
Parte 2
— E desde quando esta casa virou lugar para você esconder as consequências das suas escolhas? — Augusto perguntou.
Caio respirou fundo. — Eu não estou escondendo nada. A Lívia precisa de ajuda, só isso. Dois dias, pai. Até ela resolver onde vai ficar.
— Então ajude sem envolver sua esposa e sem transformar seus pais em cúmplices de uma situação que você sequer teve coragem de explicar — Augusto respondeu.
Nesse instante, Caio percebeu minha presença no alto da escada. O rosto dele mudou. — Ana… você está acordada?
Desci os primeiros degraus devagar. — Pelo visto, eu precisava estar.
Ele veio na minha direção, mas parei antes que se aproximasse. — Não encosta em mim. Primeiro eu quero entender por que a mulher que estava agarrada ao seu braço no shopping precisa dormir na casa dos seus pais.
— Não era daquele jeito. Você viu uma cena fora de contexto. A Lívia está passando por uma situação complicada.
Helena apareceu no corredor de roupão, sem demonstrar surpresa. — Então explique o contexto completo. Tenho certeza de que a Ana gostaria de ouvir.
Caio olhou para a mãe com irritação. — Mãe, você está piorando tudo.
— Não. Você piorou tudo sozinho. Eu apenas parei de impedir que as consequências chegassem até você.
Ele fechou os olhos por um instante. — Eu reencontrei a Lívia há alguns meses. Ela se separou, está com dificuldades, tem um filho para cuidar. Eu tentei ajudar.
— Quantas vezes? — perguntei.
Caio demorou a responder. — Algumas.
— Quantas dessas vezes aconteceram enquanto eu estava viajando?
Ele desviou o olhar. Aquele pequeno movimento respondeu antes das palavras.
— Ana, eu não estava fazendo nada contra você.
— Você estava encontrando outra mulher escondido, chegando depois da meia-noite e segurando a mão dela no shopping. Se isso não é contra mim, talvez você precise me explicar qual é a sua definição de casamento.
Caio ficou vermelho. — Eu não dormi com ela.
O silêncio que veio depois pareceu maior do que a sala.
Helena cruzou os braços. — Interessante. A Ana não perguntou isso.
Caio percebeu o próprio erro tarde demais. — Eu só estou tentando deixar claro.
— Então deixe claro — falei. — Desde quando vocês se encontram? Por que você nunca me contou? E por que ela se comportou comigo como alguém que não tinha motivo nenhum para recuar?
Ele passou a mão pelo rosto. — Porque você transforma tudo em uma questão definitiva. Eu sabia que você não entenderia.
Senti alguma coisa dentro de mim esfriar. Não era mais o choque do shopping. Era outra coisa, mais lúcida. — Você escondeu porque imaginou minha reação. Isso significa que sabia que existia algo errado.
— Não foi assim.
— Pare — Helena interrompeu. — Se você pretende falar, fale. Se pretende apenas mudar a culpa de lugar, volte para sua casa.
Caio encarou a mãe. — Você está ficando contra mim por causa de uma situação que nem conhece inteira?
— Eu conheço meu filho — Helena respondeu. — E conheço a diferença entre ajudar alguém e levar uma vida paralela que sua esposa não conhece.
Augusto apontou para a porta. — A Lívia não vai ficar aqui. Nem hoje, nem amanhã. Resolva isso sem usar esta casa.
Caio ficou imóvel por alguns segundos. Então olhou para mim. — Venha comigo. A gente conversa em casa.
Pensei na nossa sala, na nossa cama, no buquê que ele colocara sobre a mesa depois da minha viagem e em quantas vezes eu provavelmente tinha acreditado em explicações incompletas porque confiava nele. — Hoje eu não vou.
— Ana, não faça isso virar uma coisa maior.
Dessa vez, não senti vontade de chorar. — Eu não estou fazendo nada crescer, Caio. Só estou parando de diminuir.
Ele apertou a mandíbula. — Então o quê? Você vai ficar aqui com meus pais enquanto eles me tratam como criminoso?
— Vou ficar onde consigo pensar sem você me dizendo o tamanho que a minha dor pode ter.
Helena não falou nada. Apenas permaneceu ao meu lado.
Caio ficou alguns segundos diante de mim, como se esperasse que eu voltasse ao papel de sempre, aquele em que eu conciliava, explicava, suavizava. Quando percebeu que não aconteceria, pegou as chaves no aparador.
Antes de sair, virou-se. — Amanhã eu volto. E espero que você esteja disposta a ouvir a verdade inteira.
Olhei para ele. — Amanhã eu decido se ainda quero ouvir. Hoje eu já ouvi o suficiente para saber que não posso continuar fingindo que está tudo bem.
A porta se fechou atrás dele, e naquela madrugada compreendi algo que me assustou mais do que vê-lo ao lado de Lívia: pela primeira vez em cinco anos, eu não estava pensando em como salvar meu casamento. Estava pensando em como salvar a mim mesma.
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