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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

PARTE 3

Encontrei um apartamento mobiliado relativamente perto do trabalho. Não era grande nem especialmente bonito, mas tinha uma cama, uma mesa adequada para o computador e, acima de tudo, uma porta que eu podia fechar sabendo que ninguém decidiria de uma hora para outra que aquele espaço precisava ser entregue a outra pessoa. Paguei inicialmente por duas semanas, com possibilidade de estender a estadia, e deixei a mala no quarto antes de seguir para o escritório.

Passei a manhã tentando trabalhar como em qualquer outro dia. Eu tinha relatórios para revisar, uma reunião com a equipe e prazos que não desapareceriam só porque minha vida doméstica havia ficado estranha. No entanto, sempre que o celular acendia sobre a mesa, meus olhos iam automaticamente para a tela.

Renato mandou a primeira mensagem às oito e quarenta. Perguntou se eu havia chegado bem. Respondi apenas que sim.

Uma hora depois, ele perguntou onde eu estava hospedada. Não respondi imediatamente. Não porque quisesse esconder, mas porque percebi que estava cansada de fornecer explicações antes mesmo de entender o que eu queria fazer.

No horário do almoço, ele ligou.

— Sofia, eu realmente não achei que você fosse sair de casa.

— Eu também não achei que algum dia ouviria meu marido dizer que eu podia passar um mês no sofá da nossa sala.

Ele ficou em silêncio.

— Eu falei sem pensar.

— Esse é justamente o problema, Renato.

A conversa não virou uma briga. Pela primeira vez, eu nem queria discutir sobre o quarto. Queria que ele entendesse que o quarto era apenas a terceira decisão de uma sequência.

Primeiro, Patrícia passaria o resguardo conosco e eu apenas fui informada. Depois, meu escritório deixou de ser meu porque ela precisava guardar suas coisas. Finalmente, nosso quarto virou a opção mais conveniente e, de novo, a solução escolhida foi tirar algo de mim.

— Eu achei que você compreenderia — ele disse.

— Eu compreendo que sua irmã precisa de ajuda. O que eu não compreendo é por que me compreender virou sinônimo de eu aceitar tudo sem ser consultada.

Dessa vez ele não respondeu na hora.

Expliquei que não pretendia voltar naquela noite. Precisava dormir e organizar minha cabeça. Também pedi que ele não transformasse aquilo numa disputa entre mim e Patrícia, porque minha principal questão era com ele.

— Foi você quem tomou essas decisões comigo fora delas — falei. — Então é com você que eu preciso resolver isso.

Quando desligamos, senti um alívio estranho. Não porque alguma coisa tivesse sido resolvida, mas porque, pela primeira vez desde a chegada de Patrícia, eu havia falado sem suavizar tudo para impedir que os outros ficassem desconfortáveis.

À noite, Renato voltou a ligar.

Dessa vez contou que Vera estava irritada. Ela dizia que eu estava fazendo uma situação simples parecer muito maior do que era e que minha saída poderia deixar Patrícia constrangida.

— E você acha o quê? — perguntei.

— Eu acho que você não precisava ter ido embora.

A resposta me decepcionou, mas pelo menos era sincera.

— E eu acho que você ainda está preocupado com a minha reação, não com o motivo dela.

Ele soltou o ar do outro lado da linha.

— Então me explica o que você quer que eu faça.

A pergunta pareceu simples, mas me fez parar.

Eu não queria entregar a ele uma lista de tarefas que permitisse resolver tudo mecanicamente. Se dissesse “coloque sua irmã de volta no quarto de hóspedes”, ele poderia fazer isso sem entender nada. Se dissesse “peça desculpas”, provavelmente pediria, mas talvez continuasse acreditando que o problema era minha sensibilidade.

— Eu quero que você pense — respondi. — Pense por que foi tão fácil decidir que meu escritório podia ser esvaziado. Depois pense por que foi tão fácil decidir que nosso quarto podia ser entregue. E, por último, pense por que, quando faltou espaço, a solução natural foi eu dormir no sofá.

— Você está dizendo que eu sempre coloco minha família acima de você?

— Estou dizendo que, nestes últimos dias, todas as vezes que alguém precisou ceder, você escolheu por mim.

Ele ficou calado outra vez.

Nos dias seguintes, mantivemos contato, mas eu não voltei para casa. Renato me mandava notícias curtas sobre a bebê e dizia que Patrícia estava se recuperando bem. Eu respondia com educação, sem transformar cada mensagem numa conversa sobre nosso casamento.

No terceiro dia, precisei buscar duas pastas que haviam ficado no escritório de casa. Avisei que passaria no fim da tarde.

Quando cheguei, foi estranho usar minha própria chave e, ainda assim, sentir que entrava em um lugar do qual estava temporariamente afastada.

O escritório estava quase irreconhecível. Havia bolsas de bebê, caixas de fraldas, roupas e objetos de Patrícia empilhados onde antes ficavam meus materiais profissionais. Não era um desastre, mas bastou olhar para aquilo para entender como tudo havia acontecido depressa.

Renato apareceu no corredor.

— Eu podia ter levado as pastas para você.

— Eu sei onde elas estão.

Entrei, peguei o que precisava e saí.

Ele me acompanhou até a sala.

— Sofia, a gente precisa resolver isso.

Parei perto da porta.

— Concordo.

Ele pareceu esperançoso.

— Então volta hoje.

Balancei a cabeça.

— Resolver não é fazer tudo voltar ao normal antes de entender o que aconteceu.

A expressão dele mudou.

Naquele instante percebi que, até então, Renato achava que minha saída era apenas uma reação emocional com prazo curto. Pela primeira vez, entendeu que eu estava estabelecendo uma condição nova: eu não voltaria simplesmente para tornar a vida de todos mais confortável.

— Eu não quero terminar nosso casamento — falei. — Mas também não quero continuar num casamento em que eu sou sempre a pessoa escolhida para se adaptar porque você sabe que eu não vou fazer escândalo.

Ele desviou os olhos.

Eu abri a porta.

— Quando você souber me dizer o que faria diferente, não apenas o que quer que eu faça, a gente conversa.

Saí carregando minhas pastas.

Dessa vez, Renato não tentou me impedir.

E aquela foi a primeira mudança real entre nós: eu deixara de explicar meus limites como se precisasse pedir permissão, e ele finalmente começava a perceber que não bastava esperar que eu voltasse a ser a pessoa que cedia primeiro.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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