
Parte 8
A partir dali, o processo ficou menos barulhento e mais real.
Documentos substituíram discussões.
Prazos substituíram ameaças.
Rafael começou a providenciar a reorganização financeira necessária para permanecer no apartamento, e eu transferi definitivamente minhas coisas para o endereço novo.
Voltei à antiga casa numa terça-feira à tarde para buscar as últimas caixas.
Rafael estava lá.
Havia separado meus livros numa pilha.
— Acho que estes são todos seus.
Revisei.
— São.
Ele apontou para uma caixa menor.
— Também coloquei as fotografias.
Parei.
— Quais?
— As nossas.
Abri.
Casamento.
Viagens.
Aniversários.
Almoços de família.
Três anos comprimidos em papel fotográfico.
— Não sabia se você queria.
— Quero guardar algumas.
Rafael assentiu.
Sentamos no chão da sala para separar.
Não houve nostalgia suficiente para mudar minha decisão.
Mas houve tristeza.
Quando encontrei uma fotografia nossa no dia em que assinei o primeiro contrato importante do estúdio, ri de leve.
— Eu tinha esquecido dessa.
Rafael olhou.
— Você passou a noite anterior sem dormir.
— Passei.
— E quase desistiu do contrato porque achava que não ia dar conta.
Olhei para ele.
— Você me convenceu a aceitar.
— Eu sei.
Não neguei.
Coloquei aquela foto na minha caixa.
Nem todo fim exige transformar todas as lembranças em mentiras.
Rafael percebeu.
— Achei que você fosse jogar tudo fora.
— Nosso casamento ter terminado não significa que nada de bom aconteceu.
Ele abaixou os olhos.
— Isso torna pior.
— Eu sei.
Continuamos separando.
Em determinado momento, Rafael encontrou a fotografia do hotel que eu havia enviado aos grupos impressa entre alguns documentos. Não sei quem a havia impresso.
Ele ficou olhando para ela.
— Eu odeio essa foto.
— Eu também.
— Quando vejo, parece que estou olhando para outra pessoa.
— Era você.
Ele assentiu.
— Eu sei.
Não houve discussão.
Esse foi talvez o sinal mais evidente de que estávamos próximos do fim: Rafael já não precisava negar a imagem para continuar existindo.
Naquela mesma semana, o chefe dele voltou a colocá-lo em um projeto importante. Soube porque ele comentou durante uma ligação sobre documentos.
— As coisas estão normalizando no trabalho — disse.
— Que bom.
— Você fala sério?
— Falo.
Ele ficou alguns segundos sem responder.
— Achei que você quisesse me ver pagar por tudo.
— Você perdeu seu casamento.
— Você também.
A frase não veio como acusação.
— Sim — respondi.
Rafael pareceu surpreso.
Eu continuei:
— Consequência não significa que você precisa perder emprego, família e tudo o que tem. Eu não quero destruir sua vida. Só não quero mais construir a minha ao seu lado.
Aquilo encerrou algo entre nós.
Talvez a fantasia de que o divórcio fosse uma guerra com vencedor e derrotado.
Nos dias seguintes, os últimos detalhes patrimoniais foram resolvidos.
O estúdio encerrou o projeto maior com atraso de quatro dias, mas dentro do orçamento renegociado. Quando o cliente aprovou a entrega final, minha equipe improvisou uma comemoração com bolo comprado na padaria da esquina.
Fiquei olhando para aquelas pessoas rindo na pequena copa e senti uma coisa que não sentia havia meses:
Orgulho sem necessidade de provar nada para ninguém.
Não porque minha empresa fosse extraordinária.
Mas porque continuava de pé.
Na sexta-feira, a advogada me informou que, como Rafael agora aceitava os termos e não havia questão envolvendo filhos, poderíamos encaminhar a conclusão de maneira consensual, com a documentação adequada.
A palavra “consensual” me pareceu estranha.
Nada naquela história havia começado consensualmente.
Mas o fim podia ser.
Liguei para Rafael.
— Recebeu a orientação?
— Recebi.
— Está de acordo?
— Estou.
Silêncio.
Depois ele disse:
— Minha mãe quer saber se você vai aparecer no aniversário do meu pai no mês que vem.
Fechei os olhos.
— Rafael…
— Eu já disse que provavelmente não.
— Obrigada.
— Ela ainda está se acostumando.
— Nós também.
Ele riu baixo.
Foi um som triste, mas não amargo.
Antes de desligar, ele falou:
— Lívia pediu transferência no trabalho.
Eu não sabia que trabalhavam próximos o bastante para isso importar, e não quis abrir outra frente.
— Espero que seja uma boa decisão para ela.
Rafael não acrescentou nada.
A vida dela já não era uma questão que eu precisava administrar.
Naquela noite, comecei a organizar as fotografias que levara do apartamento.
Guardei algumas.
Descartei outras repetidas.
Coloquei o álbum de casamento numa prateleira alta.
Não senti vontade de queimá-lo.
Também não senti vontade de abri-lo.
Talvez um dia.
Talvez nunca.
Antes de dormir, recebi a confirmação da data em que assinaríamos a documentação final.
Faltavam nove dias.
Fiquei olhando para o calendário.
Durante semanas, eu imaginara que aquele momento traria euforia.
Não trouxe.
Trouxe silêncio.
E, dentro daquele silêncio, uma certeza calma:
Eu não precisava odiar Rafael para saber que não queria mais ser esposa dele.
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