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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

Marta pareceu surpresa por eu não ter ido embora imediatamente.

Talvez tivesse vindo preparada para uma discussão.

Eu não estava.

— Rafael não sabe que estou aqui — disse.

— Imaginei.

— Ele proibiu que eu entrasse em contato com você.

— Então a senhora decidiu fazer exatamente isso.

Ela apertou os lábios.

— Eu precisava dizer algumas coisas.

Olhei para o relógio.

— Um minuto e cinquenta.

— Você sempre foi assim?

— Assim como?

— Fria.

A palavra teria me machucado meses antes.

Naquele momento, apenas me cansou.

— Não.

Respondi com calma.

— Eu fiquei assim com a senhora depois de anos percebendo que qualquer gentileza minha era interpretada como obrigação.

Marta desviou o olhar para as pessoas passando pelo terminal.

— Eu só achava que você cuidava bem dele.

— Cuidava.

— Então por que foi embora?

A pergunta me fez respirar fundo.

— Porque cuidar bem de alguém não é motivo suficiente para continuar casada com essa pessoa.

Ela franziu a testa.

— Rafael te amava.

— Talvez.

— Como assim talvez?

— Amor não resolve tudo.

Minha voz permaneceu baixa.

— Ele não me traía. Não me batia. Não escondia dinheiro. E ainda assim nosso casamento terminou.

Marta parecia genuinamente confusa.

Talvez aquele tivesse sido o problema desde o início.

Na visão dela, se não existia uma grande tragédia, eu não tinha um motivo válido para ir embora.

— Então qual era o problema? — perguntou.

Olhei diretamente para ela.

— Eu me tornei responsável por manter tudo funcionando.

Ela abriu a boca.

— Não estou falando apenas de tarefas de casa.

Continuei.

— Estou falando de conflitos, aniversários, médicos, problemas da família, documentos, compromissos, desculpas, decisões que ninguém queria tomar.

Marta permaneceu parada.

— Quando alguma coisa dava errado, vocês me procuravam. Quando eu dizia que estava cansada, eu ouvia que era mais organizada e que fazia melhor.

Ela abaixou um pouco os olhos.

— Isso era elogio.

— Não quando o elogio serve para justificar que a pessoa continue carregando tudo.

O aviso de embarque soou novamente.

Marta respirou fundo.

— Eu achei que, se você voltasse para cuidar dele, vocês talvez…

Balancei a cabeça antes que terminasse.

— Então era isso.

Ela não respondeu.

— A senhora não queria apenas alguém no hospital. Queria me colocar de volta no lugar antigo.

— Eu achava que vocês ainda tinham uma chance.

— Nós tínhamos acabado de assinar o divórcio.

— Pessoas se arrependem.

— Nós não nos arrependemos.

Marta me encarou.

— Rafael está arrependido.

— De algumas coisas, sim.

Fiz uma pausa.

— De ter deixado responsabilidades demais nas minhas mãos. De ter fugido do próprio casamento. De ter machucado a Bruna.

— E de perder você.

— Isso é problema dele.

Ela ficou visivelmente incomodada.

— Você fala como se tantos anos não significassem nada.

— Significaram muito.

Minha voz suavizou, mas não recuou.

— É justamente por terem significado tanto que eu não vou fingir que podem ser repetidos como se nada tivesse acontecido.

O alto-falante anunciou a última chamada para meu grupo.

— Meu tempo acabou.

Comecei a me afastar.

— Lívia.

Parei.

Marta parecia menor do que eu lembrava.

— Eu fiz você se sentir usada?

A pergunta veio sem agressividade.

Pensei antes de responder.

— Muitas vezes.

Ela ficou pálida.

— Eu não percebia.

— Eu sei.

— Isso piora?

— Não sei.

Ajustei a bolsa no ombro.

— Mas agora a senhora sabe.

Virei novamente.

— Eu sinto muito.

A frase me fez parar mais uma vez.

Não era o pedido de desculpas perfeito.

Não apagava nada.

Também não precisava apagar.

— Espero que a senhora use isso para tratar melhor a próxima pessoa que entrar na vida do seu filho.

Ela assentiu.

— Boa viagem.

— Obrigada.

Caminhei até o portão.

Dessa vez, Marta não me chamou.

Entreguei o cartão de embarque e atravessei o corredor.

Quando já estava dentro do avião, ainda com os passageiros acomodando as malas, meu celular vibrou.

Número bloqueado não apareceria.

Era uma mensagem enviada por e-mail.

Rafael.

“Minha mãe me contou que foi ao aeroporto. Eu não sabia. Desculpa.”

Fechei os olhos.

Por alguns segundos, pensei em ignorar.

Depois respondi apenas:

“Ela pediu desculpas. Eu estou embarcando. Cuide da sua recuperação.”

A resposta veio antes que eu ativasse o modo avião.

“Posso te pedir uma última conversa quando você voltar?”

Fiquei olhando para a tela.

Meu primeiro impulso foi dizer não.

Mas havia algo que eu também queria encerrar de forma consciente.

Escrevi:

“Não quando eu voltar. Agora. Cinco minutos.”

O telefone tocou quase imediatamente.

Atendi.

— Oi.

A voz de Rafael veio baixa.

— Obrigado.

— Você tem cinco minutos.

Ele soltou um pequeno suspiro.

— Justo.

Olhei pela janela.

Luzes da pista brilhavam do lado de fora.

— Eu não vou pedir para você voltar — disse ele.

— Ótimo começo.

Ele riu muito baixo.

Depois ficou sério.

— Eu só quero dizer uma coisa que devia ter dito antes do divórcio.

O aviso para desligar os celulares começou a ecoar pela cabine.

— Então diga.

Rafael respirou fundo.

— Você tinha razão quando disse que estava cansada de ser a pessoa que sustentava tudo.

A comissária começou a caminhar pelo corredor.

— Rafael…

— Eu sei. É a última coisa.

Ele continuou:

— Eu achei que, porque você conseguia, era justo deixar você fazer.

Olhei para minhas mãos.

— E não era.

— Não.

Pela primeira vez, aquela resposta não veio acompanhada de “mas”.

— Eu queria que tivesse entendido antes — falei.

— Eu também.

A comissária se aproximou.

— Preciso desligar.

— Lívia.

— Fala.

— Boa viagem.

Sorri, quase sem perceber.

— Obrigada.

Desliguei.

Mas, enquanto colocava o celular no modo avião, percebi que aquela conversa ainda não tinha sido o fim.

Faltava uma última coisa que eu precisava dizer.

Não para ele.

Para mim mesma.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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