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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

Reconheci a voz antes mesmo de me virar. Daniel vinha pelo corredor com o paletó aberto e uma expressão irritada, mais incomodado com a aglomeração do que preocupado em saber por que eu estava ali. Os funcionários que observavam a cena voltaram rapidamente para suas telas.
— Sofia? — Ele franziu a testa. — Você não deveria estar viajando?
— Eu estava. Voltei depois de terminar o trabalho que você me mandou fazer.
Os olhos dele passaram pela caixa em meus braços e depois pararam em Lívia. — O que houve?
Lívia se apressou em responder. — Ela está dizendo que cancelou o contrato da Helena. Daniel, são R$ 150 milhões.
A expressão dele mudou na mesma hora. — Você fez o quê?
— Eu não cancelei um contrato assinado. A assinatura não aconteceu.
— Não brinca com isso, Sofia. — Daniel abaixou a voz e se aproximou. — Você sabe há quanto tempo a empresa espera por esse negócio.
— Sei melhor do que ninguém. Passei três meses trabalhando nele.
— Então por que faria uma coisa dessas?
Olhei para ele por alguns segundos. — Porque descobri, enquanto estava diante da pessoa que assinaria o contrato, que você tinha me demitido por faltar ao trabalho exatamente nos dias em que eu estava viajando a serviço da empresa.
Daniel apertou a mandíbula. — Sua ausência foi registrada pelo RH.
— Minha viagem foi autorizada por você.
— Isso não muda o fato de que você ficou fora.
— Daniel, uma viagem profissional autorizada não é abandono de trabalho.
Lívia soltou um suspiro impaciente. — Não adianta transformar isso numa discussão técnica agora. O cliente estava praticamente fechado. Você tinha obrigação de concluir.
Virei para ela. — Minha obrigação existia enquanto eu representava a empresa. Vocês encerraram essa relação antes da assinatura.
— Você está usando sua tia para se vingar — Daniel disse.
Aquilo doeu mais do que eu esperava. Não porque ele estivesse certo, mas porque, depois de tudo que eu tinha feito, era a primeira explicação que ele encontrava para a própria decisão.
— Helena leu as mensagens que recebi e decidiu não assinar. Eu não precisei pedir.
Daniel respirou fundo, tentando recuperar o controle. — Liga para ela.
— Não.
— Sofia, não estou pedindo como seu namorado.
— Eu sei. — Ajustei a caixa nos braços. — Se estivesse falando como meu namorado, talvez tivesse me ligado antes de anunciar minha demissão numa reunião.
O corredor ficou tão quieto que eu conseguia ouvir o ar-condicionado.
Daniel olhou ao redor. — Vamos conversar na minha sala.
— Não há nada que precise ser conversado escondido.
O rosto dele endureceu. — Você quer fazer uma cena?
— A cena começou quando minhas coisas foram colocadas numa caixa e deixadas no corredor com um aviso dizendo que seriam jogadas no lixo.
O olhar dele caiu sobre o bilhete. Pela primeira vez, hesitou. Lívia rapidamente disse: — Foi só uma forma de garantir que ela viesse buscar.
— E registrar que eu faltei três dias mesmo sabendo que eu estava viajando também foi só uma forma de garantir alguma coisa?
Daniel passou a mão pelo rosto. — Eu recebi a informação de que você não tinha registrado presença e de que a conta poderia ser assumida pela Lívia.
— E decidiu me demitir sem falar comigo.
— Você estava inacessível.
— Eu falei com você ontem à noite.
Ele não respondeu.
Lívia interveio: — Daniel, isso não muda o problema principal. Precisamos salvar o contrato.
Daniel assentiu, como se aquela frase lhe devolvesse terreno conhecido. — Certo. Sofia, você vai ligar para sua tia, explicar que houve uma falha interna e pedir para ela manter a assinatura.
Soltei uma pequena risada, mais de incredulidade do que de humor. — “Você vai”?
— Não torne isso pessoal.
— Você me demitiu enquanto eu cumpria uma viagem que você autorizou, deu meu cargo para outra pessoa, transferiu para ela o mérito do meu trabalho e agora quer que eu aja como se fosse apenas um erro de agenda.
— O mérito pode ser revisto depois.
— Depois da assinatura?
Ele desviou o olhar por um instante. Foi suficiente.
— Entendi — falei.
Daniel deu mais um passo. — Sofia, precisamos ser adultos.
— Concordo. Então assuma a decisão que tomou como diretor.
Peguei a caixa com as duas mãos.
— A partir do momento em que fui desligada, qualquer negociação futura com Helena não depende mais de mim.
— Você está colocando nosso relacionamento no meio disso.
— Foi você quem decidiu que eu não merecia nem uma ligação antes de ser dispensada.
Ele ficou sério. — Vamos conversar sobre nós em casa.
— Hoje não.
— Sofia…
— Hoje eu não quero falar como sua namorada. E, neste momento, você também não está falando comigo como namorado. Está tentando recuperar um contrato.
Lívia cruzou os braços. — Então é isso? Você vai deixar dezenas de pessoas pagarem pelo seu orgulho?
Aquela tentativa de culpa me fez parar.
— Não fui eu quem tomou a decisão de demitir uma diretora de contas no meio da negociação mais importante da empresa.
Voltei os olhos para Daniel.
— Se houver consequências, comece procurando a decisão que deu origem a elas.
Ele ficou vermelho. — Você está me ameaçando?
— Não. Estou indo embora.
Caminhei em direção ao elevador, mas antes que eu alcançasse a porta, ouvi Daniel chamar meu nome outra vez.
— Sofia.
Parei sem me virar.
— Se Helena desistir por sua influência, isso pode ser interpretado como interferência deliberada.
Virei apenas o rosto.
— Então verifique com o jurídico. E, enquanto estiver lá, peça para verificarem também a minha demissão por “ausência” durante uma viagem aprovada por você.
Ninguém falou.
Entrei no elevador e apertei o botão do térreo.
Quando as portas já começavam a fechar, vi Júlia correndo pelo corredor em direção a Daniel. Ela segurava o celular e parecia assustada.
— Daniel, o financeiro acabou de receber a confirmação do Grupo Vasconcelos.
As portas pararam por um instante antes de se fechar completamente.
— Eles retiraram oficialmente a proposta de contratação.
O rosto de Daniel perdeu a cor.
Júlia ainda completou:
— E os sócios estão pedindo uma reunião de emergência com você.
As portas se fecharam entre nós.

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