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LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

Parte 10

Rafael já estava no cartório quando cheguei.

Vestia camisa azul clara, sem gravata. Parecia ter dormido pouco, mas estava tranquilo.

Nossos advogados revisavam os últimos documentos.

Eu me sentei na cadeira ao lado, deixando um espaço entre nós.

— Oi — ele disse.

— Oi.

Ninguém tentou transformar aquele momento em uma cerimônia.

Não havia necessidade.

A profissional responsável conferiu nossos documentos, confirmou os termos e explicou o que seria formalizado.

Escutei tudo com atenção.

Rafael também.

Quando chegou o momento da assinatura, a caneta ficou primeiro na mão dele.

Rafael leu a última página uma vez mais.

Depois assinou.

Passou a caneta para mim.

Olhei para meu nome.

Helena Duarte.

Durante três anos, eu havia pensado em mim principalmente como esposa de Rafael.

Não porque ele tivesse me obrigado a isso em cada momento, mas porque, aos poucos, eu mesma deixara muita coisa ser medida a partir do casamento.

Se Rafael estava feliz, eu estava tranquila.

Se a mãe dele aprovava, eu evitava conflito.

Se Lívia precisava dele, eu tentava convencer a mim mesma de que era melhor não parecer ciumenta.

Até o dia em que fiquei sentada num saguão de hotel esperando uma resposta.

Assinei.

Foi só isso.

Nenhum trovão.

Nenhuma música.

Nenhuma sensação de vitória esmagadora.

Apenas tinta sobre papel.

Mas, quando levantei a caneta, sabia que havia terminado.

A profissional continuou explicando os próximos passos administrativos.

Escutei parte.

Outra parte passou por mim como um ruído distante.

Quando tudo acabou, os advogados recolheram suas cópias.

Rafael e eu saímos juntos para o corredor.

Ele parou perto da porta.

— Então agora é oficial.

— É.

— Estranho.

— Muito.

Ele deu um sorriso cansado.

— Minha mãe perguntou se podia ligar para você depois.

— Para quê?

— Acho que ela quer se despedir.

Pensei.

— Pode.

Rafael assentiu.

— Obrigado.

Começamos a andar até a saída.

No elevador, ficamos lado a lado.

A situação me fez lembrar outro elevador.

O do Hotel Aurora.

A imagem que eu vira na câmera.

Lívia beijando Rafael.

Rafael não se afastando.

Durante semanas, aquela cena fora como uma fotografia presa dentro da minha cabeça.

Dessa vez, porém, ela apareceu e foi embora.

Não me dominou.

As portas se abriram.

Antes de seguirmos para lados diferentes, Rafael falou:

— Helena.

Parei.

— Eu não quero que a última coisa entre nós seja só aquele hotel.

Olhei para ele.

— Também não quero.

Ele pareceu surpreso.

— Tivemos coisas boas. Não vou apagar isso.

Rafael respirou fundo.

— Eu realmente amei você.

— Eu sei.

— E acho que ainda amo.

Aquela frase teria sido perigosa meses antes.

Agora era apenas triste.

— Amor não resolve tudo — respondi.

— Aprendi tarde.

— Mas aprendeu.

Ele abaixou os olhos.

— Espero que você fique bem.

— Também espero que você fique.

Não nos abraçamos.

Não faria sentido forçar uma intimidade que já não existia.

Apenas nos despedimos.

Rafael caminhou em direção ao estacionamento.

Eu fiquei alguns segundos na calçada.

Depois peguei o celular e pedi um carro.

No caminho para o estúdio, minha sogra ligou.

Atendi.

— Helena?

— Oi.

A voz dela estava contida.

— Rafael me contou que terminou.

— Terminou.

Houve silêncio.

— Eu ainda gostaria que tivesse sido diferente.

— Eu também.

Ela pareceu não esperar aquela resposta.

— Você também?

— Eu nunca me casei planejando me divorciar.

Minha sogra respirou fundo.

— Naquele dia, na nossa casa… eu fui injusta.

Esperei.

— Eu estava mais preocupada com a vergonha da família do que com o que você tinha acabado de viver.

A frase veio devagar.

— Estava.

— E quando pedi que você pedisse desculpas à Lívia…

Ela parou.

— Eu não deveria ter feito aquilo.

Não era um discurso perfeito.

Nem precisava ser.

— Obrigada por dizer isso.

— Você consegue me perdoar?

Olhei pela janela do carro.

— Consigo deixar isso para trás.

Talvez não fosse exatamente a mesma coisa.

Mas era verdade.

Ela pareceu entender.

— Cuide-se, Helena.

— A senhora também.

Desligamos.

Cheguei ao estúdio pouco depois das duas.

Minha equipe trabalhava normalmente.

Ninguém estava esperando com champanhe.

Ninguém sabia exatamente em que horário eu voltaria.

Gostei disso.

Sentei diante do computador e encontrei três e-mails pendentes, duas alterações de cliente e uma planilha de custos que precisava revisar.

Vida comum.

Quase ri.

Passei a tarde trabalhando.

Por volta das seis, todos foram embora.

Fiquei mais alguns minutos sozinha.

Abri a gaveta e encontrei uma fotografia antiga do estúdio quando ele ainda tinha apenas duas mesas e uma parede sem pintura.

Eu estava em pé no centro, segurando um copo de café e sorrindo para a câmera.

Rafael provavelmente tinha tirado aquela foto.

Mantive-a ali.

Não precisava apagar uma lembrança para seguir adiante.

Depois fechei o computador.

No apartamento, preparei algo simples para jantar.

Enquanto comia, abri a pequena caixa onde havia guardado minha aliança.

Segurei o anel por alguns segundos.

Não senti vontade de colocá-lo.

Também não senti raiva.

Guardei novamente.

Nas semanas seguintes, a vida foi encontrando um ritmo.

O acordo do apartamento começou a ser cumprido.

O estúdio manteve seus clientes.

Eu aprendi a voltar para um apartamento vazio sem interpretar o silêncio como abandono.

Algumas noites eram boas.

Outras ainda traziam lembranças.

Não transformei recuperação em uma corrida.

Rafael entrou em contato apenas quando havia alguma questão prática pendente.

Lívia nunca mais me procurou.

Minha sogra também respeitou a distância.

Não houve grande revanche.

Ninguém perdeu tudo.

Ninguém apareceu implorando diante da minha porta.

As consequências foram menos cinematográficas e mais reais.

Rafael perdeu um casamento porque demorou demais para entender que limites importavam.

Lívia teve de reconhecer que sua proximidade com um homem casado não era tão inocente quanto preferia acreditar.

A família Almeida teve de aceitar que reputação não podia ser usada para obrigar uma pessoa a permanecer onde não queria.

E eu tive de aprender que colocar limites depois de anos aceitando demais também significa encarar os próprios medos.

Meses depois, passei em frente ao Hotel Aurora a caminho de uma reunião.

Reconheci a entrada.

Durante um segundo, vi mentalmente aquela versão de mim mesma sentada no saguão às quatro da manhã, olhando para a aliança e esperando uma resposta.

Eu havia conseguido a resposta.

Só que não era a que imaginava.

A resposta não estava nas imagens das câmeras.

Nem no beijo.

Nem nas desculpas.

Nem na assinatura do divórcio.

Estava naquilo que fiz depois de descobrir que meu casamento não era mais o lugar onde eu queria permanecer.

O sinal abriu.

Continuei dirigindo.

No banco ao lado havia uma pasta com um novo projeto do estúdio.

À frente, trânsito.

Buzinas.

Uma tarde normal de São Paulo.

Sorri.

Não porque tudo tivesse se tornado perfeito.

Mas porque, depois de muito tempo, a direção da minha vida estava novamente nas minhas mãos.

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