
Parte 6
A segunda reunião entre nós aconteceu duas semanas depois. Nesse intervalo, Rafael havia parado de aparecer sem avisar, minha sogra não retornara ao estúdio e os advogados avançaram na avaliação do apartamento.
A distância trouxe uma coisa que as discussões não haviam permitido: silêncio suficiente para que algumas perguntas fossem respondidas sem plateia.
Foi Rafael quem pediu uma conversa particular depois da reunião.
Aceitei encontrá-lo num café.
— Quero falar sobre Lívia — disse.
— Está bem.
Ele mexeu na xícara sem beber.
— Você sempre dizia que a nossa relação passava do limite.
— Eu dizia que vocês não tinham limites claros.
— Para mim, era diferente.
— Como?
Rafael demorou.
— Eu conheço a Lívia desde adolescente. Ela sempre me procurou quando tinha problema. Eu me acostumei a ser a pessoa que resolvia.
Eu não interrompi.
— Depois que casamos, isso continuou. E eu achei normal porque… não sei. Eu gostava de me sentir necessário.
Aquilo não era a revelação de um caso secreto.
Era mais simples.
E talvez por isso mais honesto.
— Mesmo quando isso me incomodava? — perguntei.
— Sim.
— Por quê?
Ele passou o polegar pela borda da xícara.
— Porque, na minha cabeça, admitir que você tinha razão significava aceitar que eu estava fazendo alguma coisa errada.
— Então era mais fácil dizer que eu era ciumenta.
— Era.
Respirei lentamente.
Rafael continuou:
— Naquela noite, quando ela me beijou no elevador, eu deveria ter parado tudo ali.
— Deveria.
— Eu estava bêbado também, mas sabia o que estava acontecendo.
A frase veio sem desculpa.
— E por que entrou no quarto?
— Porque ela estava mal e eu achei que podia cuidar dela.
— E ficou a noite inteira.
— Fiquei.
— Aconteceu alguma coisa além do beijo?
Ele levantou os olhos.
— Não.
Eu não tinha como enxergar dentro da cabeça dele.
Mas também não precisava transformar uma dúvida em certeza para justificar minha decisão.
— Certo.
Rafael pareceu surpreso.
— Você acredita?
— Eu acredito que isso é o que você está me dizendo.
— Não é suficiente?
— Para eu voltar? Não.
Ele se inclinou na cadeira.
— Então nada do que eu disser muda nada?
— Muda meu entendimento. Não necessariamente minha decisão.
Rafael respirou fundo.
— Eu pensei que, se provasse que não houve sexo, tudo poderia voltar ao normal.
— Esse é exatamente o problema. Você continua imaginando que existe uma versão dessa história em que nós simplesmente voltamos ao normal.
Ele ficou olhando para mim.
— Não existe?
— Não para mim.
A conversa durou mais de uma hora.
Falamos sobre episódios que, isoladamente, pareciam pequenos: jantares em que Rafael cancelava nossos planos porque Lívia precisava de alguma coisa; mensagens em horários inadequados; piadas da mãe dele sobre como Lívia conhecia Rafael “melhor do que qualquer pessoa”.
Eu não transformei cada lembrança em prova de traição.
Rafael também não tentou mais negar que aquilo havia desgastado nosso casamento.
O que mudou naquele dia foi simples: paramos de discutir se minha dor era legítima.
Começamos a discutir por que ela existia.
Quando saímos do café, Rafael caminhou comigo até o carro.
— Eu falei com a Lívia — disse.
Esperei.
— Disse que não posso mais ser a pessoa que ela procura para tudo.
— Isso é entre vocês.
— Eu sei.
Ele deu dois passos para trás.
— Só achei que você deveria saber.
Dessa vez, não senti vitória.
Talvez porque finalmente tivesse entendido que meu objetivo não era “ganhar” de Lívia.
Meu objetivo era sair de uma dinâmica que havia me feito duvidar de meus próprios limites.
No estúdio, as coisas também mudavam.
O projeto novo exigiu mais horas do que eu esperava. Houve atraso de fornecedor, um cliente mudou parte do escopo e passei duas noites revisando orçamento.
Nada cinematográfico aconteceu.
Nenhum investidor misterioso apareceu.
Nenhum contrato milionário caiu do céu.
A empresa simplesmente continuou funcionando porque todos trabalharam.
Aquilo me deu uma satisfação diferente.
Estabilidade, descobri, era muito menos emocionante do que vingança.
E muito mais útil.
Na semana seguinte, recebemos a avaliação inicial do apartamento.
Rafael me ligou.
— O valor é maior do que eu imaginava.
— Também achei.
— Para ficar com ele, vou precisar reorganizar algumas coisas.
— Se você preferir vender, podemos discutir.
— Não quero vender.
— Então não precisamos decidir hoje.
Ele ficou em silêncio.
— Você está diferente.
— Estou cansada dessa frase.
— Não falei como crítica.
— Então como?
— Não sei. Antes, quando a gente brigava, você queria resolver tudo na mesma noite.
— Porque eu tinha medo de dormir com você bravo comigo.
A frase saiu antes que eu planejasse.
Rafael não respondeu.
Eu continuei:
— Talvez isso diga bastante sobre como eu vivia nosso casamento.
A conversa terminou pouco depois.
Naquela noite, fiquei sozinha na varanda do apartamento novo.
A rua continuava barulhenta.
Um ônibus passou.
Alguém discutia ao telefone na calçada.
Nada parecia simbólico.
Ainda assim, percebi que fazia quase uma semana que eu não acordava com a sensação de que precisava explicar minha decisão para alguém.
O divórcio ainda não estava concluído.
O patrimônio ainda não estava resolvido.
Rafael ainda oscilava entre aceitar e esperar que eu mudasse de ideia.
Mas uma coisa estava ficando clara:
Eu não estava mais tentando convencer ninguém de que tinha direito de sair.
Eu estava apenas saindo.
Na manhã seguinte, a advogada me enviou uma nova proposta de acordo patrimonial revisada com as informações da avaliação.
Li tudo.
Fiz duas correções.
Depois escrevi para Rafael:
“Se conseguirmos fechar estes pontos, podemos encerrar essa parte sem transformar isso numa guerra.”
Ele respondeu quinze minutos depois.
“Vou analisar.”
Foi uma resposta pequena.
Mas, pela primeira vez, ele não escreveu que não aceitava o divórcio.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














