Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

PARTE 6

Na semana seguinte, Renato devolveu completamente meu escritório ao estado anterior. Guardou as caixas que ainda pertenciam a Patrícia, recolocou meus livros na estante e organizou a mesa. Quando terminou, não me mandou uma foto esperando elogio. Apenas comentou durante uma ligação que o cômodo estava disponível caso eu precisasse trabalhar em casa algum dia.

Eu percebi a diferença.

Antes, quase todas as ações dele vinham acompanhadas de uma expectativa silenciosa de que eu encerrasse o assunto. Agora, começava a fazer algumas coisas simplesmente porque reconhecia que deveriam ser feitas.

Patrícia continuou no quarto de hóspedes. Vera reclamava da distância até o banheiro e dizia que ninguém naquela casa compreendia como era delicado cuidar de uma mulher depois de uma cesárea, mas a própria filha passou a interrompê-la.

— Mãe, eu estou melhor.

Ou:

— Mãe, fui eu que escolhi.

Era uma mudança pequena, porém importante. Pela primeira vez, Vera não conseguia transformar cada decisão em uma disputa entre ela e eu.

No trabalho, minha rotina ficou especialmente pesada. Entramos na fase final de uma auditoria e eu passei três noites revisando documentos até tarde. Em circunstâncias normais, teria levado parte do trabalho para casa e usado meu escritório.

Na quarta-feira, quase às dez da noite, Renato ligou.

— Você ainda está no escritório?

— Estou saindo agora.

— Comeu alguma coisa?

Olhei para a embalagem vazia de um sanduíche sobre a mesa.

— Mais ou menos.

Ele riu baixinho.

— Eu ia oferecer jantar, mas não quero que pareça uma armadilha para fazer você voltar.

Aquilo me fez sorrir pela primeira vez durante aquela semana.

— Que bom que você percebeu.

— Estou aprendendo.

Combinamos de jantar no dia seguinte.

Escolhemos um restaurante simples perto do meu trabalho. Durante a primeira meia hora, falamos de assuntos comuns: minha equipe, a recuperação de Patrícia, uma pequena confusão no setor de Renato. Foi quase como antes.

Depois ele ficou sério.

— Posso te fazer uma pergunta?

— Pode.

— Você já tinha pensado em sair de casa antes daquela noite?

— Nunca.

A resposta pareceu aliviá-lo e assustá-lo ao mesmo tempo.

— Então foi mesmo aquilo.

— Foi aquilo e o que veio antes.

Expliquei que eu não acordara de repente acreditando que nosso casamento inteiro era ruim. Esse era justamente o motivo de tudo ter me atingido tanto. Eu confiava que, mesmo quando discordássemos, as decisões importantes seriam nossas.

— Se você tivesse chegado e perguntado: “Minha irmã precisa ficar aqui um mês, você acha que conseguimos?”, eu provavelmente teria dito sim.

Ele me olhou.

— Eu sei.

— Se depois nós dois tivéssemos decidido ceder o quarto porque o banheiro ajudaria na recuperação dela, talvez eu também aceitasse.

— Então o problema nunca foi o quarto.

— O quarto foi o momento em que eu percebi o padrão.

Renato apoiou os braços na mesa.

— Eu achei que, por sermos casados, eu já sabia sua resposta.

— Conhecer alguém não dá direito de responder por ela.

Ele assentiu.

Ficamos alguns segundos em silêncio.

Então Renato contou algo que vinha acontecendo em casa. Vera queria que Patrícia prolongasse a estadia mesmo depois de completar o mês, porque considerava cedo demais voltar para a própria casa com uma bebê pequena.

— E o que você disse?

— Que isso não vai acontecer sem nós dois concordarmos.

Meu corpo ficou tenso antes mesmo de eu conseguir evitar.

— E ela?

— Disse que eu estava colocando regras absurdas por sua causa.

— Renato…

— Eu disse que eram regras da minha casa também.

Observei o rosto dele.

— Você quer que Patrícia fique mais tempo?

— Não. Acho que ela já poderá voltar quando completar o mês, desde que esteja bem e tenha apoio.

— Então diga isso.

— Eu disse.

Era a primeira vez que ele tomava uma decisão capaz de desagradar a mãe sem usar meu nome como justificativa.

Isso importava.

No fim do jantar, Renato perguntou se eu consideraria passar uma noite em casa no fim de semana.

Eu quase respondi não automaticamente.

Depois percebi que também não queria transformar meus limites em paredes permanentes.

— Uma noite — disse. — Mas não como se tudo estivesse resolvido.

— Entendi.

No sábado, voltei com uma mochila pequena.

Patrícia me recebeu de maneira discreta. Vera não estava lá naquele momento, o que tornou tudo mais simples.

Entrei no quarto principal.

Renato havia lavado as roupas de cama, ventilado o ambiente e guardado os objetos que haviam ficado para trás. Nada parecia preparado de maneira teatral. Era apenas nosso quarto outra vez.

Ainda assim, senti uma pontada estranha ao entrar.

Renato percebeu.

— Se você preferir, eu durmo no quarto de hóspedes.

— Patrícia está lá.

— Eu durmo no sofá.

A ironia da situação ficou suspensa entre nós.

Olhei para ele.

— Você aguenta?

— Pelo que eu ouvi, o sofá é ótimo por um mês.

Eu ri.

Foi a primeira vez que conseguimos tocar naquele episódio sem que a dor dominasse tudo.

Mas eu não queria vingança.

— Você dorme aqui. Nós dois dormimos aqui.

Naquela noite, deitados lado a lado, não houve reconciliação grandiosa. Conversamos no escuro por mais de uma hora.

Renato falou sobre o medo de enfrentar Vera e ser visto como um filho ingrato. Eu falei sobre o medo de continuar cedendo até um dia perceber que já não reconhecia a própria vida.

Em determinado momento, ele segurou minha mão.

Eu deixei.

No domingo de manhã, acordei antes dele.

Fiquei olhando o teto e me perguntando se estava pronta para voltar definitivamente.

A resposta ainda era não.

Quando contei, Renato pareceu desapontado, mas não tentou me convencer.

— Então você volta para o apartamento hoje?

— Volto.

— Certo.

Arrumei minha mochila.

Antes de sair, parei perto da porta.

— Ontem foi bom.

— Foi.

— Isso não significa que voltamos ao normal.

— Talvez a gente não precise voltar ao normal.

Franzi a testa.

Renato completou:

— Talvez precise construir um normal melhor do que aquele que a gente tinha.

Levei aquela frase comigo.

Pela primeira vez desde que deixei o sofá, comecei a imaginar não apenas como seria sair daquele casamento, mas também como ele poderia continuar sem que eu precisasse voltar a ser a pessoa que sempre cedia para manter a paz.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1