
PARTE 2
Renato ficou parado diante do sofá como se somente naquele instante tivesse percebido o significado da própria sugestão. — Você não precisa fazer isso agora — disse ele. — Pode colocar suas coisas no quarto de hóspedes. Olhei para a porta daquele quarto, onde parte das coisas de Patrícia já estava acumulada, e perguntei apenas: — E você vai dormir onde?
Ele demorou um pouco para responder. Disse que podia se virar no quarto de hóspedes, mesmo com as caixas e bolsas, e que aquilo seria temporário. Assenti sem discutir. Naquela noite, ele foi para lá, enquanto eu permaneci na sala exatamente onde ele havia dito que eu poderia ficar.
Eu quase não dormi. Não era apenas por causa do sofá, mas dos passos atravessando o corredor, do bebê chorando duas vezes e da sensação estranha de estar dentro da minha própria casa sem ter mais um espaço que realmente fosse meu. Às cinco e meia da manhã, desisti de tentar descansar.
Levantei, tomei banho no banheiro social e comecei a colocar mais algumas roupas na mala. Separei também o computador, documentos de trabalho, carregadores e os objetos pessoais de que precisaria durante algumas semanas. Não fiz barulho nem acordei ninguém.
Quando Vera entrou na cozinha pouco depois das sete, encontrou minha mala ao lado da porta. Renato apareceu alguns minutos depois, ainda com o cabelo bagunçado de sono. Patrícia permaneceu sentada à mesa com a bebê nos braços.
— Você vai viajar? — Renato perguntou. — Não — respondi. — Vou ficar em outro lugar por enquanto.
Os três me olharam ao mesmo tempo. Expliquei que não pretendia discutir sobre a presença de Patrícia nem impedir que ela usasse o quarto principal. Como aquela organização tinha sido decidida sem a minha participação, eu também tomaria uma decisão prática para mim: alugaria um apartamento mobiliado por algumas semanas e trabalharia de lá.
— Sofia, isso é exagero — Vera reagiu imediatamente. — Ninguém está expulsando você. — Eu sei — respondi. — Mas dormir durante um mês num sofá para facilitar uma decisão que eu nem ajudei a tomar não funciona para mim.
Renato puxou uma cadeira, mas não chegou a se sentar. — A gente pode reorganizar tudo. Eu achei que você estava de acordo. — Eu concordei em ceder o quarto — falei. — Não disse que estava confortável com a forma como tudo foi decidido.
Patrícia abaixou os olhos para a filha. Vera começou a dizer que uma mulher recém-operada precisava ser tratada com compreensão, mas eu não discordei. Apenas esclareci que minha saída não mudaria os cuidados com Patrícia e que eu não estava pedindo que ela deixasse o quarto.
— Então você está fazendo isso para me punir? — Renato perguntou. — Não. Estou fazendo porque preciso dormir, trabalhar e ter um lugar onde eu não dependa da boa vontade dos outros para saber onde posso ficar.
O silêncio que veio depois foi muito mais desconfortável do que uma briga teria sido. Renato percebeu que eu já havia tomado a decisão. Ele pediu que eu esperasse até a noite para conversarmos, mas respondi que poderíamos conversar quando estivéssemos mais calmos.
Antes de sair, fui até Patrícia. Perguntei se ela estava bem e se precisava de alguma coisa que eu pudesse comprar no caminho. Ela me olhou surpresa e respondeu que não.
Peguei minha mala e minha bolsa de trabalho. Renato veio até a porta comigo e segurou a maçaneta sem abri-la de imediato. — Você vai voltar? — perguntou em voz baixa.
Olhei para ele antes de responder. — Esta continua sendo a minha casa, Renato. A questão é descobrir se você ainda entende que decisões sobre ela também precisam passar por mim. Então abri a porta, peguei minha mala e saí.
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