
Parte 10
Caio manteve a caneta entre os dedos por alguns segundos.
Ninguém o apressou.
Eu também não.
Depois de tudo que havíamos vivido, eu não queria que o fim do nosso casamento fosse registrado como mais uma disputa em que alguém precisava ceder primeiro.
Ele baixou os olhos.
E assinou.
O som da caneta deslizando sobre o papel foi quase imperceptível.
Ainda assim, senti como se alguma coisa pesada tivesse finalmente encontrado um lugar onde pousar.
Os documentos foram conferidos.
Recebemos as orientações finais.
Nossos advogados conversaram brevemente sobre os últimos procedimentos administrativos que ainda precisariam ser concluídos.
Nada mudou de forma mágica no instante da assinatura.
Eu continuava sendo eu.
Caio continuava sendo Caio.
A dor não desapareceu.
Mas a decisão agora estava tomada de uma maneira que nenhum de nós poderia usar como ameaça.
Quando saímos, ficamos parados na calçada.
Os advogados se despediram e seguiram para direções diferentes.
Por alguns instantes, permanecemos sozinhos.
Caio olhou para o trânsito.
— Então é isso.
— É.
— Eu pensei em muitas coisas para dizer hoje.
— Imagino.
— Agora nenhuma parece servir.
Esperei.
Ele enfiou as mãos nos bolsos.
— Desculpa, Lara.
Aquelas duas palavras poderiam ter sido vagas.
Mas ele continuou.
— Desculpa por usar o divórcio contra você. Desculpa por fazer você acreditar que precisava competir por espaço comigo. Desculpa por tratar suas perguntas como ciúme quando algumas eram pedidos legítimos de limite.
Minha garganta apertou.
Caio respirou.
— E desculpa por só aprender a ouvir quando você já estava indo embora.
Não chorei imediatamente.
Talvez porque tivesse esperado tanto tempo por aquelas palavras que agora elas não pareciam uma solução.
Pareciam apenas verdade.
— Eu também sinto muito — respondi.
Ele me olhou.
— Por quê?
— Pela mentira no hospital. Por transformar medo em teste. Por achar que eu precisava criar uma situação para descobrir se você se importava comigo.
— Eu me importava.
— Eu sei.
E sabia mesmo.
Aquilo era uma das coisas mais difíceis de aceitar.
Caio não tinha sido um homem incapaz de sentir qualquer coisa por mim.
Ele tinha me amado do jeito dele.
O problema era que amor, sozinho, não impedia alguém de ser negligente, egoísta ou cruel em momentos importantes.
— Eu queria que você tivesse acreditado nisso — disse.
— Eu também.
— Talvez a gente tivesse chegado em outro lugar.
— Talvez.
Não tentei transformar aquele “talvez” numa porta.
Caio percebeu.
— Você acha que algum dia vai me perdoar?
Pensei.
— Acho que já comecei.
Ele pareceu surpreso.
— Então por que…
Sorri de leve.
— Perdoar não significa voltar.
Ele baixou os olhos.
— Eu ainda estou aprendendo isso.
— Eu também.
Um carro parou perto da calçada.
Era o transporte que eu tinha chamado.
Caio olhou para ele e depois para mim.
— Posso perguntar uma coisa que não tem nada a ver com voltar?
— Pode.
— Você está bem naquele apartamento?
A pergunta era tão comum que quase me fez rir.
— Estou.
— Ainda acha a cozinha pequena?
Eu tinha comentado isso uma vez durante uma conversa sobre os documentos.
— Continuo achando.
— E mesmo assim gosta?
— Muito.
Ele sorriu.
Dessa vez, eu também.
— Então está bem — disse Caio.
Peguei a caixa com as últimas coisas que ele havia me devolvido.
— Cuida de você.
— Você também.
Dei dois passos em direção ao carro.
Caio me chamou.
Virei.
Ele não correu até mim.
Não pediu mais uma chance.
Não fez promessa alguma.
Apenas disse:
— Eu espero que você nunca mais precise mentir para descobrir se alguém vai ficar.
Por alguns segundos, não consegui responder.
Depois assenti.
— E eu espero que você nunca mais precise ameaçar ir embora para descobrir se alguém vai atrás.
Ele entendeu.
Entrei no carro.
Enquanto seguíamos pela avenida, não olhei para trás.
Nos meses seguintes, minha vida se tornou surpreendentemente comum.
E foi exatamente disso que eu precisava.
Trabalhei.
Encontrei Marina.
Comprei uma mesa maior para a sala.
Aprendi onde o sol entrava no apartamento pela manhã e qual janela precisava ficar fechada quando chovia forte.
Não comecei um grande romance.
Não viajei para outro continente.
Não fiquei rica de repente.
Minha vida simplesmente deixou de girar em torno da pergunta: “O que Caio está fazendo?”
No início, ainda lembrava dele quando via alguma notícia sobre o Grupo Queiroz.
Depois, cada vez menos.
Helena continuou trabalhando.
O filme foi concluído.
Não acompanhei entrevistas nem procurei descobrir se ela e Caio mantiveram amizade depois do projeto.
Já não era uma resposta de que eu precisava.
Caio respeitou a distância.
Não mandava mensagens sentimentais de madrugada.
Não aparecia na minha porta.
Quando precisávamos resolver algum detalhe final relacionado aos documentos, conversávamos de forma educada e direta.
Certa tarde, ele enviou uma mensagem avisando que uma correspondência antiga minha tinha chegado à casa.
“Posso mandar para o seu endereço?”
Respondi:
“Pode. Obrigada.”
Ele escreveu:
“De nada.”
Só isso.
Fiquei olhando para a conversa.
Meses antes, qualquer mensagem dele teria feito meu coração se encher de expectativa, raiva ou medo.
Naquele dia, coloquei o celular sobre a mesa e continuei preparando o jantar.
Foi quando percebi que a separação tinha deixado de ser o centro da minha vida.
Numa sexta-feira, Marina apareceu com comida e insistiu em escolher alguma coisa para assistirmos.
Acabamos colocando um programa de entretenimento absurdo.
Em determinado momento, comecei a rir tanto que minha barriga doeu.
Marina olhou para mim.
— O que foi?
— Nada.
— Você está rindo sozinha faz cinco minutos.
— O programa é ridículo.
Ela começou a rir também.
Por um instante, lembrei da noite em que Caio tinha me encontrado diante da televisão e pedido que eu fosse a um casamento como sua esposa.
Naquela época, eu achava que sair daquele relacionamento significaria perder uma parte enorme de mim.
Agora entendia o contrário.
Eu tinha passado tanto tempo tentando preservar o casamento que quase não percebi quanto de mim mesma estava deixando para trás.
Não odiava Caio.
Também não precisava fingir que nossa história nunca tinha existido.
Houve amor.
Houve erros.
Houve momentos bons.
E houve um ponto em que permanecer começou a custar mais do que partir.
Naquela noite, depois que Marina foi embora, fechei a porta do apartamento e caminhei até a sala.
A cidade brilhava do outro lado da janela.
Minha casa era pequena.
A cozinha continuava apertada.
A estante ainda tinha espaço sobrando.
Mas nenhuma parte daquele lugar parecia provisória.
Eu não estava esperando alguém decidir se eu podia ficar.
Não estava tentando provar que merecia atenção.
Não estava vivendo como hóspede na vida de outra pessoa.
Sentei no sofá e voltei a assistir ao programa.
E, enquanto ria novamente, percebi que recuperar o direito de decidir por mim mesma não tinha sido o fim da minha história.
Era o começo de uma vida em que eu finalmente voltava a me pertencer.
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