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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

Os nove dias passaram mais rápido do que eu esperava.

Não houve nenhuma nova revelação.

Nenhum segredo apareceu.

Nenhuma pessoa bateu à minha porta trazendo a peça que faltava.

Tudo o que precisava ser decidido já estava diante de nós.

Talvez esse fosse o verdadeiro desafio do fim: quando o drama diminui, sobra apenas a responsabilidade de sustentar a decisão.

Na véspera da assinatura, Rafael me mandou uma mensagem.

“Podemos conversar uma última vez sem advogado?”

Pensei alguns minutos.

“Podemos.”

Nos encontramos no mesmo café onde ele havia admitido por que escondia a proximidade com Lívia.

Rafael chegou primeiro.

Quando me sentei, ele empurrou uma xícara em minha direção.

— Pedi o que você costumava beber.

Olhei.

— Ainda lembro.

— Eu também.

Ele sorriu de leve.

Por alguns minutos, falamos de coisas práticas.

Pagamento do apartamento.

Últimos documentos.

Uma caixa que ainda estava na casa dele.

Então Rafael respirou fundo.

— Amanhã acaba.

— Amanhã formaliza.

— Para mim, já parecia acabado há algum tempo.

— Para mim também.

Ele mexeu na colher.

— Passei muito tempo tentando encontrar o momento exato em que estraguei tudo.

— Encontrou?

— Não.

Olhei para ele.

— Talvez porque não tenha sido um momento só.

Rafael assentiu.

— O hotel foi a pior coisa.

— Foi o momento em que eu parei de ignorar o resto.

— Eu devia ter escutado quando você falava da Lívia.

— Devia.

— Devia ter imposto limite para minha mãe.

— Também.

— Devia ter contado a verdade naquela noite.

— Sim.

Ele riu sem humor.

— Você não facilita.

— Não estamos aqui para fingir.

Rafael ficou sério.

— Eu gostei de ser necessário para todo mundo. Lívia me procurava e eu resolvia. Minha mãe opinava e eu deixava. No trabalho, eu queria ser o cara que sempre dava conta. E em casa…

Ele parou.

— Em casa você achava que eu ficaria de qualquer maneira — completei.

Ele me encarou.

— Acho que sim.

A honestidade doeu.

Mas não me surpreendeu.

— Eu também errei — falei.

Rafael franziu a testa.

— Você não precisa fazer isso para equilibrar.

— Não estou equilibrando. Eu engoli coisas por muito tempo e depois explodi de uma vez. Mandar aquela foto para seus colegas de trabalho foi mais sobre ferir você do que sobre esclarecer qualquer coisa.

Ele esperou.

— Eu faria diferente hoje.

— Você se arrepende?

— Dessa parte, sim.

— E do divórcio?

— Não.

Rafael abaixou os olhos.

— Eu precisava perguntar.

— Eu sei.

Pela primeira vez, conseguimos falar dos nossos erros sem usá-los como moeda de troca.

Eu não disse “também errei” para diminuir o que ele fez.

Ele não usou minha admissão para exigir que eu voltasse.

Era tarde demais para salvar o casamento.

Mas talvez não fosse tarde demais para sair dele sem carregar apenas ódio.

Rafael retirou algo do bolso.

Minha aliança.

A mesma que eu deixara sobre a mesa do hotel.

— Guardei desde aquele dia.

Olhei para o anel.

— Por quê?

— Achei que você fosse pedir de volta.

— Não pedi.

Ele o colocou sobre a mesa entre nós.

— Não sei o que fazer com isso.

Peguei a aliança.

O metal estava frio.

Durante três anos, aquele círculo havia significado uma promessa.

Depois passou a representar tudo o que havia quebrado.

Agora era apenas um objeto.

— Vou guardar — falei.

Rafael pareceu aliviado.

— Não significa nada além disso.

— Eu sei.

Ficamos mais alguns minutos.

Antes de ir embora, ele disse:

— Helena, eu sinto muito.

Não havia “mas”.

Não havia explicação.

Não havia Lívia.

Não havia minha sogra.

Apenas aquilo.

— Eu sei — respondi.

Ele segurou a porta do café para mim.

Na calçada, seguimos em direções diferentes.

Quando cheguei ao apartamento, coloquei a aliança numa pequena caixa junto com algumas fotografias.

Não como esperança.

Como memória.

Depois fui até a varanda.

São Paulo ainda estava acordada.

Faróis passavam lá embaixo.

Um vizinho assistia televisão com a janela aberta.

No celular, havia uma mensagem da minha mãe perguntando se eu estava bem.

Respondi:

“Estou.”

E percebi que era verdade.

Não completamente curada.

Não feliz com tudo o que acontecera.

Mas bem.

Na manhã seguinte, vesti uma roupa simples e fui trabalhar por algumas horas antes do compromisso.

Às onze, desliguei o computador.

Minha assistente perguntou:

— Quer que eu vá com você?

Sorri.

— Não precisa.

Eu tinha chegado ao hotel sozinha.

Tinha tomado a decisão sozinha.

Não precisava de plateia para terminar.

Peguei minha bolsa.

Dentro dela estavam meus documentos e a caneta que eu costumava usar para assinar contratos importantes.

Saí do estúdio.

O último documento do meu casamento estava esperando por mim.

E, daquela vez, minha mão não tremia.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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