu responder.

Aquela ausência de resposta disse mais do que qualquer desculpa.

Peguei o caderno sobre a mesa.

— Amanhã, a empresa vai receber uma comunicação formal da minha advogada sobre o desligamento.

Daniel arregalou os olhos.

— Você já procurou advogado?

— Procurei orientação.

— Sofia, isso vai piorar tudo.

— Para quem?

Ele ficou parado.

E, naquele instante, pela primeira vez em quatro anos, eu percebi que Daniel e eu estávamos realmente em lados diferentes daquela porta.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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