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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

A decisão de formalizar o divórcio mudou a natureza do conflito. Até então, Rafael parecia enxergar tudo como uma crise conjugal: uma esposa furiosa, uma família irritada, alguns grupos de WhatsApp em polvorosa e alguns dias de distância. Quando recebeu a comunicação de que eu havia realmente iniciado o processo, deixou de tratar minhas palavras como ameaça.

Ele apareceu no estúdio naquela mesma tarde.

— Você entrou mesmo com isso?

— Entrei.

— Sem conversar comigo de novo?

— Nós conversamos várias vezes.

— Conversar não é você dizer que decidiu e eu ficar ouvindo.

— Então o que seria conversar, Rafael? Eu dizer que quero me divorciar até você finalmente autorizar?

Ele fechou a porta da minha sala.

— Eu só estou pedindo tempo.

— Tempo para quê?

A pergunta o desmontou por alguns segundos.

— Para consertar as coisas.

— Quais coisas?

— Nós.

— Isso não é uma coisa. É uma relação. E relações não são consertadas enquanto uma pessoa continua dizendo que o problema foi a reação da outra.

Rafael passou a mão pelos cabelos.

— Meu chefe me tirou de uma apresentação importante ontem.

Eu não esperava aquela informação.

— Sinto muito.

Ele pareceu quase ofendido.

— Só isso?

— O que você quer que eu diga?

— Que você entende que aquela foto teve consequências.

— Eu entendo. Assim como suas decisões tiveram consequências.

— Você poderia ter falado comigo em particular.

— Poderia.

Ele me olhou, talvez esperando uma justificativa.

— E hoje eu faria algumas coisas de maneira diferente — continuei. — Mandar para o grupo do seu trabalho foi uma decisão tomada no auge da raiva. Eu assumo isso. Mas assumir a minha parte não apaga a sua.

Rafael ficou calado.

A admissão pareceu retirar dele uma arma que vinha usando desde o hotel.

— Então você reconhece que exagerou.

— Reconheço que fiz algo de que talvez não me orgulhe. Isso não significa que vou voltar para casa.

Ele se sentou.

— Minha mãe acha que você está fazendo tudo isso para me punir.

— Sua mãe acha muitas coisas sobre mim.

— Ela está preocupada.

— Com você.

— Você fala como se isso fosse errado.

— Não é. O problema é ela acreditar que se preocupar com o filho exige tratar a esposa dele como inimiga.

Rafael desviou o olhar.

Naquele momento, meu celular tocou.

Era um cliente.

Atendi, resolvi uma alteração de prazo e marquei uma reunião para o dia seguinte. Rafael ouviu tudo sem interromper.

Quando desliguei, ele perguntou:

— O estúdio está bem?

— Está.

— Você verificou as contas?

— Sim.

— E?

— Você ajudou no início. Eu reconheço. Mas o estúdio não depende de você hoje.

Ele encostou as costas na cadeira.

— Minha mãe falou besteira.

— Falou.

Foi a primeira vez que ouvi Rafael contrariar diretamente uma das frases dela.

Não apaguei três anos de casamento por causa disso. Mas registrei o momento.

Mais tarde, fui ao apartamento buscar o restante dos meus documentos e alguns objetos pessoais. Rafael insistiu em estar presente.

A conversa começou civilizada.

Durou quase meia hora assim.

Até eu abrir uma gaveta e encontrar um porta-retrato antigo: eu e Rafael numa viagem feita meses depois do casamento.

Ele pegou a fotografia.

— Nós éramos felizes aqui.

— Éramos.

— Então por que parece tão fácil para você jogar tudo fora?

Fechei a gaveta.

— Não está sendo fácil.

— Parece.

— Porque eu não estou gritando?

Rafael apertou a moldura entre os dedos.

— Porque você está agindo como se já tivesse seguido em frente.

— Eu ainda acordo lembrando do elevador do hotel. Ainda lembro do beijo. Ainda lembro de você segurando Lívia quando ela tentou ir embora da casa dos seus pais. Ainda lembro de você dizendo que eu tinha passado dos limites enquanto ela estava sentada ao seu lado.

Minha voz continuou baixa.

— Só que eu descobri uma coisa. Sofrer não me obriga a ficar parada.

Ele colocou o porta-retrato sobre a cômoda.

— Lívia não está falando comigo.

Aquilo me surpreendeu.

— Não perguntei.

— Eu sei. Mas quero que você saiba. Ela disse que não aguenta mais ser culpada pelo nosso casamento.

— Ela não é responsável pelo nosso casamento.

Rafael me encarou.

— Você realmente pensa isso?

— Ela é responsável pelo beijo dela, pelas escolhas dela e pela proximidade que manteve com um homem casado. Mas quem prometeu alguma coisa para mim foi você.

Rafael ficou imóvel.

Foi a segunda mudança daquele dia.

Até ali, parecia conveniente para ele tratar toda a situação como uma guerra entre mim e Lívia. Quando eu me recusei a fazer isso, não restou outra pessoa atrás de quem ele pudesse se esconder.

Terminei de guardar meus documentos.

Antes que eu saísse, ele disse:

— Quero tentar uma mediação.

Parei.

— Para discutir o divórcio?

Ele fechou os olhos por um instante.

— Para discutir tudo.

— Se o objetivo for me convencer a permanecer casada, não vou.

— E se for para entender o que aconteceu e chegar a um acordo?

Olhei para ele.

— Nesse caso, podemos tentar.

Marcamos uma reunião com os advogados para a semana seguinte.

Eu saí do apartamento levando duas caixas.

Rafael ficou parado na porta.

Nenhum de nós percebeu aquilo como reconciliação.

Era outra coisa.

Pela primeira vez desde a noite no hotel, estávamos prestes a entrar numa sala em que ninguém poderia resolver o problema gritando mais alto.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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