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LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

PARTE 10

Os meses seguintes mostraram que a nossa verdadeira decisão não havia sido tomada no dia em que voltei para casa. Ela precisava ser refeita em pequenas situações, quase sempre sem qualquer dramaticidade. Era ali que eu saberia se tudo o que dissemos durante aquelas semanas difíceis tinha produzido alguma mudança ou se acabaria virando apenas uma lembrança desconfortável.

A primeira prova veio quando Vera precisou fazer um pequeno reparo em casa e comentou com Renato que poderia passar alguns dias conosco enquanto o serviço estivesse sendo feito.

Meses antes, ele provavelmente teria respondido sim antes mesmo de me avisar.

Dessa vez, chegou em casa e contou.

— Minha mãe perguntou se pode ficar aqui três noites.

— O que você acha?

— Para mim, tudo bem. Mas quero saber o que você acha.

Eu pensei.

Não havia motivo real para negar.

— Tudo bem para mim também.

— Tem certeza?

— Tenho.

Ele sorriu.

— Então vou confirmar.

Foi simples.

Vera ficou três noites conosco, usou o quarto de hóspedes e não tentou reorganizar nada. Houve um ou outro comentário sobre como eu trabalhava demais e sobre como Renato precisava comer melhor, mas nada que justificasse um conflito.

No último dia, enquanto ela arrumava a bolsa, aproximou-se de mim na cozinha.

— Sofia, posso falar uma coisa?

— Claro.

— Eu pensei muito naquele mês.

Esperei.

— Ainda acho que algumas coisas podiam ter sido resolvidas com menos… distância.

Quase sorri com a escolha da palavra.

— Talvez.

— Mas também entendi que entrei na casa de vocês como se ainda fosse responsável por tudo que acontece com meus filhos.

Ela olhou para a própria xícara.

— É difícil parar de fazer isso.

— Imagino.

— Não estou prometendo virar outra pessoa.

— Nem precisa.

Ela ergueu os olhos.

— Mas vou tentar perguntar mais e decidir menos.

Assenti.

— Isso já ajuda.

Não houve abraço cinematográfico.

Vera apenas terminou o café e levou a xícara até a pia.

Para nós, foi suficiente.

Patrícia também retomou sua própria rotina. Continuava falando com a mãe quase todos os dias e, algumas vezes, vinha nos visitar com a bebê. A relação entre nós permaneceu cordial, mas ganhou uma sinceridade que não existia antes.

Certa tarde, enquanto Renato segurava a sobrinha, Patrícia se sentou ao meu lado.

— Sabe aquela noite em que você arrumou sua mala?

— Sei.

— Quando o Renato falou que você tinha concordado, eu realmente pensei: “Ainda bem”.

Olhei para ela.

— Eu percebi.

Ela ficou envergonhada.

— Depois, quando vi você deitada no sofá, eu soube que aquilo estava errado. Só não tive coragem de dizer porque eu seria a pessoa perdendo o quarto confortável.

A confissão não me surpreendeu.

Na verdade, tornou aquele antigo sorriso mais compreensível.

— Obrigada por falar isso agora.

— Você ainda está com raiva?

Pensei antes de responder.

— Não. Mas eu também não vou fingir que não aconteceu.

Ela assentiu.

— Justo.

Com Renato, a reconstrução foi mais lenta.

Havia dias em que tudo parecia resolvido. Em outros, uma situação pequena despertava em mim a antiga sensação de estar sendo deixada por último.

Quando isso acontecia, eu tentava falar antes que o ressentimento crescesse.

E ele, na maioria das vezes, ouvia.

Também houve momentos em que Renato discordou de mim.

Isso era importante.

Eu não queria que nosso casamento mudasse de uma relação na qual ele decidia demais para outra em que concordasse comigo por medo.

Certa noite, discutimos sobre uma viagem familiar que Vera queria organizar.

Eu não queria ir porque aconteceria numa época pesada do meu trabalho. Renato queria participar.

Antes, provavelmente um de nós teria cedido contra a própria vontade.

Dessa vez, encontramos uma solução simples: ele iria por dois dias, e eu ficaria em casa.

— Minha mãe vai perguntar por você — avisou.

— Diga a verdade.

— Que você está trabalhando?

— Exatamente.

— Ela talvez reclame.

— Ela pode reclamar.

Renato riu.

Aquele riso dizia muito.

Já não precisávamos organizar nossa vida para evitar qualquer desagrado de Vera.

Alguns meses depois, no aniversário do nosso casamento, Renato perguntou se eu lembrava onde tínhamos comprado o sofá.

— Como eu poderia esquecer?

— Eu pensei em trocar.

Olhei para ele.

— Por quê?

— Porque ele me lembra daquela noite.

Caminhei até a sala e me sentei.

O sofá ainda era confortável. Continuava com o mesmo tecido bege-claro, embora agora houvesse uma pequena mancha perto de um dos braços que nenhum de nós sabia explicar.

Passei a mão pela almofada.

— Eu não quero trocar.

Renato pareceu surpreso.

— Não?

— Não.

— Achei que você odiasse esse sofá.

Balancei a cabeça.

— Ele não fez nada.

Renato soltou uma risada.

Sentei melhor e continuei:

— Além disso, ele me lembra de uma coisa importante.

— De quê?

Olhei para ele.

— De que eu posso levantar.

O sorriso desapareceu do rosto dele por um instante.

Depois voltou, menor e mais sincero.

Renato se sentou ao meu lado.

— Eu sinto muito pelo que fiz naquele mês.

Não era a primeira vez que ele pedia desculpas.

Mas talvez tenha sido a primeira em que não havia nenhuma crise acontecendo, nenhuma mala pronta e nenhum medo imediato me empurrando para longe.

— Eu sei — respondi.

— Você me perdoou?

Olhei para nossas mãos sobre o sofá.

— Perdoar não significa achar que foi pouco.

— Eu sei.

— Nem significa que eu voltaria a aceitar.

— Espero que não aceite.

Sorri.

— Então acho que sim.

Ele segurou minha mão.

Ficamos algum tempo em silêncio.

Três anos de casamento tinham me ensinado a viver com Renato. Aquele episódio me ensinara algo diferente: viver com alguém não podia significar desaparecer dentro das necessidades dessa pessoa e de sua família.

Durante muito tempo, eu me orgulhara de ser fácil de lidar.

Eu não reclamava muito.

Evitava conflitos.

Cedia depressa.

Achava que isso me tornava madura.

Só depois percebi que, quando ninguém conhece seus limites, algumas pessoas começam a agir como se eles não existissem.

Eu não precisava me tornar agressiva para mudar isso.

Não precisava transformar cada desacordo em batalha.

Precisava apenas parar de oferecer silêncio quando o que eu realmente queria dizer era não.

Patrícia continuou sendo irmã de Renato.

Vera continuou sendo mãe dele.

Eu nunca precisei destruir esses vínculos para proteger o nosso.

O que mudou foi o lugar que meu casamento passou a ocupar dentro deles.

Não mais como um espaço disponível sempre que alguém precisasse de alguma coisa.

Mas como uma relação de duas pessoas que precisavam conversar antes de abrir mão do que pertencesse às duas.

Naquela noite de aniversário, Renato preparou jantar em casa.

Depois comemos sobremesa sentados no sofá.

Em algum momento, ele colocou os pés sobre a mesinha e perguntou:

— Ainda cabe você deitada aqui?

— Cabe.

— Quer testar?

Olhei para ele.

— Nem pensar.

Nós dois rimos.

E foi justamente naquele momento comum que percebi que a história estava finalmente deixando de doer.

Eu não havia vencido minha sogra.

Não havia derrotado minha cunhada.

Também não havia transformado Renato em um homem perfeito.

Eu apenas aprendera que permanecer num casamento precisava continuar sendo uma escolha, não uma obrigação construída pela quantidade de anos que já tínhamos passado juntos.

Naquela primeira noite, quando deitei no sofá, todos acreditaram que eu acabaria cedendo como sempre.

Na manhã seguinte, entenderam que eu podia sair.

Meses depois, eu mesma compreendi a parte mais importante.

Eu também podia voltar.

Mas voltar só tinha valor porque, dessa vez, fui eu quem decidiu onde queria estar.

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