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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

Parte 5

A revisão interna não transformou a empresa num campo de batalha de um dia para o outro.

E ainda bem.

Se tudo tivesse desmoronado em vinte e quatro horas, eu mesma teria desconfiado.

O que aconteceu foi muito mais comum e, por isso, mais incômodo para quem tinha tomado decisões apressadas: começaram a fazer perguntas.

Quem autorizou minha viagem?

Quem registrou minha ausência?

Quem recomendou meu desligamento?

Em que momento Lívia passou a ser tratada como responsável por uma conta que eu havia conduzido durante três meses?

Quem havia aprovado a mudança antes da assinatura?

As respostas não estavam escondidas numa gaveta secreta.

Faziam parte do funcionamento normal da empresa.

Eram e-mails, registros de agenda, autorizações e decisões de gestão que naturalmente deixavam rastros administrativos.

Eu não precisei procurar nada.

A própria empresa precisava entender o que havia feito.

Três dias depois da reunião de conciliação, o RH enviou uma nova proposta à Renata.

Retiraria definitivamente qualquer alegação de falta grave.

Pagaria as verbas do desligamento sem justa causa.

Corrigiria meu histórico interno.

E emitiria um comunicado restrito às áreas envolvidas informando que eu estivera em atividade externa autorizada nos dias em que minha ausência havia sido registrada.

Havia, porém, uma frase que me incomodava.

“O encerramento do vínculo decorreu de reestruturação gerencial.”

Eu li duas vezes.

— Isso não aconteceu — falei.

Renata assentiu.

— Então não aceite.

— Eles estão tentando trocar uma justificativa falsa por outra mais confortável.

— É exatamente por isso que você deve pedir uma redação neutra.

Propusemos apenas:

“O desligamento foi determinado pela diretoria e não decorreu de abandono, ausência injustificada ou descumprimento de atividade profissional.”

Aquilo bastava.

Eu não queria obrigar ninguém a escrever “Daniel errou”.

Queria que parassem de registrar que eu tinha errado.

Enquanto a negociação avançava, recebi um convite inesperado de uma empresa de consultoria comercial para uma conversa.

Não era uma proposta de emprego.

Uma antiga gerente com quem eu havia trabalhado anos antes soubera que eu estava disponível e perguntou se eu tinha interesse em conversar sobre um projeto.

Aceitei.

Não porque estivesse pronta para começar imediatamente.

Mas porque precisava lembrar que minha carreira não terminava no corredor onde minha caixa fora deixada.

A conversa durou pouco mais de uma hora.

Falamos de processos de vendas, relacionamento com grandes contas, formação de equipe e expansão.

Ninguém perguntou sobre Daniel.

Ninguém falou de Lívia.

Ninguém me tratou como “a profissional demitida”.

Quando saí, percebi que havia passado sessenta minutos inteiros pensando no meu trabalho sem associá-lo à empresa antiga.

Foi uma sensação pequena.

Mas importante.

Naquela noite, Daniel ligou.

Dessa vez atendi.

— Oi.

— Você está ocupada?

— Depende.

— Preciso conversar sobre uma coisa da revisão.

— Isso não deveria passar pelo RH?

— Não é exatamente sobre o seu desligamento.

Fiquei em silêncio.

— É sobre Lívia.

— Daniel, eu não vou participar de uma investigação informal.

— Só quero saber o que ela dizia para você durante a negociação.

— Quase nada. Ela não participava.

— Nunca?

— Ela pediu algumas atualizações gerais porque disse que precisava preparar a equipe para uma possível transição depois da assinatura.

Do outro lado da linha, ele ficou quieto.

— Quando foi isso?

Informei aproximadamente.

Daniel soltou o ar.

— Ela me disse que já vinha acompanhando a conta havia semanas.

— Então pergunte a ela o que significa “acompanhar”.

— Sofia…

— Eu não tenho interesse em provar que Lívia é uma vilã, Daniel. Meu problema é muito mais simples. Você acreditou que o trabalho era dela sem falar comigo.

— Ela apresentou as coisas de um jeito diferente.

— E você aceitou.

— Porque eu achei que…

Ele parou.

— Achou o quê?

— Que você estava se afastando da equipe.

A frase me surpreendeu.

— Eu estava viajando.

— Não estou falando só dos três dias.

Sentei.

— Então fala.

Daniel demorou alguns segundos.

— Nos últimos meses, você passou a resolver muita coisa diretamente. Clientes ligavam para você. A diretoria vinha perguntar por você. E, em algumas reuniões, parecia que você já tinha uma estrutura própria dentro do comercial.

Eu quase ri.

— Eu era diretora de contas.

— Eu sei.

— Então qual era o problema?

Silêncio.

A resposta veio baixa.

— Talvez eu tenha começado a achar que você estava concentrando poder demais.

Ali estava alguma coisa verdadeira.

Não um grande segredo.

Não uma conspiração.

Apenas uma insegurança feia, comum e suficiente para destruir confiança.

— Então você me demitiu porque achou que eu estava ficando importante demais dentro da empresa?

— Não foi tão simples.

— Geralmente não é.

— Lívia disse que conseguiria reorganizar a área e que a conta do Grupo Vasconcelos poderia continuar sem depender de você.

— E você gostou dessa ideia.

Ele não respondeu.

Não precisava.

Eu me levantei e fui até a janela.

— Você podia ter conversado comigo.

— Eu devia ter feito isso.

— Podia ter perguntado sobre a viagem.

— Sim.

— Podia ter verificado quem realmente conduziu a negociação.

— Sim.

— Podia ter me ligado antes de anunciar a demissão.

— Sim.

A terceira resposta saiu quase como um sussurro.

Pela primeira vez, Daniel não tentou incluir um “mas”.

Aquilo não apagava nada.

Mas finalmente tornava a conversa verdadeira.

— A revisão está mostrando que a Lívia exagerou bastante a participação dela — ele disse. — Em alguns pontos, ela apresentou decisões suas como se fossem dela.

— E o que você vai fazer?

— Isso será decidido com os sócios e o RH.

— Certo.

Eu me preparava para encerrar quando ele perguntou:

— E nós?

Fechei os olhos.

— Não sei.

— Você ainda me ama?

A pergunta me atingiu num lugar que contratos e documentos não alcançavam.

— Amor não é o único problema.

— Para mim importa.

— Para mim também. Mas confiança importa junto.

Ele ficou quieto.

— Eu quero consertar.

— Então comece sem pedir que eu volte, sem pedir que eu recupere o contrato e sem transformar sua culpa em uma tarefa para mim.

A ligação terminou pouco depois.

Dois dias mais tarde, a empresa aceitou a redação neutra sobre meu desligamento.

Renata me enviou a versão final para análise.

Li tudo com calma.

Nada me obrigava a voltar.

Nada dizia que eu havia faltado.

Nada me impedia de seguir trabalhando na minha área.

Depois de confirmar os valores e as condições, autorizei a continuidade do acordo.

Na mesma tarde, recebi outra notícia.

A consultoria com a qual eu havia conversado queria me contratar para liderar um projeto de expansão por seis meses.

Não era um cargo definitivo.

Não era R$ 150 milhões.

Não vinha de Helena.

Era apenas uma oportunidade profissional que eu tinha conquistado por anos de experiência.

Respondi que aceitava conversar sobre os termos.

Então meu celular vibrou novamente.

Daniel.

“Lívia foi afastada da gestão da conta enquanto a revisão termina.”

Logo depois:

“E os sócios querem falar comigo amanhã sobre minha permanência na diretoria-geral.”

Li as duas mensagens.

Dessa vez, não senti satisfação.

Senti apenas a certeza de que, finalmente, as decisões daquele dia começavam a produzir consequências para quem as havia tomado.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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