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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Na manhã seguinte, Caio acordou antes de mim.

Não para pegar um voo, responder mensagens de trabalho ou entrar em uma reunião. Quando cheguei à cozinha, ele estava lendo as orientações médicas do pai e tentando organizar os horários dos remédios.

Normalmente, eu teria corrigido tudo.

Teria separado as caixas, colocado alarmes no celular dele, escrito os horários em um papel e provavelmente lembrado três vezes durante o dia.

Naquela manhã, não fiz nada.

Caio ergueu uma das caixas.

— Esse aqui é depois do café?

— Está escrito na receita.

Ele percebeu a resposta.

Baixou os olhos e voltou a ler.

Não gostei de ser seca. Mas também sabia que, se eu assumisse novamente cada detalhe no primeiro momento de dificuldade, nada mudaria.

Meu sogro apareceu devagar na cozinha.

Caio puxou a cadeira para ele e colocou água sobre a mesa.

— Pai, hoje à tarde eu vou ligar para marcar seu retorno com o cardiologista.

Meu sogro me olhou, talvez esperando confirmação.

Eu continuei tomando café.

Caio percebeu.

E, pela primeira vez, não me perguntou o número da clínica.

Procurou sozinho nos documentos.

À tarde, ele descobriu que a consulta de retorno precisava ser marcada para poucos dias depois. Também percebeu que o plano de saúde ainda exigia o envio de alguns comprovantes do procedimento.

Ele me chamou no escritório.

— Você sabe onde estão aqueles documentos?

— Na pasta do hospital.

— Qual pasta?

— A que eu trouxe para casa.

Caio abriu a boca para fazer outra pergunta, mas parou.

Foi procurar.

Quarenta minutos depois, resolveu tudo.

Aquilo parecia pequeno.

E era.

O que me assustava era perceber quantas coisas pequenas daquele tipo eu fazia sem sequer registrá-las como trabalho.

Naquela noite, Caio pediu para conversar.

Sentamos na sala enquanto meu sogro dormia.

— Falei com meu diretor hoje.

Eu o observei.

— Sobre a viagem?

— Sobre o que aconteceu.

Ele explicou que não tinha tratado aquilo como uma denúncia contra Manuela para se livrar da própria responsabilidade. Apenas informou que mensagens relacionadas a emergências familiares não poderiam voltar a ser filtradas daquela maneira.

Também admitiu ao diretor que ele próprio havia incentivado a equipe a protegê-lo de interrupções.

— Eu dizia para ninguém me chamar durante reunião, a não ser que a empresa estivesse pegando fogo.

Caio balançou a cabeça.

— Acho que levei isso longe demais.

— Levou.

Ele aceitou sem se defender.

Depois acrescentou:

— Meu diretor disse praticamente a mesma coisa.

Não senti satisfação.

Eu não queria vê-lo humilhado no trabalho. Queria apenas deixar de pagar o preço pelas prioridades que ele escolhia.

Nos dias seguintes, meu sogro recuperou parte da disposição.

Ainda precisava caminhar devagar e seguia uma rotina rígida de medicamentos. Caio passou a acompanhar pressão, alimentação e horários.

Ele errou algumas vezes.

Confundiu uma caixa.

Esqueceu de separar um documento antes de sair.

Precisou voltar ao hospital para buscar um relatório que deveria ter solicitado durante a alta.

Eu tive vontade de interferir em todas essas situações.

Não interferi.

Quando ele voltou cansado de uma dessas idas ao hospital, largou as chaves sobre a mesa.

— Eu não fazia ideia de como isso consome tempo.

Eu estava lendo no sofá.

— Pois é.

Ele sentou na poltrona em frente.

— Você fez isso durante anos.

— Fiz.

— E eu chamava de “coisinhas”.

Fechei o livro.

— Chamava.

Caio respirou fundo.

— Desculpa.

Dessa vez, não respondeu apenas ao episódio do hospital.

E talvez por isso eu tenha escutado.

Mas desculpas não reorganizam uma relação da noite para o dia.

Na semana seguinte, voltei a trabalhar em horário normal.

Caio também voltou ao escritório, porém ajustou parte da agenda para poder acompanhar o pai. Quando havia conflito, procurava alternativas antes de pedir que eu resolvesse.

Ainda assim, dentro de casa, a tensão permanecia.

Ele tentava se aproximar.

Eu recuava.

Não por vingança.

Meu corpo simplesmente parecia ter aprendido a não relaxar perto dele.

Numa sexta-feira, Caio entrou no quarto enquanto eu guardava roupas.

— Você está dormindo virada para o outro lado desde que voltei.

Continuei dobrando uma blusa.

— Eu sei.

— Eu queria saber se você prefere que eu durma no escritório por um tempo.

Olhei para ele.

Meses antes, talvez eu interpretasse a proposta como afastamento.

Naquele momento, pareceu respeito.

— Prefiro.

Ele assentiu.

Pegou travesseiro e algumas roupas sem dramatizar.

A partir daquela noite, passamos a dormir em quartos separados.

Meu sogro percebeu dois dias depois.

— Vocês estão brigados por minha causa?

— Não — respondi. — O senhor só foi o momento em que eu percebi uma coisa que já existia.

Ele ficou preocupado.

— Não quero destruir o casamento de vocês.

Sentei ao lado dele.

— O senhor não está destruindo nada.

Sorri de leve.

— Na verdade, talvez tenha impedido que a gente continue fingindo que estava tudo bem.

Na terça-feira seguinte, o retorno com o cardiologista estava marcado para oito da manhã.

Na noite anterior, Caio apareceu na cozinha com os exames organizados em uma pasta.

— Amanhã eu levo meu pai.

Eu apenas confirmei com a cabeça.

Ele pareceu esperar que eu dissesse alguma coisa.

Não disse.

Às sete e vinte da manhã, ouvi os dois saindo.

Fiquei sozinha na sala.

Por nove anos, eu teria ido junto “só para garantir”.

Dessa vez, permaneci sentada.

Duas horas depois, recebi uma mensagem de Caio:

“Consulta terminou. Está estável. Mudaram duas medicações. Já organizei tudo.”

Li.

Não respondi imediatamente.

Não porque quisesse castigá-lo.

Mas porque comecei a entender que responsabilidade não deveria exigir aplausos toda vez que finalmente era assumida.

Naquela noite, Caio colocou a nova receita sobre a mesa.

— O próximo retorno é em trinta dias.

Meu sogro sorriu.

— Ele anotou sozinho.

Caio pareceu quase envergonhado.

Eu sorri também, mas não comentei.

Mais tarde, ele parou diante da porta do escritório improvisado onde estava dormindo.

— Marina.

Virei.

— Eu sei que uma semana fazendo o mínimo não apaga nove anos.

Esperei.

— Só quero que você saiba que não estou fazendo isso para você esquecer o que aconteceu.

Aquela frase me atingiu de um jeito inesperado.

Porque, pela primeira vez, Caio não estava tentando acelerar meu perdão.

— Então continua — respondi.

Ele assentiu.

— Vou continuar.

Fechei a porta do quarto naquela noite sem saber se ainda queria salvar nosso casamento.

Mas, pela primeira vez, eu não sentia que precisava salvar tudo sozinha.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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