
PARTE 7
O mês de resguardo de Patrícia se aproximava do fim, e a atmosfera dentro da casa mudou novamente. Ela já caminhava com muito mais facilidade, cuidava da bebê com maior segurança e começou a falar sobre voltar para o próprio lar. Vera, ao contrário, reagia a cada menção ao assunto como se a filha estivesse prestes a enfrentar sozinha uma situação impossível.
Patrícia me ligou numa terça-feira.
— Meu marido vai organizar as coisas para eu voltar no fim de semana — contou.
— Você se sente pronta?
— Acho que sim. Ele também vai ajustar os horários dele por uns dias para me ajudar mais.
A decisão me pareceu natural. Não era uma fuga da tensão em nossa casa, embora aquela tensão certamente tivesse influenciado Patrícia a pensar com mais cuidado sobre quanto tempo pretendia permanecer ali.
— E sua mãe?
Ela soltou uma risada cansada.
— Você já sabe.
Vera defendia que a filha ficasse pelo menos mais duas semanas. Renato, no entanto, sustentou o que havia dito.
— Se a Patrícia quiser ficar mais tempo por necessidade, nós conversamos — explicou à mãe. — Mas se ela quer voltar e consegue se organizar, não vou insistir para que fique.
— “Nós conversamos” — Vera repetiu com ironia. — Desde quando você precisa de autorização para ajudar sua própria irmã?
Renato me contou depois como havia respondido.
— Desde que eu entendi que ajudar alguém usando a casa de outra pessoa sem consultá-la não é exatamente ajuda.
Vera não gostou.
Mas também não conseguiu fazê-lo voltar atrás.
Quando fui buscar algumas roupas na quinta-feira, ela estava lá. O encontro era inevitável.
— Então você conseguiu o que queria — disse assim que ficamos frente a frente.
Patrícia, que estava na sala, ficou tensa.
Eu coloquei a bolsa sobre uma cadeira.
— O que exatamente você acha que eu queria?
— Minha filha está indo embora, meu filho agora mede cada palavra antes de ajudar a família, e você passou semanas fora de casa para provar um ponto.
Respirei fundo.
— Sua filha está voltando para a própria casa porque se sente pronta. Seu filho está aprendendo a conversar com a esposa antes de tomar decisões que afetam os dois. Se isso parece uma derrota para alguém, não fui eu quem criou essa ideia.
— Você colocou Renato contra a família.
Antes que eu respondesse, ele apareceu no corredor.
— Não, mãe.
Vera virou-se.
— Não se meta.
— É justamente sobre mim que vocês estão falando.
Ele ficou ao meu lado, não na minha frente.
Aquilo importou.
— A Sofia não me colocou contra ninguém — continuou. — Eu errei quando trouxe a Patrícia para cá sem conversar com ela. Errei quando tirei o escritório dela e errei quando falei que ela podia dormir no sofá como se fosse uma coisa normal.
Vera olhou para o filho como se não reconhecesse aquela versão dele.
— Você só fala assim porque ela foi embora e deixou você com medo.
— Talvez eu tenha precisado ficar com medo para perceber o que estava fazendo.
Ninguém respondeu imediatamente.
Patrícia foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Mãe, chega.
Vera se voltou para a filha.
— Eu só estou defendendo vocês.
— Eu sei. Mas ninguém aqui precisa que você transforme tudo em uma escolha entre quem ama mais quem.
A expressão de Vera mudou.
Pela primeira vez desde o início de toda aquela situação, os dois filhos estavam dizendo a ela a mesma coisa sem combinar.
Eu não senti satisfação.
Senti cansaço.
Peguei as roupas que precisava e fui embora antes que a discussão continuasse.
Na noite seguinte, Renato veio ao apartamento. Sentamos à mesa pequena da cozinha e conversamos sobre o que aconteceria depois que Patrícia saísse.
— Eu quero que você volte — disse.
— Eu sei.
— Mas não quero que você volte porque o problema prático acabou.
Era exatamente a frase que eu precisava ouvir.
Perguntei o que ele imaginava para nós.
Renato havia pensado em algumas regras simples. Nenhuma visita prolongada seria combinada sem que ambos concordassem. Espaços compartilhados não seriam oferecidos a terceiros por decisão unilateral. Problemas com nossas famílias seriam conversados entre nós antes que um de nós prometesse qualquer coisa.
— Parece básico quando eu falo em voz alta — admitiu.
— Porque é básico.
— E mesmo assim eu não fiz.
Assenti.
Eu também tinha coisas a mudar.
Durante anos, muitas vezes concordara com pequenas decisões apenas para evitar desgaste. Não era culpada pelo que ele havia feito, mas percebia que meu hábito de engolir desconfortos também escondia de Renato a dimensão de certos limites até que fossem ultrapassados.
— Eu quero parar de dizer “tudo bem” quando não estiver tudo bem — falei.
— Eu prefiro.
— Mesmo quando você não gostar?
Ele pensou.
— Principalmente aí.
No sábado, o marido de Patrícia foi buscá-la.
Renato ajudou a levar malas, bolsas e as coisas da bebê. Vera supervisionou tudo com uma expressão fechada.
Antes de sair, Patrícia veio até mim.
— Obrigada por não transformar isso numa guerra comigo.
— Eu fiquei magoada com você também.
— Eu sei.
— Mas você assumiu sua parte.
Ela assentiu.
— Eu devia ter feito antes.
Nos abraçamos com cuidado.
Não viramos melhores amigas naquele instante. Ainda havia desconforto e lembranças desagradáveis, mas a relação deixou de ser uma disputa silenciosa.
Quando a porta se fechou depois que Patrícia saiu, a casa pareceu enorme.
O quarto de hóspedes estava vazio outra vez. Meu escritório estava intacto. O quarto principal era nosso.
Renato se sentou no sofá.
O mesmo sofá.
Eu parei diante dele.
— Engraçado — ele disse. — Antes parecia grande.
— Experimente dormir nele uma semana.
— Prefiro não descobrir.
Sentei ao lado dele.
Ficamos em silêncio.
Depois Renato perguntou:
— Você vai ficar hoje?
Olhei ao redor.
Durante semanas, eu imaginara aquele momento como o ponto em que finalmente decidiria se voltava ou não.
Mas agora entendi que voltar não precisava significar apagar o que aconteceu.
— Hoje, sim.
Ele segurou minha mão.
— E amanhã?
— Amanhã a gente decide amanhã.
Renato sorriu.
Naquela noite, eu dormi em casa novamente.
Não porque Patrícia tivesse ido embora.
Não porque Vera tivesse perdido uma discussão.
E muito menos porque um mês finalmente tivesse passado.
Eu dormi ali porque, pela primeira vez desde o começo de tudo, permanecer naquela casa também era uma decisão minha.
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