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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

Levantei-me antes que alguém pudesse responder. Minha sogra também se levantou, indignada, como se minha simples decisão de ir embora fosse mais uma ofensa pessoal. — Senta, Helena. Essa conversa não acabou. — Para mim, acabou no momento em que vocês decidiram que eu precisava pedir desculpas por ter sido enganada.
Rafael se colocou entre mim e a porta. — Você está tomando uma decisão enorme de cabeça quente. — Passei a noite inteira acordada, Rafael. Tive bastante tempo para esfriar a cabeça. — Você está destruindo três anos de casamento por causa de uma situação que nem sequer entende direito.
— Eu entendo que você mentiu sobre onde estava. Entendo que entrou num quarto com Lívia. Entendo que ela beijou você e você não se afastou. E entendo que, quando fui pedir explicações, sua primeira preocupação foi a vergonha que eu poderia causar. A sala ficou quieta. Pela primeira vez desde que eu chegara, ninguém conseguiu reduzir tudo à frase “não aconteceu nada”.
Lívia enxugou as lágrimas. — Foi um beijo, Helena. Eu estava bêbada. Foi errado, eu admito, mas o Rafael não teve culpa. — Ele teve uma noite inteira para sair daquele quarto — respondi. — E teve alguns anos para aprender onde deveria existir um limite entre uma amiga e um homem casado.
Minha sogra fez um gesto irritado. — Você está se aproveitando de um erro pequeno para acabar com uma família. — Não. Estou parando de fingir que um erro deixa de existir quando todo mundo chama de pequeno. — Depois olhei para Rafael. — Vou buscar minhas coisas em casa hoje.
A expressão dele mudou. — Nossa casa também é minha. Você não vai entrar lá e simplesmente levar tudo. — Não pretendo levar tudo. Só o que é meu. O restante será tratado da maneira correta. — E quem colocou essas ideias na sua cabeça? — Ninguém precisa colocar uma ideia na minha cabeça para eu entender que não quero mais viver com você.
Meu sogro finalmente interferiu. — Vocês dois precisam de alguns dias. Não decidam nada agora. — Eu respeito o senhor, mas a decisão sobre continuar casada não pode ser votada por esta sala. — Ele abriu a boca, mas não respondeu.
Meu celular vibrou. Era minha mãe. Ignorei a primeira chamada. Na segunda, saí para o jardim e atendi. Ela não perguntou se eu tinha enlouquecido nem mandou apagar as fotos. Apenas perguntou: — Você está segura? — Estou. — Então venha para casa se precisar. O resto vocês resolvem com calma. A simplicidade daquela frase quase me desmontou mais do que toda a discussão anterior.
Quando voltei, Rafael estava sozinho perto da porta. — Lívia foi levar meu pai para buscar o resultado dos exames — disse. — Eu não perguntei. — Helena, nós precisamos conversar sem todo mundo em volta. — Nós acabamos de passar horas cercados por gente que acha que nosso casamento é propriedade da família. Agora eu preciso ficar sozinha.
Ele baixou a voz. — Não houve sexo. — Olhei para ele. — Você acha que essa é a única linha que um marido pode cruzar? — Não foi isso que eu quis dizer. — Mas foi exatamente isso que você escolheu usar como defesa.
À tarde, fui ao apartamento. Rafael chegou pouco depois. Comecei a colocar roupas, documentos pessoais e meus equipamentos de trabalho em duas malas. Ele ficou encostado na porta do quarto. — Você realmente vai embora? — Vou. — E o estúdio? — Amanhã estarei trabalhando normalmente.
— Minha mãe tem razão sobre uma coisa. Eu ajudei muito aquele estúdio. — Fechei a mala. — Talvez. E se isso tiver alguma consequência financeira, nós vamos verificar documentos, números e responsabilidades. Não vou discutir patrimônio aos gritos no corredor. — Então agora eu virei uma planilha? — Não. Agora você deixou de ser alguém em quem eu confio.
Rafael passou a mão pelo rosto. — Eu errei por não ter te contado. Errei em ficar no quarto. Mas você também passou do limite quando expôs todo mundo. — Talvez. Posso responder pelas minhas escolhas. Quero saber quando você vai começar a responder pelas suas. Ele ficou em silêncio, mas dessa vez não parecia indignado. Parecia não ter uma resposta pronta.
Antes de sair, coloquei sobre a mesa as chaves que não precisava levar. Mantive apenas a chave necessária para buscar os objetos restantes depois. Rafael acompanhou meus movimentos com uma expressão que misturava raiva e incredulidade. Até aquela manhã, ele provavelmente acreditava que “divórcio” era uma palavra dita para assustar.
Quando cheguei à porta, ele perguntou: — Para onde você vai? — Isso não muda nada. — Helena, eu sou seu marido. — Por enquanto. A frase atingiu Rafael de um jeito diferente de todas as anteriores.
Saí do apartamento e, no elevador, abri a agenda do celular. Procurei o contato de uma advogada que já havia prestado um serviço simples para o meu estúdio meses antes. Não pedi que ela “acabasse” com ninguém. Não falei em vingança. Apenas escrevi: “Preciso entender como formalizar uma separação e organizar meus documentos.”
Quando as portas do elevador se abriram no térreo, recebi a resposta: “Podemos conversar amanhã de manhã.” Guardei o celular. Pela primeira vez desde o hotel, não estava pensando em Rafael, Lívia ou minha sogra. Estava pensando no que eu faria a partir dali.
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