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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

Vera chegou no domingo pouco depois das três da tarde. Trazia uma bolsa pequena e uma expressão que eu já conhecia bem: a de quem havia passado o caminho inteiro preparando argumentos. Renato abriu a porta e nós três nos sentamos na sala.

Ninguém ofereceu uma introdução confortável.

Foi Vera quem começou.

— Eu não vim brigar.

— Melhor assim — Renato respondeu.

Ela lançou um olhar breve para o filho e depois para mim.

— Eu vim porque não quero continuar vivendo como se tivesse cometido um crime.

— Ninguém disse isso — falei.

— Mas é assim que parece.

Vera explicou que, quando Patrícia teve a bebê, entrou imediatamente no modo de mãe preocupada. Via a filha com dificuldade para levantar, ainda sentindo dores, e só pensava em facilitar tudo.

— O quarto de vocês tinha banheiro. Para mim, era óbvio.

— Para você — respondi.

Ela assentiu, ainda contrariada.

— Sim. Para mim.

Era a primeira concessão.

Renato se inclinou um pouco para frente.

— Mãe, ninguém está dizendo que você quis prejudicar a Sofia.

— Então por que tudo virou um problema tão grande?

Ele respirou fundo.

— Porque eu tratei a opinião dela como algo desnecessário.

Vera começou a falar, mas Renato continuou.

— Você sugeriu trazer a Patrícia. Eu concordei antes de falar com a Sofia. A Patrícia reclamou do quarto de hóspedes, eu ofereci o escritório da Sofia. Você falou do banheiro, eu ofereci nosso quarto. E quando faltou lugar para a Sofia, eu sugeri o sofá.

Vera franziu a testa.

— Você fala como se tivesse jogado sua esposa na rua.

— Não joguei.

Ele olhou para mim.

— Mas eu precisei vê-la saindo por conta própria para perceber que estava agindo como se ela fosse a única pessoa naquela casa que nunca tinha direito de dizer não.

Eu não havia pedido que Renato fizesse aquele discurso.

Talvez por isso tenha sido tão importante ouvi-lo.

Vera ficou em silêncio.

Depois me perguntou:

— Você realmente teria aceitado que Patrícia ficasse aqui se tivessem perguntado?

— Muito provavelmente.

— E talvez até o quarto?

— Talvez. Se nós dois conversássemos e encontrássemos uma organização em que ninguém simplesmente decidisse que eu dormiria no sofá durante um mês.

Ela baixou os olhos.

— Eu achei que você fosse mais flexível.

— Eu sou.

— Então…

— Ser flexível não significa não ter limite.

Vera recostou-se.

Por alguns instantes, parecia procurar uma resposta.

— Na minha época, a gente não pensava tanto nessas coisas.

— Eu sei — disse Renato. — Mas isso não significa que funcionava melhor.

Ela lançou um olhar duro para o filho.

— Agora eu sou o exemplo de tudo que vocês não querem?

— Não.

Renato manteve a voz calma.

— A senhora é minha mãe. Eu amo a senhora. Mas meu casamento não pode funcionar do mesmo jeito que a senhora organizava nossa casa quando eu era criança.

Vera ficou quieta.

A conversa não terminou com abraço.

Ela não pediu desculpas de maneira dramática nem reconheceu repentinamente todos os próprios erros. Apenas disse que tentaria não interferir tanto, embora considerasse que nós dois também exagerávamos algumas coisas.

Eu aceitei o limite daquela conversa.

Nem toda mudança precisava vir acompanhada de plena concordância.

Antes de ir embora, Vera parou perto da porta.

— Sofia.

— Sim?

— Eu ainda acho que você podia ter falado comigo antes de sair.

Olhei para ela.

— Talvez. E vocês também podiam ter falado comigo antes de organizar minha casa.

Ela abriu a boca, depois fechou.

Por fim, assentiu de leve.

Não era exatamente um pedido de desculpas.

Mas também não era uma nova acusação.

Depois que ela saiu, Renato fechou a porta e ficou encostado nela por alguns segundos.

— Estou exausto.

— Eu também.

Ele veio para a sala e sentou ao meu lado.

— Você acha que isso algum dia vai deixar de ser assunto?

Pensei.

— Vai deixar de ser ferida. Talvez continue sendo lembrança.

Ele segurou minha mão.

— Justo.

Naquela noite, fizemos algo que não fazíamos desde antes da chegada de Patrícia: planejamos o mês seguinte.

Falamos sobre trabalho, despesas da casa, um fim de semana que queríamos passar fora e pequenas coisas que precisavam ser resolvidas no apartamento.

Nada parecia extraordinário.

Ainda assim, cada vez que Renato perguntava “o que você acha?”, eu percebia a diferença.

E eu também precisava mudar.

Em certo momento, ele sugeriu trocar a mesa da sala por uma menor. Minha reação automática foi dizer que tanto fazia.

Parei.

— Na verdade, eu gosto dessa.

Renato sorriu.

— Então fica.

Foi quase ridículo o quanto aquele pequeno diálogo significou para mim.

Eu estava aprendendo a dizer preferências antes que elas virassem ressentimentos. Renato estava aprendendo a ouvi-las antes de transformar decisões em fatos.

Na terça-feira, recebi uma mensagem de Patrícia com uma foto da bebê dormindo.

“Finalmente três horas seguidas”, escreveu.

Respondi com um elogio e perguntei como ela estava.

“Cansada, mas bem. E em casa.”

Depois acrescentou:

“Obrigada por não ter desistido de todo mundo por nossa causa.”

Olhei para a frase por bastante tempo antes de responder.

“Eu quase desisti de algumas coisas. Mas estou tentando entender quais precisam acabar e quais precisam mudar.”

Ela enviou um coração.

Eu não queria transformar nosso episódio numa história simples em que algumas pessoas estavam completamente erradas e outra completamente certa.

Renato havia errado.

Vera ultrapassara limites.

Patrícia aceitara vantagens sem pensar em mim.

E eu passara tempo demais confundindo paz com silêncio.

No final daquela semana, devolvi a última chave do apartamento temporário.

Quando voltei para casa, Renato estava preparando o jantar.

Coloquei minha bolsa sobre a cadeira.

— Acabou oficialmente o aluguel.

Ele se virou.

— Então você voltou de verdade?

Olhei ao redor.

Meu escritório estava no lugar. Nosso quarto estava no lugar. A casa parecia igual à de antes, mas as regras invisíveis que existiam dentro dela tinham mudado.

— Voltei.

Renato sorriu e veio na minha direção.

Antes de me abraçar, porém, perguntou:

— Posso?

Eu ri.

— Para abraço você não precisa preencher formulário.

Ele me puxou para perto.

Naquela noite, compreendi que a última etapa não seria descobrir se Renato conseguia pedir desculpas.

Seria descobrir se nós dois conseguiríamos manter as mudanças quando ninguém estivesse mais com medo de perder o outro.

Porque promessas feitas no meio de uma crise são fáceis.

O verdadeiro teste começa quando a rotina volta.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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