
Parte 7
Assinei o acordo com a empresa numa sexta-feira.
Não houve comemoração.
Renata conferiu cada página comigo antes de eu colocar meu nome. O documento corrigia o desligamento, reconhecia que eu estava em atividade profissional autorizada nos dias questionados e garantia o pagamento das verbas correspondentes.
Nenhuma frase grandiosa.
Nenhuma confissão dramática.
Só a correção objetiva de uma situação que nunca deveria ter ocorrido.
Quando terminamos, Renata guardou a cópia dela.
— E agora?
Olhei para minha cópia.
— Agora eu trabalho.
Na segunda-feira, comecei o novo projeto.
A consultoria ocupava dois andares de um prédio bem menor que a empresa de Daniel. Minha equipe tinha seis pessoas. O primeiro cliente não representava nem uma fração dos R$ 150 milhões que eu quase havia fechado.
Mesmo assim, gostei.
Ali ninguém esperava que eu provasse nada sobre o que tinha acontecido.
Esperavam apenas que eu fizesse meu trabalho.
Passei a primeira semana ouvindo mais do que falando.
Analisei processos, acompanhei reuniões, conheci clientes e fiz perguntas.
Era estranho voltar à rotina sem ter Daniel alguns andares acima.
Estranho e, aos poucos, leve.
Na sexta-feira, Helena me chamou para jantar.
— Você está diferente — ela comentou.
— Isso é bom ou ruim?
— Mais quieta.
Sorri.
— Estou reorganizando algumas coisas.
Ela colocou os talheres sobre o prato.
— Daniel falou comigo de novo.
Suspirei.
— Sobre o contrato?
— Não exatamente.
— Então sobre o quê?
— Ele queria saber se existe alguma chance de o Grupo Vasconcelos voltar a negociar com a empresa no futuro.
— E o que você respondeu?
— Que decisões comerciais do meu grupo não passam pelo seu relacionamento.
Assenti.
— Certo.
— Também disse que, neste momento, não há interesse em retomar aquela negociação.
Não senti vontade de interferir.
— É uma decisão sua.
Helena me observou.
— Você percebe como isso é diferente de três semanas atrás?
— O quê?
— Naquele dia você queria cancelar tudo porque tinham acabado de te demitir. Hoje você consegue ouvir que o negócio continua cancelado sem precisar fazer nada.
Pensei nisso.
Ela estava certa.
Eu começava a separar o que era meu do que não era.
A empresa de Daniel teria de lidar com a perda do contrato.
Helena decidiria com quem queria fazer negócios.
O RH resolveria as consequências internas.
Lívia responderia pelo que dissera e fizera.
Daniel responderia por suas decisões.
E eu responderia apenas pelas minhas.
Na semana seguinte, ele pediu para me encontrar.
Dessa vez, não falou em empresa.
Aceitei.
Fomos ao parque perto de onde costumávamos caminhar aos domingos.
Daniel chegou sem terno.
Parecia quase o homem que eu conhecera antes de toda aquela confusão.
Quase.
— Você começou no projeto novo? — perguntou.
— Comecei.
— Está gostando?
— Estou.
— Fico feliz.
Caminhamos alguns metros em silêncio.
Então ele parou.
— Eu não quero te pressionar, mas preciso saber onde estamos.
Eu já tinha pensado naquela conversa muitas vezes.
— Daniel, eu gosto de você.
Ele respirou um pouco melhor.
— Mas isso não é suficiente.
A expressão dele mudou.
— Sofia…
— Deixa eu terminar.
Ele assentiu.
— Durante semanas eu tentei entender se o problema foi a demissão. Não foi só isso. Eu poderia talvez superar uma decisão profissional errada se tivesse sido um erro isolado.
— Eu sei.
— Mas você admitiu que começou a me enxergar como ameaça. E não falou comigo. Preferiu reduzir meu espaço.
Daniel abaixou a cabeça.
— Eu estava errado.
— Estava.
— E estou tentando mudar.
— Eu acredito que você está tentando.
Ele me olhou com esperança.
— Então…
— Mas eu não quero voltar para o relacionamento agora.
A esperança desapareceu.
— “Agora” significa que existe uma possibilidade?
Respirei.
— Não quero te dar uma promessa para aliviar essa conversa.
Ele ficou quieto.
— Eu preciso sair dessa relação.
A frase doeu em mim também.
Daniel olhou para o chão.
— Você está terminando comigo.
— Estou.
Ele passou as duas mãos pelo rosto.
Por alguns instantes, pensei que discutiria.
Não discutiu.
— Quatro anos — disse apenas.
— Eu sei.
— Tudo acaba por causa de uma decisão?
— Não.
Ele ergueu os olhos.
— Acaba por causa do que a decisão mostrou.
Daniel ficou parado.
Havia tristeza no rosto dele, mas não raiva.
— Eu não tenho como argumentar com isso, tenho?
— Não deveria tentar.
Ele soltou uma risada amarga.
— Você sempre foi melhor em negociações.
— Isso não é uma negociação.
— Eu sei.
Continuamos andando até a saída.
Antes de nos despedirmos, Daniel perguntou:
— Posso pelo menos te pedir uma coisa?
— Depende.
— Se um dia você achar que eu realmente mudei… não precisa voltar. Só não pensa em mim como o homem daquela tarde para sempre.
Olhei para ele.
— Isso depende do que você fizer depois daquela tarde.
Ele assentiu.
Nos despedimos.
Eu chorei quando cheguei em casa.
Não de arrependimento.
De luto.
Quatro anos não desapareciam só porque uma decisão fazia sentido.
Na manhã seguinte, acordei com os olhos inchados e fui trabalhar mesmo assim.
Foi uma semana difícil.
Mas também produtiva.
Minha equipe apresentou o primeiro plano de expansão ao cliente. Fizemos ajustes. Recebemos críticas. Voltamos para a mesa.
Nada foi resolvido com uma ligação.
Nada caiu do céu.
E eu gostava disso.
Alguns dias depois, Júlia me escreveu.
“Posso te contar uma coisa que já foi comunicada oficialmente?”
“Pode.”
“A revisão terminou.”
Esperei.
“Lívia não vai continuar na diretoria de contas. Ela voltou para uma função gerencial sem liderança sobre grandes contas.”
Li sem comemorar.
Depois chegou outra mensagem.
“Daniel continua diretor-geral, mas os sócios mantiveram limites de aprovação e exigiram revisão dos processos de desligamento e promoção.”
Aquilo me pareceu proporcional.
Ninguém fora destruído.
Ninguém saíra ileso.
As escolhas tinham consequências reais.
Naquela tarde, Daniel não me escreveu.
Nem naquela noite.
Nem no dia seguinte.
Pela primeira vez, ele parecia entender que aceitar minha decisão também fazia parte de mudar.
Duas semanas depois, eu estava saindo de uma reunião quando Helena ligou.
— Sofia, vou te fazer uma pergunta profissional.
— Pode fazer.
— Se uma empresa perde uma negociação por quebra de confiança na gestão, o que precisaria acontecer para você considerar conversar de novo com ela?
Parei no corredor.
— Depende.
— Do quê?
— Se ela estiver tentando recuperar o contrato ou corrigir a forma como trabalha.
Helena ficou em silêncio por um instante.
— Foi exatamente o que eu queria ouvir.
— Por quê?
— Porque a empresa de Daniel pediu uma nova reunião.
Senti o corpo ficar tenso.
— E você vai?
— Talvez.
— Tia…
— Calma. Não para retomar o contrato.
Sua voz ficou séria.
— Eles querem apresentar mudanças na governança comercial e entender se, no futuro, poderiam voltar a participar de uma concorrência.
Olhei pela janela do corredor.
— E o que isso tem a ver comigo?
— Nada, se você quiser que não tenha.
Fechei os olhos por um instante.
Era a resposta certa.
E percebi que, dessa vez, eu não queria controlar o que aconteceria.
— Então não tem.
Desliguei.
Meu relacionamento tinha terminado.
Meu vínculo com a empresa também.
Agora, pela primeira vez desde o início daquela história, eu não precisava salvar nem destruir nada.
Precisava apenas continuar andando.
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