Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

Parte 3

Caio ficou imóvel no meio da sala.

A raiva desapareceu do rosto dele com tanta rapidez que, por um instante, parecia que alguém tinha desligado uma luz. Ele olhou para o pai, depois para mim, e por fim para o telefone sobre a mesa.

— Pai, não fala uma coisa dessas.

Meu sogro caminhou devagar até o sofá.

— Estou falando porque aconteceu.

Sentou-se com cuidado, ainda se acostumando às limitações impostas pelos médicos.

— Ela me levou para o hospital. Ela assinou tudo. Ela ficou lá. Você não estava.

Caio passou a mão pelo rosto.

— Eu não sabia que era isso.

— Eu tentei fazer você saber — respondi.

Ele pegou meu celular.

Havia chamadas feitas em horários diferentes, mensagens, tentativas para o hotel e o registro das conversas recebidas. Durante alguns minutos, Caio ficou apenas rolando a tela.

— Meu telefone ficou quase sempre no silencioso.

— Eu sei.

— Durante as reuniões eu deixava na mochila.

— Também sei.

Ele levantou os olhos.

— Mas a Manuela não me falou que era um infarto.

A frase me incomodou imediatamente.

Não porque eu tivesse certeza de que ele estava mentindo. Na verdade, eu não sabia o que Manuela havia dito a ele.

O problema era a rapidez com que Caio parecia procurar outra pessoa para carregar o peso que tinha acabado de cair sobre seus ombros.

— Eu não sei o que ela falou para você — disse. — Sei o que eu falei para ela.

Ele respondeu que precisava ligar para Manuela.

Foi quando me lembrei das gravações.

Meu celular de trabalho registrava automaticamente chamadas. Abri a pasta e encontrei os arquivos correspondentes ao hotel.

Caio se aproximou.

Na primeira gravação, minha voz dizia com todas as palavras que o pai dele estava sofrendo um infarto e entrando em uma cirurgia de emergência.

A voz de Manuela respondia:

“Assim que ele terminar, eu aviso.”

Na segunda, eu a questionava diretamente sobre o que havia transmitido.

“Você disse que teve um problema em casa ou disse que o pai dele está sofrendo um infarto?”

A resposta veio exatamente como eu lembrava:

“Eu falei que ele não estava bem.”

Caio apertou a mandíbula.

Ligou para Manuela ali mesmo.

Ela demorou a atender.

— Caio?

— O que você me disse sobre o meu pai?

O tom dele estava frio.

Do outro lado, houve um silêncio curto.

— Eu falei que ele tinha passado mal.

— Você sabia que ele estava tendo um infarto.

Ela tentou responder, mas Caio interrompeu.

— A Marina falou isso claramente para você. Eu acabei de ouvir a gravação.

Meu sogro permaneceu quieto. Eu também.

A conversa não era agradável, mas eu precisava escutá-la porque uma parte importante daquela história ainda estava incompleta.

Manuela respirou fundo.

— Eu achei que a Marina estava desesperada e que talvez a situação não fosse exatamente como parecia pelo telefone.

— Ela disse “infarto agudo” e “cirurgia de emergência”.

— Eu sei.

Aquela resposta mudou tudo.

Caio se levantou.

— Então por que você não me disse?

Manuela falou mais baixo.

— Porque o diretor do cliente tinha acabado de chegar. A assinatura daquele contrato estava por um fio. Você tinha repetido a semana inteira que ninguém deveria interromper você durante as reuniões finais.

Caio não respondeu.

Ela continuou:

— Quando você saiu da mesa, eu falei que seu pai tinha passado mal e que a Marina estava tentando falar com você.

— Você falou que ele estava tendo um infarto?

Mais silêncio.

— Não.

Caio fechou os olhos.

— Por quê?

— Porque achei que você terminaria a reunião e ligaria depois.

Ele andou até a janela.

— E quando ela ligou de novo?

— Você já tinha voltado para a sala.

— E depois?

Manuela hesitou.

— Depois você perguntou se era alguma coisa urgente.

Meu estômago apertou.

Caio virou-se para mim, mas continuou falando ao telefone.

— E o que você respondeu?

— Eu disse que seu pai não estava bem e que a Marina estava cuidando disso.

Meu marido ficou pálido.

Então eu entendi.

Ele não sabia da gravidade completa.

Mas sabia que o pai estava doente, sabia que eu tentava falar com ele e, mesmo assim, decidiu deixar para depois.

Caio desligou sem prolongar a conversa.

Durante alguns segundos, ninguém falou.

Foi ele quem quebrou o silêncio.

— Eu perguntei para ela se era urgente.

Olhou para mim.

— Ela falou que você já estava cuidando.

Eu soltei uma risada curta, sem humor algum.

— Claro.

— Marina…

— Não.

Levantei a mão.

— Não faz isso.

— Fazer o quê?

— Transformar a Manuela na única culpada porque assim fica mais fácil para você.

Ele baixou o olhar.

Eu continuei:

— Ela errou. Não tinha o direito de decidir o que você precisava saber sobre o seu próprio pai. Mas você também escolheu construir uma vida em que ninguém consegue falar com você quando você está trabalhando.

Caio abriu a boca, mas eu não tinha terminado.

— Você me entregou um telefone de hotel como se estivesse me fazendo um favor. Disse que não conseguiria atender durante o dia. Não respondeu nem à noite. E quando alguém finalmente falou que seu pai estava passando mal, você ouviu que eu estava cuidando e achou suficiente.

Meu sogro mexeu as mãos sobre as pernas.

Caio se sentou.

— Eu achei que fosse alguma coisa do estômago.

— Porque era mais conveniente achar isso.

A frase saiu calma.

E talvez por isso tenha atingido mais forte.

— Você sabia que o médico tinha mandado ele procurar um hospital por causa do peito. Eu coloquei o encaminhamento na sua frente antes da viagem.

Caio não tentou negar.

— Eu lembro.

— Pois é.

Sentei diante dele.

Pela primeira vez desde que tudo tinha começado, eu não estava correndo atrás de médico, documento, remédio, pagamento ou ligação.

Podia simplesmente olhar para o problema.

E percebi que ele era maior do que aqueles oito dias.

— Não foi só o hospital — falei. — O hospital foi o dia em que tudo aquilo que eu vinha carregando há anos ficou impossível de ignorar.

Caio franziu a testa.

— Do que você está falando?

— Da nossa casa. Do seu pai. Das contas. Das consultas. Dos reparos. De tudo que você chama de “quem estiver livre resolve”.

Ele ficou quieto.

— Sabe quem estava sempre livre, Caio?

Minha voz não aumentou.

— Eu.

Meu sogro se levantou lentamente.

— Vou descansar um pouco.

Antes de entrar no quarto, olhou para o filho.

— Escuta sua mulher.

Quando ficamos sozinhos, Caio começou:

— Eu sei que errei.

— Você sabe que seu pai quase morreu enquanto você estava fora.

— Marina…

— Mas ainda não sei se você entendeu o resto.

Ele respirou fundo.

— Então me explica.

Balancei a cabeça.

— Esse é exatamente o problema.

Caio pareceu não compreender.

— Eu passei nove anos explicando o que precisava ser feito. Lembrando consulta. Chamando técnico. Fazendo lista. Pedindo ajuda. Dizendo que estava cansada.

Apontei para o celular.

— Eu não quero transformar isso em mais uma coisa que eu tenho de ensinar para você.

Ele permaneceu sentado, com os cotovelos apoiados nos joelhos.

Aquela era a primeira vez em muito tempo que eu o via sem uma resposta pronta.

Sem reunião.

Sem aeroporto.

Sem a frase “resolve primeiro”.

— O que você quer que eu faça? — perguntou.

Eu o encarei.

E, naquele instante, percebi que minha resposta já existia antes mesmo daquela pergunta.

— Eu quero parar de administrar a sua vida.

Fiz uma pausa.

— E preciso descobrir se ainda existe um casamento quando eu paro de fazer isso.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1