Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

Parte 5

A primeira reunião aconteceu num escritório pequeno, sem nenhuma solenidade. Rafael estava acompanhado de seu advogado; eu, da minha advogada. Não havia pais, amigos, Lívia ou grupos de WhatsApp. Apenas quatro pessoas diante de uma mesa e uma lista de assuntos que precisavam ser tratados.

Começamos pelo apartamento.

Depois vieram contas, investimentos comuns, móveis, despesas e alguns valores que Rafael havia colocado no meu estúdio nos primeiros meses do casamento.

Minha sogra teria transformado aquilo em um discurso sobre gratidão.

A advogada transformou em números.

Foi melhor assim.

Os registros mostravam que parte do dinheiro transferido por Rafael ao estúdio havia sido usada para despesas do casal e parte realmente ajudara a empresa num período ruim. Não havia nenhum documento dizendo que eu lhe devia o negócio, nem qualquer fundamento para a versão de que o estúdio existia somente por causa dele.

Ainda assim, não neguei a ajuda.

— Ele contribuiu — falei. — Quero que isso seja considerado de maneira justa.

Rafael olhou para mim.

Talvez estivesse esperando que eu apagasse qualquer mérito dele por raiva.

Não faria isso.

Eu não precisava falsificar nossa história para sair dela.

Quando chegamos ao tema do apartamento, surgiu a primeira dificuldade séria. Nós dois havíamos contribuído financeiramente em momentos diferentes, e havia parcelas e melhorias pagas durante o casamento.

— Podemos avaliar e dividir de forma adequada — minha advogada disse.

Rafael se recostou.

— Eu gostaria de ficar com o apartamento.

— Tudo bem — respondi. — Desde que minha parte seja acertada corretamente.

Ele me encarou.

— Você não quer ficar com ele?

— Não.

A resposta saiu mais rápido do que eu esperava.

Aquele apartamento havia sido nossa casa, mas eu não queria transformar cada cômodo numa disputa.

Saí da reunião com dois avanços concretos: Rafael havia concordado em iniciar formalmente a discussão patrimonial, e eu havia decidido que não lutaria por objetos apenas para provar que podia vencê-lo.

Dois dias depois, aluguei um apartamento pequeno a quinze minutos do estúdio.

Nada luxuoso.

Um quarto, sala, cozinha compacta e uma varanda estreita que dava para uma rua movimentada.

Minha mãe tentou esconder a preocupação quando viu o tamanho.

— Você tem certeza?

— Tenho.

— Sua antiga casa era muito maior.

— Era.

Coloquei uma caixa sobre o chão.

— Mas esta é minha.

Ela não insistiu.

Naquela mesma semana, mergulhei no trabalho.

Um cliente antigo ampliou um projeto e pediu que meu estúdio assumisse uma etapa maior. Não era um contrato capaz de mudar minha vida, mas exigia que eu contratasse temporariamente dois profissionais e reorganizasse prazos.

Aceitei.

Não para mostrar nada a Rafael.

Aceitei porque a empresa precisava crescer ou encolher, e eu havia passado tempo demais tomando decisões com medo de errar.

Na sexta-feira à noite, Rafael me ligou.

Pensei em não atender.

Atendi.

— Podemos conversar?

— Depende.

— Não quero discutir.

— Então fala.

Houve um breve silêncio.

— Minha mãe foi ao seu estúdio hoje?

Endireitei o corpo.

— Não.

— Ela disse que iria.

— Para quê?

Rafael soltou o ar.

— Para pedir que você pare com o divórcio.

— Você mandou?

— Não.

— Então impeça.

— Helena…

— Rafael, sua mãe já participou mais do nosso casamento nesta semana do que deveria ter participado em três anos.

Ele não respondeu.

Continuei:

— Se ela aparecer para me pressionar no trabalho, vou pedir que vá embora. Não quero transformar isso em outra guerra familiar.

— Eu vou falar com ela.

Na manhã seguinte, minha sogra apareceu mesmo assim.

Entrou no estúdio vestida como quem chegava para uma reunião importante.

— Precisamos conversar.

— Se for sobre o divórcio, os advogados estão tratando disso.

— Eu não preciso de advogado para falar com minha nora.

— Ex-nora em processo de separação.

O rosto dela endureceu.

— Você está gostando disso, não está?

— De quê?

— De fazer meu filho sofrer.

Respirei fundo.

— Não.

— Ele não dorme direito. Está tendo problema no trabalho. E você está aqui, montando sua vida como se nada tivesse acontecido.

— Muita coisa aconteceu.

— Então volte para casa.

— Não.

Ela pareceu realmente não compreender.

— Rafael te deu tudo.

— Não.

— Ele sustentou esse lugar.

— Não sozinho.

— Você era ninguém antes de entrar naquela família.

Dessa vez não respondi imediatamente.

A frase não doeu como teria doído uma semana antes.

Apenas me cansou.

— A senhora veio até meu local de trabalho para me convencer a voltar para um casamento dizendo que eu não sou ninguém sem seu filho. Percebe a contradição?

Minha sogra abriu a boca.

Nesse momento, Rafael apareceu na entrada.

Ele havia chegado ofegante.

— Mãe.

Ela se virou.

— O que você está fazendo aqui?

— Vim buscar você.

— Eu estou tentando salvar seu casamento.

Rafael olhou para mim.

Depois para ela.

— Então pare.

Minha sogra ficou imóvel.

— O quê?

— Helena já disse que não quer conversar assim. Vamos embora.

— Você vai ficar do lado dela agora?

Rafael fechou os olhos, irritado.

— Não existe lado. Existe limite.

A palavra ficou no ar.

Limite.

A mesma coisa que ele não tivera com Lívia.

A mesma coisa que a família dele nunca tivera conosco.

Minha sogra pegou a bolsa com movimentos bruscos.

Antes de sair, apontou para mim.

— Quando perceber o que perdeu, vai ser tarde.

Não respondi.

Rafael esperou que ela entrasse no elevador.

Depois ficou na porta.

— Desculpa.

Foi a primeira vez que pediu desculpas sem acrescentar “mas você também”.

Assenti.

— Obrigada por ter vindo.

Ele não tentou entrar.

Não pediu outra chance.

Apenas foi embora.

Naquele dia, percebi que a pressão começava a mudar de direção.

Antes, eu precisava justificar por que queria sair.

Agora Rafael começava a precisar explicar para a própria família por que não podia continuar tratando minha decisão como uma rebeldia passageira.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1