
Parte 8
Na véspera da assinatura, o vídeo do acidente de Helena voltou a circular nas redes sociais.
Eu soube porque Marina me mandou uma mensagem.
“Não abre os comentários.”
Obviamente, isso significava que os comentários estavam ruins.
Ainda assim, não abri.
O vídeo era o mesmo que eu tinha visto no hospital: Caio no set, furioso, cobrando explicações da equipe depois que Helena se machucou. Alguém tinha recuperado a gravação e publicado junto com uma matéria relembrando os rumores antigos entre os dois.
Dessa vez, porém, havia uma informação nova para o público.
Caio e eu estávamos separados.
Não sabia quem havia confirmado a separação. Talvez alguém tivesse percebido que eu já não aparecia com ele havia semanas. Talvez fosse simples especulação.
Pouco importava.
Meu celular começou a receber mensagens de conhecidos.
Algumas pessoas perguntavam se eu estava bem.
Outras fingiam preocupação enquanto tentavam descobrir detalhes.
Marina veio ao meu apartamento naquela noite.
— Quer que eu peça para alguém do hospital denunciar as postagens?
— Não.
— Lara, estão falando um monte de besteira.
— Sempre falaram.
Ela sentou no sofá.
— Agora estão colocando você no meio.
— Eu sei.
— E você não vai fazer nada?
— Vou assinar meu divórcio amanhã.
Marina ficou quieta.
Depois sorriu de lado.
— Essa foi uma resposta irritantemente adulta.
— Aprendi com uma médica que mandou uma paciente fingir que estava pior para testar o marido.
Ela levou a mão ao peito.
— Eu ainda me arrependo daquela genialidade.
Nós duas rimos.
Foi a primeira vez que consegui brincar com o assunto sem sentir vergonha.
Mais tarde, Caio ligou.
Pensei em não atender, mas a assinatura seria no dia seguinte e poderia haver alguma questão prática.
— Oi.
— Você viu o vídeo?
— Vi que voltou a circular.
— Minha equipe quer publicar uma nota.
— Certo.
— Quero perguntar uma coisa antes.
Esperei.
— Você quer que mencionem nossa separação?
A pergunta me surpreendeu.
— Não.
— Eu imaginei.
— Então por que perguntou?
— Porque meu silêncio ajudou a criar problemas antes. Não quero decidir sozinho sobre algo que também envolve você.
Fechei os olhos por um instante.
Era exatamente o tipo de consideração que eu tinha pedido tantas vezes.
— Obrigada por perguntar.
— Vou deixar seu nome fora disso.
— Ótimo.
A nota foi publicada algumas horas depois.
Era curta.
O Grupo Queiroz esclarecia apenas que Caio e Helena mantinham relação profissional ligada à produção cinematográfica e que especulações sobre a vida pessoal dos envolvidos não correspondiam a informações fornecidas pela empresa. Não havia meu nome.
Pouco depois, a assessoria de Helena divulgou uma declaração semelhante.
Nada de confissões.
Nada de escândalo.
Nenhuma revelação secreta.
Apenas limites que poderiam ter existido desde o início.
Marina leu a nota no celular.
— Se ele tivesse feito isso meses atrás…
— Eu sei.
— Você teria ficado?
Olhei para ela.
— Não sei.
E era verdade.
Talvez uma postura diferente tivesse evitado algumas brigas. Talvez não. Talvez o problema já fosse mais profundo do que Helena.
Eu não precisava reconstruir todas as versões possíveis do passado.
— O que eu sei — continuei — é que ele não fez.
Marina assentiu.
— Justo.
Depois que ela foi embora, desliguei as notificações das redes sociais.
Não porque tivesse medo de ler.
Porque finalmente entendia que a opinião de desconhecidos não poderia decidir se meu casamento tinha sido feliz ou infeliz.
Eles tinham um vídeo.
Eu tinha vivido os anos inteiros.
Na manhã seguinte, Caio mandou apenas o endereço e o horário confirmados pelo advogado.
Sem frases emocionais.
Sem pedido para conversarmos antes.
Tomei café, arrumei o cabelo e escolhi uma roupa simples.
Não queria transformar aquele dia numa cerimônia.
Também não queria tratá-lo como algo insignificante.
Era o encerramento de uma etapa importante da minha vida.
Antes de sair, encontrei minha aliança numa pequena caixa dentro da gaveta.
Eu havia parado de usá-la depois que me mudei, mas ainda não tinha decidido o que fazer com ela.
Segurei o anel por alguns segundos.
Lembrei do dia em que Caio o colocou no meu dedo.
Naquela época, eu acreditava que prometer ficar era a parte mais difícil de um casamento.
Hoje sabia que não.
Mais difícil era reconhecer quando permanecer significava abandonar a si mesma.
Coloquei a aliança de volta na caixa.
Não precisava devolvê-la teatralmente.
Não precisava jogá-la fora.
Era apenas um objeto ligado a uma história que estava terminando.
Quando cheguei ao local marcado, Caio já estava esperando.
Ele estava em pé perto da entrada, segurando uma pasta.
Nossos advogados também haviam chegado.
Caio me viu.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Então ele se aproximou.
— Oi.
— Oi.
— Você está bem?
— Estou.
Ele assentiu.
— Eu também.
Nós dois sabíamos que não era totalmente verdade.
Mas, pela primeira vez, aquela pequena mentira não tinha a intenção de manipular ninguém.
Era apenas uma forma humana de atravessar um momento difícil.
O advogado explicou que precisávamos revisar a versão final antes da formalização. Entramos numa sala e passamos pelos pontos principais mais uma vez.
Tudo correspondia ao que tinha sido combinado.
Não havia novos conflitos.
Quando terminamos, o profissional fechou a pasta.
— Está certo. Agora só falta a etapa final.
Caio olhou para mim.
Eu sustentei o olhar.
Nenhum de nós precisava perguntar o que isso significava.
Em poucas horas, aquilo que antes era usado como ameaça durante uma discussão se tornaria uma decisão formal.
E, dessa vez, nenhum de nós poderia fingir que a palavra “divórcio” não tinha peso.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














