
PARTE 4
Nos dois dias seguintes, Renato não insistiu para que eu voltasse. Mandava uma mensagem pela manhã e outra à noite, quase sempre simples. Perguntava se eu havia comido, se o trabalho estava muito pesado ou se poderíamos conversar quando eu tivesse tempo. Eu respondia, mas mantinha certa distância porque precisava descobrir se aquela cautela era compreensão ou apenas medo de me perder.
No sábado de manhã, ele pediu para me encontrar fora de casa. Escolhemos uma cafeteria tranquila. Cheguei alguns minutos antes e, quando Renato entrou, percebi de imediato que ele parecia mais cansado do que na última vez em que nos vimos.
Ele sentou diante de mim, pediu café e ficou algum tempo mexendo na colher sem dizer nada. Eu não o apressei. Durante três anos de casamento, eu quase sempre preenchera nossos silêncios antes que eles se tornassem desconfortáveis; daquela vez, deixei que ele fosse responsável pela própria fala.
— Eu pensei no que você disse — começou finalmente.
Assenti.
— E?
— No começo, eu fiquei com raiva. Achei que você estava levando uma coisa pequena longe demais. Depois tentei pensar nas três decisões que você mencionou.
Ele enumerou uma por uma. Primeiro, havia convidado Patrícia para passar o resguardo conosco porque sua mãe estava preocupada e porque ele tinha certeza de que eu não me oporia. Em seguida, quando a irmã reclamou do quarto de hóspedes, ele oferecera meu escritório porque considerou que eu poderia trabalhar em outro lugar por algumas semanas. Quando surgiu a questão do banheiro, entregou o quarto principal pela mesma lógica.
— Em todas elas — disse — eu pensei no que era mais fácil para todo mundo.
— Não para todo mundo.
Ele assentiu lentamente.
— É. Para elas. E para mim.
A resposta me surpreendeu.
Renato explicou que, durante toda a vida, aprendera a evitar conflitos com Vera cedendo rapidamente às exigências dela. Como Patrícia era a filha que a mãe mais protegia, qualquer problema envolvendo a irmã costumava ser resolvido do modo mais conveniente para Patrícia. Ele crescera tratando isso como algo normal.
— E como você nunca reclama muito… — continuou.
Eu quase ri, mas não havia graça.
— Você decidiu que eu era o caminho de menor resistência.
— Foi o que eu fiz.
Ele não tentou enfeitar a frase.
Aquilo não apagava o que tinha acontecido, mas mudou a conversa. Até então, Renato sempre explicava suas escolhas citando a cirurgia de Patrícia, o bebê ou a duração de apenas um mês. Pela primeira vez, falava sobre a própria responsabilidade.
— Ontem minha mãe perguntou quando você voltaria — contou. — Eu disse que não sabia.
— O que ela respondeu?
— Que eu devia parar de alimentar seu orgulho e mandar você voltar para casa.
Ergui as sobrancelhas.
— E o que você disse?
Renato demorou um pouco.
— Que eu não podia mandar você fazer nada.
Era uma frase simples. Ainda assim, eu sabia que dizer aquilo a Vera não devia ter sido fácil para ele.
— Depois ela disse que você estava criando problema para uma mulher que acabou de ter bebê.
— Eu nunca pedi para Patrícia sair.
— Eu falei isso.
Olhei para ele com atenção.
— Renato, sua mãe pode discordar de mim. Eu não preciso que ela goste da minha decisão. Mas eu preciso saber se, quando nós dois tomarmos uma decisão sobre nosso casamento, você vai conseguir sustentá-la sem mudar de posição só porque ela não gostou.
Ele ficou sério.
— Eu não sei se consigo mudar isso de uma hora para outra.
A sinceridade dele me pareceu mais valiosa do que uma promessa perfeita.
— Eu também não espero mudança em uma hora.
Contei que havia estendido a estadia no apartamento por mais duas semanas. Ele respirou fundo ao ouvir.
— Então você não vai voltar agora.
— Não.
— Mesmo depois desta conversa?
— Esta conversa é o começo, Renato. Não é a solução.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Eu sinto sua falta.
A frase me atingiu, porque eu também sentia falta dele. Sentia falta de acordar ao seu lado, de dividir o jantar depois do trabalho, de comentar qualquer bobagem antes de dormir. Mas saudade não corrigia aquilo que nos trouxera até ali.
— Eu também sinto — admiti. — Só que sentir falta não significa que eu deva correr de volta para a mesma situação.
Ele não insistiu.
Quando saímos da cafeteria, caminhamos juntos até meu carro. Antes de eu entrar, Renato perguntou se poderia me abraçar.
Hesitei por alguns segundos, depois deixei.
Não foi um abraço de reconciliação. Foi apenas o abraço de duas pessoas que ainda se amavam, mas haviam descoberto que amor e respeito não eram automaticamente a mesma coisa.
No domingo, Renato começou a mudar algumas coisas em casa sem me pedir que voltasse em troca. Tirou as caixas de Patrícia do meu escritório e encontrou espaço para elas no quarto de hóspedes e em um armário no corredor. Depois me mandou uma foto da mesa novamente livre.
Não respondi com entusiasmo.
Escrevi apenas: “Obrigada por devolver meu espaço.”
Ele respondeu: “Eu devia ter perguntado antes de tirar.”
Naquela tarde, Patrícia me ligou pela primeira vez desde que eu havia saído.
Fiquei alguns segundos olhando para o nome dela na tela antes de atender.
A voz saiu baixa.
— Sofia, posso falar com você?
— Pode.
Ela demorou a começar.
— Eu queria pedir desculpas pelo escritório.
Não respondi imediatamente.
— Eu reclamei da luz do quarto — continuou. — E o Renato disse que podia colocar minhas coisas lá. Eu aceitei sem pensar em você.
— E o quarto principal?
O silêncio dela durou mais.
— Minha mãe disse que seria melhor por causa do banheiro. Eu disse que não sabia se era certo. O Renato falou que você concordaria.
— E quando eu concordei?
— Eu fiquei aliviada.
A honestidade dela doeu mais do que uma desculpa pronta teria doído.
— Patrícia, eu não estou com raiva porque você teve uma cesárea ou porque precisa de conforto.
— Eu sei.
— Estou magoada porque três pessoas decidiram como usar a minha casa e todos presumiram que eu me adaptaria.
Ela respirou fundo.
— Eu entendi isso depois que você saiu.
Não resolvemos nossa relação naquela ligação, mas algo mudou. Até então, o conflito era tratado dentro daquela casa como se eu tivesse abandonado uma mulher vulnerável por causa de um quarto. Patrícia acabava de reconhecer que havia algo maior acontecendo.
Na segunda-feira, Renato me contou que a irmã havia pedido para retornar ao quarto de hóspedes.
— E o que você disse?
— Que ela não precisa se machucar para provar nada. Mas também falei que essa decisão não pode continuar sendo tomada em cima do que é seu.
— E sua mãe?
Ele riu sem humor.
— Não gostou.
Eu podia imaginar.
Mesmo assim, não senti vontade de comemorar. O objetivo nunca fora derrotar Vera ou obrigar Patrícia a abrir mão de conforto. O que eu precisava saber era se Renato conseguia agir diferente quando a opção mais fácil continuava sendo me pedir para ceder.
Naquela noite, ele me mandou outra mensagem.
“Patrícia decidiu continuar no quarto principal até estar melhor para se movimentar. Eu disse que tudo bem. Mas também disse à minha mãe que, quando isso terminar, qualquer outra mudança na casa será decidida por nós dois.”
Li duas vezes.
Depois respondi:
“É assim que deveria ter sido desde o começo.”
Renato escreveu apenas:
“Eu sei.”
Era pouco.
Mas, pela primeira vez, ele não estava tentando apagar as consequências. Estava começando a viver com elas.
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