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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

Voltar a dormir no mesmo quarto não resolveu tudo.

Na manhã seguinte, continuávamos sendo duas pessoas tentando reconstruir uma relação depois de anos de desequilíbrio.

Mas alguma coisa tinha mudado.

Eu não sentia mais que precisava fingir que o hospital havia ficado para trás.

Podíamos falar sobre aquilo sem transformar a conversa numa acusação interminável.

Algumas semanas depois, foi Caio quem trouxe o assunto.

Estávamos caminhando depois do jantar quando ele disse:

— Nunca perguntei o que você pensou sobre mim e a Manuela.

Olhei para ele.

— Eu pensei muitas coisas.

— Você achou que eu estava tendo um caso?

A pergunta era direta.

Respondi da mesma maneira.

— Em alguns momentos, sim.

Caio ficou alguns passos em silêncio.

— Eu não tive.

Assenti.

— Hoje eu acredito nisso.

Ele pareceu aliviado, mas eu continuei:

— Só que esse nunca foi o pior ponto.

— Qual foi?

— Eu perceber que uma colega sua tinha mais acesso a você do que eu numa emergência.

A expressão dele mudou.

— Isso doeu mais do que imaginar uma traição?

Pensei.

— De outro jeito.

Parei de caminhar.

— Porque eu era sua esposa havia nove anos. Seu pai estava numa mesa de cirurgia. E eu precisava negociar com outra pessoa trinta segundos da sua atenção.

Caio fechou os olhos por um instante.

— Eu sinto vergonha disso.

— Eu sei.

— E não tem como desfazer.

— Não.

Voltamos a andar.

Não havia frase capaz de eliminar aquela memória.

Mas eu já não precisava que ela desaparecesse.

Precisava apenas que não continuasse definindo nossa vida.

A recuperação do meu sogro avançava bem.

Ele voltou a sair sozinho para pequenas caminhadas, retomou parte da rotina e começou a reclamar que todo mundo o tratava como se fosse feito de vidro.

Caio tornou-se menos controlador à medida que o pai recuperava autonomia.

Aquilo também era importante.

Assumir responsabilidade não significava substituir a independência do outro.

Numa consulta de acompanhamento, meu sogro insistiu que entraria sozinho.

— Vocês dois ficam aqui fora.

Caio tentou protestar.

— Pai…

— Tenho sessenta e tantos anos, não seis.

Olhei para Caio.

Ele respirou fundo.

— Tá bom.

Quando o pai entrou, Caio sentou ao meu lado.

— Acho que passei do abandono para o exagero.

— Agora você encontra o meio.

Ele riu.

— Estou tentando.

No trabalho, Caio continuou viajando.

Essa parte da vida dele não desapareceu.

Também não precisava desaparecer.

A diferença era que agora havia regras simples.

Eu sabia como encontrá-lo.

O pai sabia.

A equipe tinha instruções claras sobre emergências.

E Caio mantinha períodos de disponibilidade mesmo em viagens importantes.

Nada disso prejudicou sua carreira como ele parecia temer antes.

Na verdade, alguns meses depois, ele comentou que tinha percebido algo quase irônico.

— Eu achava que precisava estar disponível para o trabalho vinte e quatro horas para mostrar comprometimento.

— E?

— Descobri que metade daquilo era hábito, não necessidade.

Eu sorri.

— Demorou.

— Bastante.

Também continuamos a terapia por alguns meses.

A profissional nos ajudou a reconhecer um padrão que ia além das tarefas domésticas.

Eu antecipava problemas.

Caio se acostumava a confiar que eu anteciparia.

Quanto mais eu fazia, menos ele precisava perceber.

Quanto menos ele percebia, mais eu fazia.

Era um ciclo.

E romper um ciclo exigia que os dois suportassem algum desconforto.

Eu precisei aprender a não resolver imediatamente.

Caio precisou aprender a perceber sem ser lembrado.

Nem sempre funcionava.

Certa vez, ele esqueceu completamente de comprar um remédio do pai.

Meu primeiro impulso foi correr até a farmácia.

Em vez disso, avisei:

— O medicamento acabou.

Caio olhou para a caixa vazia.

— Droga.

Pegou as chaves.

Não discutimos.

Não transformamos aquilo em símbolo do nosso casamento inteiro.

Ele resolveu o erro.

Esse tipo de normalidade começou a significar muito para mim.

Três meses depois de eu voltar, sentamos na varanda numa noite de chuva.

Caio perguntou:

— Ainda está em período de teste?

Sorri.

— Você estava contando os dias?

— Um pouco.

— Eu também.

Ficamos em silêncio.

— E então? — perguntou.

Olhei para dentro da casa.

Meu sogro já tinha ido dormir.

Na cozinha, havia uma lista de compras escrita por Caio e outra por mim.

No calendário, o próximo retorno médico do meu sogro estava marcado com a letra dele.

Meu trabalho ocupava espaço na minha vida novamente.

Eu via minhas amigas.

Tinha horários meus.

Podia passar um sábado fora sem organizar previamente a existência de dois adultos.

Não era perfeição.

Mas era parceria.

— Eu quero continuar — respondi.

Caio soltou o ar devagar.

— Casados?

— Casados.

Ele segurou minha mão.

— Obrigado.

Balancei a cabeça.

— Não agradece ainda.

Ele riu.

— Por quê?

— Porque continuar não significa que eu vou esquecer.

— Eu não quero que você esqueça.

Aquilo me surpreendeu.

— Não?

— Se a gente esquecer, corre o risco de voltar para o mesmo lugar.

Apertei a mão dele.

— Então estamos entendidos.

Alguns dias depois, Caio recebeu a confirmação de uma nova viagem.

Dessa vez, seria novamente para Recife.

A cidade onde tudo tinha começado.

Ele me mostrou o e-mail.

— Quatro dias.

Olhei as datas.

Por um instante, imagens do hospital voltaram com força.

A luz vermelha.

O corredor.

O telefone chamando.

A voz de Manuela dizendo que ele estava ocupado.

Caio percebeu minha expressão.

— Se isso for demais, posso pedir para outra pessoa ir.

Olhei para ele.

Meses antes, talvez eu pedisse isso.

Mas não queria construir confiança evitando para sempre qualquer situação que lembrasse a anterior.

— Não.

— Tem certeza?

— Vai trabalhar.

Ele continuou me observando.

— Mas leva o celular.

Caio sorriu.

— Pode deixar.

Na manhã da viagem, acompanhei-o até a porta.

Ele pegou a mala e se despediu do pai.

Antes de sair, voltou até mim.

— Te ligo quando chegar.

— Tá bom.

— E, Marina…

— O quê?

— Se precisar de mim, me liga diretamente. Qualquer hora.

Eu assenti.

Dessa vez, não precisei pedir.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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