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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Voltei para o corredor com aquela frase girando na cabeça.

Marta não tinha apenas recebido a notícia de que o filho estava vivo. Ela sabia que existia uma ocorrência aberta, sabia que Bruna e a polícia procuravam Rafael e, mesmo assim, antes de corrigir qualquer informação, decidiu ligar para mim.

Augusto estava sentado numa das cadeiras próximas ao posto de enfermagem. Levantou-se quando me viu.

— Terminou?

— Ainda falta uma coisa.

Contei o que Rafael havia acabado de dizer.

A expressão do delegado ficou séria.

— Ele consegue prestar depoimento?

— Está consciente.

Augusto pediu autorização à equipe médica e entrou no quarto com o investigador mais jovem. Eu não precisei acompanhar.

Não era mais meu problema provar nada.

Sentei num banco do corredor e, pela primeira vez desde que recebera aquela ligação em Punta del Este, fiquei alguns minutos sem que ninguém exigisse alguma coisa de mim.

Bruna reapareceu perto do elevador.

O rosto ainda estava pálido, mas ela tinha recuperado alguma firmeza.

— Ele confirmou que saiu por vontade própria?

— Confirmou.

— E disse que não foi por sua causa?

— Também.

Ela assentiu devagar.

— Desculpa ter perguntado daquele jeito.

— Você estava tentando entender por que o homem com quem ia se casar desapareceu no dia do casamento.

Não havia razão para transformar Bruna em inimiga.

— Eu provavelmente faria perguntas piores.

Ela soltou uma respiração que quase pareceu um riso.

— Ainda não sei o que vou fazer.

— Não precisa decidir hoje.

— Você decidiu rápido quando se divorciou?

A pergunta me pegou de surpresa.

— Não.

Olhei para a janela do fim do corredor.

— Levei muito tempo para decidir. Só que, quando finalmente assinei, a decisão já estava pronta dentro de mim havia meses.

Bruna ficou em silêncio.

Não era um silêncio vazio. Era o tipo de pausa de alguém reorganizando coisas que talvez já soubesse.

Antes de ir embora, ela disse:

— Acho que eu estava tentando fazer hoje uma pergunta que deveria ter feito antes.

Não perguntei qual.

Às vezes, cada pessoa precisa encontrar a própria resposta.

Quando Augusto saiu do quarto, pediu que Marta entrasse numa pequena sala reservada do hospital.

Ela resistiu imediatamente.

— Meu filho está machucado. Eu não vou ficar respondendo pergunta enquanto ele precisa de mim.

— Seu filho está sendo acompanhado por uma equipe médica — disse Augusto. — E a senhora precisa esclarecer por que não atualizou uma ocorrência de desaparecimento depois de localizar a pessoa procurada.

Marta lançou um olhar duro na minha direção.

— Foi ela que colocou isso na cabeça de vocês.

Eu me levantei.

— Eu estava em outro país.

— Se você tivesse voltado sem fazer escândalo, nada disso estaria acontecendo.

Aquilo finalmente me fez entender a lógica dela.

Não era sobre Rafael.

Pelo menos não inteiramente.

Era sobre a convicção de que eu deveria obedecer.

— A senhora está dizendo que eu deveria ter abandonado minha viagem, comprado uma passagem e vindo cuidar de um homem que deixou de ser meu marido ontem?

— Vocês passaram anos juntos!

— E ontem esse casamento terminou.

— Papel não apaga família!

— Para a senhora, talvez não.

Mantive a voz controlada.

— Para mim, o divórcio encerrou obrigações que eu não quero mais carregar.

Augusto interrompeu antes que a discussão crescesse.

— Dona Marta, precisamos conversar.

Ela entrou na sala.

Fiquei do lado de fora.

Quarenta minutos depois, Augusto me explicou o essencial. Marta afirmara que, quando registrou informações iniciais, realmente não sabia onde Rafael estava. Depois que o hospital entrou em contato, entrou em pânico, foi até lá e não pensou em avisar a polícia imediatamente.

— E a ligação para mim?

— Ela admite que ligou.

— E admite que sabia que vocês continuavam procurando por ele?

Augusto fez uma pausa.

— Sim.

— Então por que não avisou?

Ele não respondeu por ela.

Não precisava.

Marta saiu da sala poucos minutos depois.

Dessa vez não me olhou.

O delegado explicou que o registro inicial de desaparecimento não tinha sido necessariamente falso, porque Rafael realmente estava sem contato e fora do local esperado naquele momento. O problema era a omissão posterior e as informações contraditórias.

— Isso ainda será analisado — disse ele. — Mas, em relação à senhora, seu deslocamento, seus registros e os depoimentos já afastam qualquer participação no desaparecimento.

Senti os ombros relaxarem.

— Posso ir embora?

— Pode.

Era a primeira frase verdadeiramente libertadora que eu ouvia desde o início daquela confusão.

Peguei um carro para o apartamento que tinha alugado depois de sair da casa onde morara com Rafael.

Quando entrei, o silêncio me recebeu de um jeito diferente do silêncio do hotel.

Ali não havia mar, serviço de quarto nem varanda enorme.

Havia caixas ainda fechadas, duas plantas sobrevivendo perto da janela e uma mala pequena que eu tinha deixado pronta antes da viagem.

Era pouco.

Mas era meu.

Tomei banho, vesti uma camiseta larga e sentei no chão da sala com o notebook.

Passei quase uma hora enviando comprovantes para a companhia aérea, para o seguro viagem e para o hotel. Eu não sabia quanto conseguiria recuperar, mas queria pelo menos tentar.

Durante o casamento, eu costumava abandonar coisas minhas quando surgia um problema de Rafael ou da família dele.

Uma reserva perdida.

Um compromisso cancelado.

Um fim de semana interrompido.

Tudo parecia pequeno isoladamente.

Juntos, aqueles detalhes tinham consumido anos.

Perto da meia-noite, recebi uma mensagem de Bruna.

“Posso te fazer uma pergunta?”

Pensei antes de responder.

“Pode.”

A resposta veio logo.

“Você sabia que ele não queria se casar comigo?”

Olhei para a tela.

Escrevi apenas:

“Não. E se eu soubesse, ainda assim seria responsabilidade dele contar a você.”

Bruna visualizou.

Não respondeu.

Poucos minutos depois, outra mensagem apareceu.

Dessa vez era de Rafael.

“Minha mãe não vai mais entrar em contato com você. Eu deixei isso claro.”

Li duas vezes.

Então respondi:

“Espero que você mantenha essa decisão.”

Ele digitou por alguns segundos.

“Vou manter.”

Aquela não era uma reconciliação.

Era a primeira vez, em anos, que eu sentia que uma fronteira entre nós tinha sido dita em voz alta e reconhecida pelos dois.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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